Adega de madeira

Era feveiro, ela chegou com toda pompa, purpurinas e serpentinas. O marido até parecia uma criança recebendo bola de capotão, isso na época em que não havia W11 e coisas do tipo. A esposa lustrou-a após passar pano úmido para tirar traços de pó que vieram com o caminhão. Assim que posta no canto mais frio da cozinha, ganhou dois malbecs argentinos, se não caros, ao menos bem escolhidos. Nos dias seguintes, chegariam um carmenere chileno e uma meia garrafa de vinho do Porto. Ela até ganhou uma festa de apresentação, na qual metade das garrafas esvaziaram rapidamente. Estavam felizes. Todos eles.

Em março, seguindo religiosamente as indicações da importadora, o marido mandou trazer quatro indicações “best buy”, duas abertas em menos de vinte e quatro horas. Nem dava para a adega familiarizar-se direito, mas isso pouco importava; ela era a queridinha do casal – o gato até andava sentindo ciúmes, imaginava que perderia um pouco de espaço quando lhes chegasse um improvável futuro filho – a situação não estava propícia à chegada de uma terceira pessoa – mas ser posto de lado por causa de um monte de madeira no qual ele sequer podia deitar-se era demais! Estavam felizes. Todos eles, menos o gato.

Chegou abril, e algumas contas também. Não era fácil manter um padrão de gosto elevado com rendimentos tão acanhados. O primeiro efeito da crise foi a qualidade das garrafas: a importadora foi trocada pelo supermercado; as pinots, pelos genéricos. Não demorou muito e o esforço em repor as garrafas diminuiu drasticamente. O ponto auge foi quando o gato deitou-se sobre a adega e ninguém esforçou-se para tirá-lo de lá.

Em maio chegou a decisão. Era melhor dá-la para o amigo enófilo que tinha condições de cuidar melhor da coitada.

A casa nova mostrou-se promissora. No vocabulário do novo dono não havia eufemismos como “best buy”, “boas promessas” e outras desculpas de gente que não tem grana. Lá ela logo ganhou a companhia de uma pinot “de verdade”, conheceu malbecs e carmeneres que custavam mais de três dígitos, além de receber a promessa de que exemplares europeus de primeira linha estavam prestes a chegar.

Junho foi um mês maravilhoso.

Julho, tão parecido no nome, tão parecido na temperatura, foi praticamente a mesma coisa. Teve um dia em que o verão resolveu mandar lembranças, mas foi só um dia, quase ninguém reparou.

Em agosto, o verão voltou a aparecer. Dois, três dias, no máximo. O dono coçava a cabeça. Problemas no trabalho, talvez.

No começo de setembro, antes mesmo de o primeiro verão dar as caras de vez, houve uma mudança radical: as garrafas não estavam mais na adega de madeira; foram todas transferidas para a climatizada que ficava numa sala escondida com as verdadeiras preciosidades da casa. A adega de madeira não reclamou; outras garrafas chegarão. Antes que chegassem, no entanto, serviu de abrigo para jornais velhos que se empilhavam sobre ela. Não, ela não se sentiu humilhada – nem deu tempo para isso. Os jornais começam a encher a paciência do dono e este mandou todos para o lixo. Inclusive a adega.

No fim das contas, se bobear só o gato sentiu falta da sua caminha de madeira.

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2 pensamentos sobre “Adega de madeira

  1. Fiz um hai kai, tomara que goste:

    Planta abandonada
    Chora e se derruba
    De fato açoitada

    Tente perceber que este hai kai fala sobre o inverno

  2. Marcos, você trabalhou bem a métrica (desconfio que na próxima vez você se arriscará a colocar pés; arrisque-se!).

    No entanto, acho que o desejo de conseguir metros perfeitos fez com que você usasse palavras excessivamente.

    Não me parece que o “chora” estaja bem empregado. Questão de gosto. Acho que uma imagem de tragédia calada se destaca mais do que a imagem de uma tragédia em lágrimas. Você tem todo o direito de discordar, claro.

    Se ele fosse meu, eu faria algo mais ou menos assim:

    Planta
    abandonada ao vento gélido (ou gélido vento)
    quase desplantada.

    A minha ideia é parecida com aquela que você deu ao William: isolemos a planta para realçar seu abandono.

    O segundo verso seria maior exatamente para indicar a força do vento.

    E no terceiro, uma brincadeira com o nome “planta”. “Desplantada” seria uma espécie de “antigato”; a planta deixa de ser planta.

    Ah, caso você opte por…

    Planta
    abandonada ao gélido vento
    quase desplantada.

    …note que manteremos as redondilhas menores (versos de cinco sílabas) disfarçadamente:

    Planta
    abandonada (5) ao gélido vento (5)
    quase desplantada. (5)

    Sacou?

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