John Ford X Corinthians

 Penso o que fazer nesta noite de quarta-feira. O salmão curte seus últimos instantes na grelha; o chadornnay está na temperatura ideal. De bucho abastecido, só me restará uma lacuna a preencher: o que ver na tv?

 O título da crônica já antecipa minha hesitação em como ocupar duas horas da noite de hoje. De um lado, John Ford é o diretor que eu mais venho apreciando em 2010; do outro, o Corinthians, no ano do centenário, ainda não deu motivos para tal.

 De um lado, a certeza de que verei um grande filme, talvez não tão poderoso e ossudo quanto Rastros de Ódio ou delicado e simpático quanto Como era verde o meu vale. Não importa. Em John Ford eu sei que posso confiar.

 Do outro lado, a forte desconfiança de que o time e a torcida vão se esforçar muito, mas cedo ou tarde um gol, um mísero gol da negra ave carnívora, fará a fúria abater o controle; o enlouquecido Dionísio mandará a pontapés Apolo para bem longe de si. Até mesmo o capitão William, que tão bem se portou na final da Copa do Brasil 2009, pode voltar a ser o possuído que mereceu a expulsão na final do mesmo torneio em 2008.

 Todo corintiano lúcido já deixou de confiar no alvinegro. Na contabilidade de cada torcedor consta um gol rubro-negro a ser anotado após os 40 do segundo tempo. Pode parecer excesso de pessimismo, mas creio que essa seja a melhor notícia para o descrente fiel.

 Ninguém, ninguém lúcido relembro, acredita que Ronaldo voltará a ser Ronaldo, que Dentinho jogará bem o jogo todo sem ser agraciado com o temível cartão vermelho, que a zaga alvinegra anulará o preguiçoso e perigoso atacante adversário.

 O imponderável bateu na trave duas vezes essa semana: o Santo André quase tirou a taça do invencível Santos de Pelé, Kaká e Cristiano Ronaldo; um time peruano quase eliminou o melhor time da América. O futebol precisa de surpresas, de vitórias inacreditáveis. Sem elas, ele perde a graça, que nem o automobilismo na época em que o sapateiro alemão, o melhor de todos, esbanjava sua infinita superioridade.

 Os deuses do futebol certamente pretendem aprontar alguma. Penso porém em 2009. Final da Copa do Brasil. Em poucos minutos, o Corinthians estragou o jogo ao exigir do inimigo uma quantidade impossível de gols.

 No ano passado, o Corinthians subverteu sua tradição e conquistou um título sem maiores emoções. Sim, é triste admitir, mas ele merece ser punido. Se nesta noite houver um escolhido, este será o Atlético Mineiro,  numa história bonita, se incrível esforço e superação, uma história digna de John Ford.

P.S.: Se bem que em várias histórias do grande mestre, por mais que haja esforço e dedicação, o tom trágico não escapa aos protagonistas.

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Um pensamento sobre “John Ford X Corinthians

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