Outro dia

Deixaram outro dia aqui no blog anonimamente o seguinte poema:

Outro Dia

Nasço dos restos da última aurora,
Sinto o seu aroma leve e macio…
Talvez com um pouco de novo brio,
Quiçá tendo a languidez ido embora…

Vivo bebendo perfumes agora;
Sentindo calor no mais rijo frio,
Ou volvendo a ser lúgubre e sombrio
Como tanto já fui, porém outrora.

Morro de minha alma envenenado…
Sendo triste, ou com assaz alegria;
Em nada crendo, ou sonhando num fado…

Mas não morri, vivo mais que vivia,
E renasço com sombras no passado,
E renasço na aurora de outro dia.

***
Demorou um pouco, mas consegui um tempinho para lê-lo com a devida atenção. Meus comentários encontram-se logo abaixo:
***
Caro anônimo [Paulo?] Pantaleão,
 
Começarei por uma análise formal do seu poema:
 
Outro Dia

1 – Nas/ço/ dos/ res/tos/ da/ úl(7)/ti/ma au/ro(10)/ra,
2 – Sin/to o/ seu/ a/ro/ma/ le(7)/ve e/ ma/ci(10)/o…
3 – Tal/vez/ com/ um/ pou(5)/co/ de/ no/vo/ bri(10)/o,*
4 – Qui/çá/ ten/do a/ lan/gui/dez(7)/ i/do em/bo(10)/ra…

5 – Vi/vo/ be/ben/do/ per/fu(7)/mes/ a/go(10)/ra;
6 – Sen/tin/do/ ca/lor/ no/ mais(7)/ ri/jo/ fri(10)/o,
7 – Ou/ vol/ven/do a/ ser/ (6)/gu/bre e/ som/bri(10)/o
8 – Co/mo/ tan/to/ (5)/ fui/, po/rém(8)/ ou/tro(10)/ra.

9 – Mo/rro/ de/ mi/nha al(5)/ma/ en(7)/ve/ne/na(10)/do…*
10 – Sen/do/ tris/te, ou/ com/ a/ssaz(7)/ a/le/gri(10)/a;
11 – Em/ na/da/ cren/do, ou/ so/nhan(7)/do/ num/ fa(10)/do…

12 – Mas/ não/ mo/rri/, vi/vo/ mais(7)/ que/ vi/vi(10)/a,
13 – E/ re/nas/ço/ com/ som(6)/bras/ no/ pa/ssa(10)/do,
14 – E/ re/nas/ço/ na au/ro(6)/ra/ de ou/tro/ di(10)/a
.
 
Imagino que você buscou decassílabos com pés predominantes na sétima sílaba (não digo sáficos, pois não houve posição fixa para a primeira cesão). No entanto, em seis versos não vejo esse ritmo – num outro (o nono) a sétima sílaba está numa, chamemos assim, pretônica (saída esta de que eu gosto). Deixemos minha hipótese rítmica de lado.
 
Com ou sem pé, é claro notar a busca pelos decassílabos. Acho, porém, que dois versos ficaram meio forçados. No terceiro, a pronúncia sugere-me uma elisão a mais:
 
Tal/vez/ com um/ pou/co/ de/ no/vo/ bri(9)/o,* > com um = “cum”
  
Mas nós dois sabemos que nem todo poeta faz uso disso. Vamos ao outro verso, então, no qual também vejo a necessidade de uma elisão a mais:
  
Mo/rro/ de/ mi/nha al/ma en/ve/ne/na(9)/do…*
  
Quanto ao ritmo, o que tenho a dizer é isso e isto: é bom ver sua preocupação métrica (quem se arrisca num soneto não é, em hipótese alguma, uma pessoa acomodada). Mas acho que você poderá evoluir bastante sendo ainda mais rigoroso com a sonoridade. Gostaria de ver um poema seu com pés rígidos. Será que essa proposta lhe agrada? Não a veja como ofensa ou desfeita, por favor. Estou escrevendo o comentário com o carinho atencioso de quem imagina que o autor deseja muito uma análise rigorosa em vez de afago na cabeça.
  
Agora vou ao sentido:
  
A primeira estrofe indica elementos de transição (nasço, aurora, novo brio, ido embora) trabalhados com um interessante tom dramático (restos, última), lembrando certos poemas simbolistas que privilegiam substantivos abstratos (aroma, brio, languidez) e aqueles concretos que não conseguimos tocar (aurora); a efemeridade faz-se ver. E vê-se também uma transformação sendo sugerida – daí a importância do “talvez” e do “quiçá” – sem eles a segunda estrofe não seria muito convincente.
 
Falando nela, a segunda começa trazendo duas personalidades marcando o eu lírico: de um lado as cores fortes e vivas de quem bebe perfumes e sente calor no mais rijo frio (recado a meus alunos do sexto ano que por ventura estão lendo essa análise: esse tipo de idealização ou exagero serve para indicar que a personagem possui uma força interior maior do que aquelas do universo no qual ela está inserida; trata-se de um forte e belo apelo à capacidade individual), do outro o tom sombrio que ameaça voltar (outro recado a meus mais jovens alunos: já aqui vemos o contrário. O universo ao redor da personagem é extremamente forte e ameaçador, quase uma personificação das sombras.)
 
