Hai kais na sala – 3

 Na semana passada, meus alunos de Valinhos e São Paulo trouxeram-me seus primeiros haikais. Publiquei-os aqui, divulguei-os em sala, imaginando que isso poderia incentivar outros a seguirem o exemplo. Deu certo!

Com

Pálio incrustado
de pequenas luzes
diamantes no breu.

o Andrey conseguiu uma descrição bastante poética do céu noturno. O pálio, aquela capa / cobertura que Bilac já havia associado ao céu noturno, aparece de modo mais sólido, como se as luzes estivessem grudadas a ele (imagem esta de extrema felicidade). “Diamantes no breu” mantém a antítese e o belo contraste que os bem-aventurados encontram no céu noturno.

Já neste da Ana Carolina,

A luz da lua
ilumina a cidade
antes escura.

temos a imagem de uma cidade que ficou sem energia elétrica. Pouco a pouco, a escuridão ameniza-se graças ao luar. A aluna trabalhou bem a variação da pupila quando se depara repentinamente com uma intensidade menor de luminosidade.

Já o Marcos Magalhães foi quem mais me mandou hai kais. Destacarei dois que me agradaram mais:

O vento acaricia
a árvore noturna:
os ramos despertam.

Nesse a natureza, tal qual nos textos de um poeta romântico como Álvares de Azevedo, expressa vida e sensualidade. Já neste, a antítese formula uma espécie de sabedoria milenar oposta ao que Salomão escreve no Eclesiastes:

O som é grande quando
alcança o rio a gota d’água
que de uma árvore caiu.

Enquanto o pretérito rei chora a velhice, esbanjando nihilismo (“todos os rios correm para o mar e, contudo, o mar nunca se enche”), o Marcos prefere uma mensagem de otimismo, desvinculada felizmente da solução facilitadora dos livros de autoajuda: a gota pode se transformar num barulhento rio. Há ainda, coisa típica dos bons textos, uma outra possibilidade de interpretação: o barulho de uma gota d’água caindo no rio, ao contrário do que o hai kai formula, é quase imperceptível. Para ouvi-la é preciso conseguir um estado de atenção / meditação dos mais profundos. Ponto para ele! Aliás, ponto para todos eles!

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2 pensamentos sobre “Hai kais na sala – 3

  1. Professor, quando criei o hai kai dos ramos que balançam eu estava preso no engarrafamento ontem quando estava voltando da escola e notei uma árvore, ela estava balançando. Em cima de meu prédio tinha notado uma enorme árvore que balançava, mas não era só isso, ele parecia ter vida. Ele parecia quando o vento batia nela, uma tribo indígena em volta de uma fogueira, em um ritual(parece estranho mas essa foi minha interpretação). Mas quando estava no engarrafamento, não tinha muita coisa pra fazer então olhei pela janela do carro e vi uma árvore, que balançava ao vento, dai pensei em fazer um hai kai, e para dar vida ao vento eu falei que acaricia a árvore, pensando em dar vida ao vento como no hai kai do Nazivon: Na floresta, a calmaria E a folha de tão tonta, balança à voz da floresta
    No verso ” Balança à voz da floresta” destaca vida à floresta, uma coisa que deixa um haikai ainda melhor. Bem eu estou deixando a história do hai kai por que muitos alunos acharam que o sentido era aquele que você comentou, e eles ficaram me zuando por causa disso, sendo que a ideia era mostrar que a natureza parece ter vida, e nós não notamos quando ela nos chama, então por favor fale para os alunos (daas três classes) que esse não era o sentido

    • Caro Marcos, acho estranho seus colegas tirarem sarro por causa de um texto tão bem escrito. No entanto, para lhe evitar maiores chateações, darei sim o recado.

      Abraço.

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