Que maravilha!

 Cheguei para o Andrey Chen, lá de Valinhos, e perguntei se ele tinha algum haikai novo para me mostrar. Meio desapontado, ele negou com a cabeça. Talvez ele tenha sentido, no meu tom de voz, uma cobrança indevida – pensei. Não queria pressioná-lo; ele é uma boa pessoa, gosto dos textos dele (ambos já divulgados aqui no blog). Queria apenas saber se ele tinha algo novo em mãos. Mas, não tinha. Não naquela hora.

 Dez minutos depois, se tanto, ele chega a mim com seu pesado caderno. Leio:

Poente de junho
mata dores da beleza
as aves caídas.

Reclamei. Não fazia o menor sentido uma imagem, por mais bela que fosse, eliminar ou mesmo atenuar o assassinato dos passarinhos.

– Mas, professor. Ali, no segundo verso, é uma palavra só, “matadores”.

Humildemente, reli o poema. Percebi então uma grandeza que me escapara na primeira e equivocada leitura. Escrevi-o na lousa:

Poente de junho
matadores da beleza
as aves caídas.

Pedi ajuda à sala. Um aluno de dez anos, com agudeza surpreendente até mesmo para um adulto, percebeu a antítese no primeiro verso: trata-se de uma tarde de final de outono, começo de inverno; logo uma tarde fresca, amena. No entanto, o poente carrega cores “quentes” (amarelo, laranja e, principalmente, vermelho). Juro que não havia percebido com tanta nitidez a beleza do verso.

O haikai, como vimos, começa com um verso muito poderoso. O segundo verso traz uma questão, Quem são esses matadores?, que é respondida elipticamente no verso final.

Inevitavelmente, temos de voltar ao primeiro verso. O bom haikai, o bom texto de modo geral, sempre pede uma releitura. O primeiro verso passa a nos revelar um novo detalhe: as cores fortes que compõe a antítese com a tarde fresca remetem ao sangue das aves abatidas.

Juro que neste texto eu não fiz nenhuma intervenção. Mesmo se não considerássemos que faz apenas duas semanas que o Andrey vem praticando haikais, mesmo se não considerássemos que ele tem apenas 10 ou 11 anos, vendo a qualidade de seu texto já me sentiria surpreso. Se considerarmos, que palavra definiria meu estado que não entusiasmado?

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15 pensamentos sobre “Que maravilha!

    • É verdade! Ele usou a metrificação clássica do haikai:

      Po/en/te/ de/ ju(5)/nho
      ma/ta/do/res/ da/ be/le(7)/za
      as/ a/ves/ ca/í(5)/das.

  1. Oi Rodrigo, tudo bom? Acompanho seu blog, e sempre gosto muito do que seus alunos escrevem, mas confesso: dessa fez fiquei realmente impressionada…. o Andrey tem apenas 10 anos? Logo quando vi o primeiro verso lembrei da “Morte do Leiteiro”.

    Um beijo,

    e parabéns pelo blog!!

  2. Oi professor tenho um hai kai:

    A inocente lebre
    Que caminha ignorante
    Em direção à morte

    Este hai kai não tem sentido algum.
    Ai tem uma antítese, repare, uma LEBRE não CAMINHA, mas sim corre ” a lebre no caso seria sinônimo de rapidez”.

    • O que acontece se tirarmos o “que”? Veja
      1)
      A inocente lebre
      que caminha ignorante
      em direção à morte

      Dá a impressão de que a frase ainda não terminou. Que nem em “o homem que usa óculos [faz o quê?]”.

      2)
      A inocente lebre
      caminha ignorante
      em direção à morte

      Aqui o sentido é pleno. Que nem em “O homem usa óculos”.

      O primeiro modo dá um certo suspense. O que tem aquela lebre que caminha em direção à morte? O que acontecerá com ela? Morrerá ou não?

      Já no segundo modo, não há dúvidas. O texto é taxativo: a lebre caminha em direção à morte e ponto final; ela vai morrer.

      Eu prefiro a sua versão.

      Abraços.

    • Oi, Marcos, já estava com saudades dos seus textos.

      Este haikai novo tem uma imagem bem bonita. Ele foi inspirado em algo que você viu ou o fez por meio da imaginação somente?

      Abraço.

  3. Parabéns, Ricardo!
    É um espaço fantástico para refletir sobre a arte das palavras e imagens buriladas pelo mestre e seus discípulos! Exemplo de que a sala de aula é o espaço fecundo para semear, pois para crescer e frutificar todo lugar é lugar!

    • Obrigado, Luccas.

      Concordo contigo. É muito gratificante ver os alunos dando frutos tão bons ou ainda melhores que a semente.

      Abraços.

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