A terceira estrofe começa com uma forte tensão: a força negativa que ameaça a “saúde” do eu lírico é chamada de sua própria “alma”. Qual será a natureza humana, se é que temos uma? Deixando Sartre de lado, por ora, acompanhemos o desenvolvimento da questão: o dois versos seguintes esticam a antítese anunciada no parágrafo anterior. Ao leitor fica a pergunta: quem vencerá? O corpo, que está sendo envenenado, ou a alma, que envenena?
 
O desfecho, no parágrafo final, evita com sabedoria uma conclusão simplista e homogênea. O eu mostra-se vivo, mas estar vivo não significa aquela coisa de final de novela ou conto de fadas, em que todos ficam felizes para sempre, perfeitos, prontos, engessados. O renascer, o dia de amanhã, é marcado tanto por nossas sombras quanto por nossas luzes. “A penumbra guarda um estético segredo…”
p.s.: esqueci-me de comentar as rimas:  fico feliz por ver que você tenha evitado o uso de rimas pobres, de mesma classe gramatical.
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4 pensamentos sobre “Outro dia

  1. Parabéns, anônimo, por seu poema. Gostei muitíssimo do primeiro verso do soneto: “Nasço dos restos da última aurora” que aponta para a renovação das coisas, o nascer daquilo que resta, do que sobra, o nascimento de uma fênix? 🙂

    E, claro, gostei muito das análises feitas pelo Rodrigo. Um privilégio ter o poema lido por ele.

  2. Caro Professor, agradeço muitíssimo a análise e a crítica: estou cansado de afagos sobre poesias minhas que contém erros um tanto graves de metrificação, ou de sentido. Eis portanto um poema que creio ter pés mais rígidos, no entanto creio que erros podem ser encontrados. Eu o fiz para ser proclamado. (Tenho poemas com pés muito mais rígidos do que o seguinte, porém, neles, há excessos de contrações, rimas pitorescas e pobres.)
    Obs: Nesse poema não há muitas rimas ricas.

    Uma Nova Pátria

    O terror nos olhos do povo medra
    Pela morte sem lume… Sem fulgor…
    São tantos que nas desventuras morrem,
    E mais tantos que vivem sem amor!
    Nas ruas, que a morte triste embalsama,
    Morre alguém nas mãos de quem jamais ama,
    Alguém morre nas mãos de um bravo mar!
    Quem me dera poder andar nas ruas,
    Quem me dera vagar à luz das luas,
    Sem medo do vil Führer me matar…

    Quero viver como outrora eu vivia…
    Quando eu podia pensar e viver,
    Mas hoje alguém olha em meus tristes olhos
    E vê minha vontade de alguém ser…
    Sou mais um Führer, todos hão de sê-lo:
    Um animal num inverno de gelo,
    Um inverno de gelos infernais…
    Quero ver amanhã o sol raiando,
    Quero ser livre, escrevendo e pensando…
    Vós, liberdade e razão, onde estais?

    Povo, pessoas, sede muito livres,
    Podeis ser muito mais livres que sois…
    Derrubai o Führer, homem maldito,
    Cuja vida expira agora ou depois.
    Heis de ter mais glória e mais liberdade,
    Inexiste uma única verdade:
    Mereceis algo mais – um coração!
    Matai o Führer, homem mentiroso,
    Tereis um sentimento mais honroso:
    Acreditai somente na razão.

    Precisamos de mais democracia…
    Juntos, nada nos acontecerá…
    Lutemos por uma Pátria mais livre…
    Hemos de ter a liberdade já!
    Marchemos juntos em todas as ruas,
    Do Führer, são vis as palavras suas:
    A voz da razão hemos de escutar!
    Se nós morrermos, teremos na lousa:
    “Foi grande varão, e agora repousa,
    Deu-nos liberdade para pensar.”

    E saímos à procura da glória:
    Criaremos a nossa paz aqui…
    Esse vil varão não merece a Pátria,
    Nem merece todo o poder pra si!
    Nós marchamos agora à sua morte…
    Antes que seu reles pescoço eu corte,
    Dir-lhe-ei que nada… Nada mereceu!
    Queimará no inferno pela eternidade,
    A sua morte é nossa liberdade,
    E nada mais no mundo será seu.

    Derramaremos todo aquele sangue
    Que nossa Pátria tanto derramou:
    Liberdade, e nada mais nós queremos,
    Liberdade… O sol ‘inda não raiou…
    Podemos já ver o brilho da aurora,
    Na Pátria… Na Pátria raiando agora
    Um pouco de paz em meio ao terror…
    Depois das trevas, chegando a alegria;
    Depois da noite, finalmente o dia:
    A Pátria brilhando um novo fulgor.

    Mas era tudo uma ilusão terrível…
    A Pátria teria um fulgor jamais…
    Nem mesmo nas campas há liberdade,
    A vida é de morte, e de nada mais…
    Talvez a Pátria nunca tenha brilho,
    Mas sei que no coração de meu filho
    Haverá o sonho de um novo amanhã…
    E posso ver escrito em minha lousa:
    “O grande e bom varão que aqui repousa
    Morreu contra uma ditadura vã!”

    Paulo Barcellos Pantaleão

  3. Eu fiz um hai kai, me esforcei, mas coloquei pé:

    Bei/ja/-flor(3)/ na/ bri(5)/sa,
    Pin/ga_or/va(3)/lho/ no/ seu/ bi(7)/co.
    E/ re/fres(3)/ca_a/ vi(5)/da

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