Eu, não.

 
Eu não acredito no Corinthians. No Maracanã, naquele jogo de 45 minutos, cada um deles jogados contra apenas dez adversários, o time alvinegro não conseguiu assustar. É verdade que rondou a área, mas com o excessivo cuidado do jovem virgem que se deixa assustar pela namorada; a força de atração torna-se barreira. Contradições do amor e da bola. Se o time não furou um bloqueio de dez jogadores, furará um de onze?
 
Se o problema fosse só esse, talvez houvesse esperança. Mas basta ao urubu colocar um gol, um mísero gol, na meta paulista para que o dono da casa tenha de devolver o triplo. Com uma torcida pouco paciente, o trauma dos recorrentes fracassos em libertadores doerá forte em cada fiel que não será digno do nome.
 
Sim, há quem diga que desta vez teremos Dentinho numa ponta e seu clone, Jorge Henrique, na outra. Dentinho, aliás, é um jogador símbolo do corintianismo: possui uma raça ímpar, que mal dosada pode se transformar numa expulsão tola – poucos percebem, mas abandonar a batalha é o jeito mais fácil de assumir a covardia; a torcida finge não se dar conta disso. Mas – diz-me o corintiano crente nas forças alvinegras – Dentinho e São Jorge não só anularão os laterais, como também chamarão para si um zagueiro, deixando a área livre para Ronaldo, enfim, brilhar. Ótimo! Basta combinar essa estratégia com o time carioca e tudo estará ganho. O problema do corintiano crente é imaginar que iremos enfrentar um adversário acéfalo.
 
Se do lado de cá temos Dentinho atormentando a zaga adversária, do lado de lá eles têm Vagner e mais um meia que deverão fazer o mesmo com nosso terreiro. Basta colocar um volante cobrindo os avanços do Juan e eles terão um eficiente ponta-esquerda em busca de um tento, apenas um e tudo estará acabado.
 
Ora, mas desta vez teremos o Jucilei na lateral, ocupando o lugar do promissor, mas imaturo Moacir (não por acaso, em Tupi, seu nome significa “o filho da dor”). Em vez de solução, teremos outro problema: Jucilei, ainda que não seja habilidoso (às vezes seu passe lembra o de um perna-de-pau), é raçudo e não treme nunca. O técnico deveria mandá-lo à frente com a missão de não recuar até sair um gol. Seria esta a nossa chance. Seria se não houvesse um adversário dos mais fortes do outro lado.
 
O grande problema, me parece, é que o time já entrou derrotado. Meu pessimismo é fruto justamente do senso de derrota que o time transmitiu quarta-passada. Pedi uma pizza, pensei em abrir um vinho, mas estava apreensivo: aquela chuva deixou a partida em semieterna suspensão; que outro nome teriam os quarenta e cinco minutos iniciais? Depois veio a expulsão do flamenguista, mas nem nosso técnico se empolgou. Ele parecia prever que o time estava anestesiado, com medo de vencer. O que mais explica a canelada que Ronaldo deu na bola momentos antes de tomarmos o gol?
 
Sim, tem ele. Talvez na quarta Ronaldo volte a ser Ronaldo. Ele, o grande jogador que foi, merece um fim de carreira mais digno. Ele, mais do que ninguém, sabe o que é reverter um jogo. Se o time superar essa fase, crescerá como um gigante, dizem-me. É verdade, concordo. O problema é transformar esse “se” numa realidade. Há suposições que estão condenadas a ser meras hipóteses. Gosto da surpresa no futebol, aí está a sua graça. Gostaria de acreditar numa reviravolta, mas não consigo.
 
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3 pensamentos sobre “Eu, não.

  1. Texto brilhante, digno de ser publicado. Infelizmente me deixou desanimada para o próximo jogo…Mas, fazer o quê? Essa é a verdade…doída…

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