O cocô

Pensava ser um tatu. No entanto, assim que escapou da toca, uma estranha gravidade puxou-o para cima, fazendo com que ele desse de cara n’água. Abriu os olhos. Assim que notou a porcelana clara, e os últimos respingos amarelos tocaram-lhe o tórax, deu-se conta: jurava ser um tatu, mas era apenas um cocô.

Logo em seguida, sorriu, mas o mesmo turbilhão gostoso que lhe fazia cócegas no umbigo levou-o em direção ao esgoto. Enquanto deslizava de tubulação em tubulação, tentou recitar Augusto dos Anjos, “o beijo, amigo, é a véspera do escarro”, mas não quis ser taxativo; há males que vem para o bem, pensou sem notar seu raciocínio contraditório.

Assim que as pequenas veias levaram-lhe à artéria principal, alegrou-se. Havia mais espaço para se esticar. Respirou fundo, arrejando as ideias. Nunca fora um tatu…

Alguns metros adiante, vieram-lhe uns semelhantes. Que alegria sentiu quando lhe examinaram a genética:

– Você é derivado de um feijão. Linhagem muito nobre e poderosa! – disse o vermelho-beterraba deixando transparecer um certo ciúmes.
– Eu diria que ele é derivado de não um, mas de diversos grão. Uns duzentos gramas, estou certo – disse o esverdeado, orgulhoso do acerto gramatical.
– Feijão preto.
– Dos bons.

Orgulhou-se de não ser um reles tatu.

Quando chegaram ao rio, porém, cada qual foi para o seu canto (ou para aquilo que se tornaria seu canto, caso você, leitor, prefira Sarte aos deterministas). O vermelho-beterraba foi adubar plantas aquáticas, o esverdeado sumiu sem dar adeus, um mais franzinho esfarelou-se por completo, criando uma lembrança pictorial de que ninguém jamais se esqueceria – pena não termos uma câmera, alguém resmungou. Ele, nosso amigo cocô, nadava feliz da vida quando, após uma mordida enganosa, foi pescado. O garotinho, virgem de pescaria e de todo o resto, pôs o bagre sujo na sacola plástica e correu para a casa. A avó coruja e míope, já de forno aceso, tacou um tempero esperto sobre o bicho e começou a marcar os minutos. Não demorou para que o avô insensível, ruim de tato mas bom de olfato, tacasse a travessa bem longe, no fundo do quintal, acertando de respingo em duas ou três galinhas. O menino, a avó, as galinhas, todos ficaram ofendidos, até o cocô. Que m…, pensaram.

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