A dupla de ataque da França

 Ontem no Frei Caneca, assisti a Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, documentário que retrata a relação dos dois maiores nomes da Nouvelle Vague francesa.

 O filme começa atiçando nossa memória afetiva, com a bela e marcante cena final de Os incompreendidos, evocando aquela sensação dúbia de coragem e insegurança, de convite a essa coisa ambígua e volúvel que é o amadurecimento. Não duvido que isso seja uma estratégia para cativar o expectador.

 Na sequência, é traçado um interessante perfil dos “jovens turcos” (simplesmente “rebeldes”, na legenda): Truffaut, mais animado e passional; Godard, mais intelectual e esnobe.    Este mais politizado, aquele mais ligado ao entretenimento; um preocupado em se comunicar, o outro enfatizando sua forma ímpar de se expressar[1].  Sim, ambos foram extremistas e afetados (os elogios desproporcionais que Truffaut rendeu a seu, então, amigo; a fingida recusa de Godard em satisfazer o púlico[2]), mas sinto que, nesse dualismo cultural, o filme favoreceu Truffaut. Sua autoironia mostra-se mais atraente que as provocações baratas de Godard. Obviamente, você pode discordar, dizendo que Godard elitizou seu cinema como forma de recusa ao populismo a que se rendeu Truffaut. Bom, para resolver essa questão, teremos de assistir ou reassistir a seus filmes e depois, abastecidos de um bom café, continuarmos o papo. Ora, se um filme é capaz de estimular esse tipo de contato, ele tem méritos de sobra. 

 De modo geral, o filme é bastante claro e didático, talvez esquemático e simplista – mas isso eu não tenho condições de apurar. Em todo caso, imagino que irei revê-lo daqui a algum tempo quando eu tiver amadurecido melhor minha cultura cinematográfica. Como os bons vinhos, ele aguarda e merece um paladar mais apurado.

 

 


[1] Sei que o dualismo cultural é extremamente perigoso e, ironicamente, massificador. Basta lembrar de Machado x Eça; Mário x Oswald; regional x universal; engajamento x estética e outras versões menos conhecidas desse agitado e monótono fla-flu.

[2] Isso me lembra a proposta do Teatro Oficina que tenta escandalizar o público com cenas de sexualidade às quais o público já está acostumado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s