Sobre a dignidade

 Estou pensando em Como era verde o meu vale e No tempo das diligências , em como John Ford sabia dar dignidade a seus personagens. Os indivíduos todos daquela família galesa, sem exceção, revelam seus defeitos e suas virtudes ; às vezes mais até do que as pessoas do mundo real, eles expressam vida, ânimo. Os filhos socialistas discutem com o pai conservador, mas tanto este como aqueles desejam um mundo mais justo, ideal este sempre colocado acima de suas ocasionais ideologias.

No famoso western, bandidos, malandros e prostitutas também são vistos como seres passíveis de virtudes. Talvez vejam aqui uma filosofia determinista – o meio determina o homem – mas eu vejo algo mais sutil: o meio interfere no homem, mas não é isto que o determina. Do mesmo modo que eu não vejo com bons olhos a ideia de que a genética determine o caráter, me parece simplista demais achar que o indivíduo seja um mero ecoar do espaço em que ele reside. Talvez por isso, a relação afetiva que eu tenho com esses dois filmes seja-me tão marcante.

A dignidade merece elogios. Pensei nisso particularmente nos últimos dias, quando ouvi uma aluna dizer que apenas passar de ano já é o suficiente e quando vi outra comemorando um 5,3. Por outro lado, no mesmo ambiente, vi uma garota de dez anos dizendo que ficar de recuperação não é tão ruim assim, afinal desse modo ela poderá rever a matéria, corrigindo os erros cometidos. E também foi bastante agradável ser abordado por um jovem – que também havia tirado 5,3 – em busca de dicas para poder melhorar o desempenho.

 O desejo de evolução, a busca por novos limites a serem superados, é uma excelente conduta. Estou certo de que esses jovens também apreciariam os filmes do Ford.

***

P.S.: E O jovem Lincoln, a dignidade do protagonista mostra-se mais caricatural, mais simbólica que verdadeira. É o defeito deste filme pelo qual nutro certa simpatia, mas nem de longe paixão.

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