Philip Morris

Minha esposa e eu aproveitamos o feriado da Parada Gay para assistir I love you, Phillip Morris (estranhamente traduzido como “o golpista do ano”) no Shopping Paulista – lugar cheio de filmes “blockbósters” e adolescentes barulhentos. Para quem não sabe, trata-se da história de “Steven Russell, policial e pai de família, que abandona os princípios convencionais impostos pela sociedade para viver luxuosamente sua homossexualidade”. O engraçado é que nem todo mundo havia lido a sinopse. Quando deu meia hora de filme, um casal de velhinhos começou a trocar olhares espantados quando o protagonista saiu do armário; logo após uma troca de beijos entre Jim Carrey e Rodrigo Santoro, o casal saiu da sala. Dez minutos depois foi a vez de um grupinho de adolescentes, agora calados, sair de fininho. Ao longo do filme, uns saíram, outros ficaram demonstrando em voz alta sua repugnância com as cenas de amor homo.

Quem aqui frequenta sabe que eu gosto de observar os expectadores. Semana passada, aliás, fui ao Teatro do SESC Consolação assistir a Policarpo Quaresma, peça de Antunes Filho, adaptada do romance de Lima Barreto. Como você sabe, nesse livro, um dos intuitos do autor era desmascarar o ufanismo nacional; a história toda é marcada pela quebra de expectativas. Para minha sorte, na segunda vez em que fui ver a peça, consegui um bom lugar, na primeira fileira. Para meu azar, logo atrás de mim havia um casal de maritacas. Comentários extremamente oportunos como “que atriz feia!” (em relação à moça que foi abandonada pelo noivo nas vésperas do casamento) e “credo!” (em relação ao ator gordo e negro vestido de mulher) me espantaram pela pertinência e sagacidade. Quando, no fim da peça, logo após os guardas da prisão colocarem um capuz preto na cabeça do protagonista, a mocinha do banco de trás se superou: “acho que ele vai morrer!” – quase me virei para aplaudi-la! Os amigos me seguraram, tentando me convencer de que eram atores minuciosamente treinados para nos transmitir subliminarmente o seguinte recado: até mesmo nosso público culto é essa escória aí que você está vendo; não idealize o Brasil, não se empolgue com os brasileiros.

Bom, melhor voltar para o filme de ontem. O trecho final do parágrafo anterior até parece ter sido escrito pelo Diogo Mainardi.

A apresentação dos personagens é bastante esquemática: Russell é policial, homem de família e cristão, uma trinca de valores do mais tradicional conservadorismo. No entanto, conforme seu cotidiano é apresentado, duas pistas são reveladas: seus olhares para o modo banalizado com que a esposa entoa suas rezas; o modo mecânico e artificial com que eles exercitam-se na cama. Logo em seguida, em oposição a essas imagens, teremos uma cena de “amor” brutal e cheia de energia com outro homem e a rebeldia contra Deus (que lembra um pouco uma cena de Forest Gump, quando durante uma tempestade, o tenente Dan Taylor esbraveja contra o todo poderoso).

De resto, em resumo: Assim que Russel decide viver como gay, ele percebe que isso lhe exigirá um maior poder financeiro, desse modo ele se torna um golpista compulsivo. Sua destra habilidade, seu raciocínio lógico e os oportunos golpes de sorte com que conta, tudo isso lembra marcantes filmes de ação da linha 007 e afins. Seu relacionamento afetivo com Phillip Morris (o competente Ewan McGregor, que conseguiu construir um personagem empático, frágil e doce, em completa harmonia com o papel) tem lances de humor e sensibilidade; o filme tenta passar da comédia romântica ao drama com certa leveza, mas peca em alguns pontos fundamentais.

 

Minha esposa crê que algumas escolhas do filme estimulam a manutenção do preconceito e da discriminação contra os gays. Por exemplo: quando se diz que ser gay custa caro, estes- são diretamente associados a uma vida de afetação e aparências; as cenas de insinuação sexual parecem excessivas e, assim, despropositadas, como se dessem a entender que o homossexualismo se classifica melhor como uma tara sexual do que como uma relação afetiva.

Também é verdade que Jim Carrey se perde um pouco com suas caretas e canastrices, mas desconfio de que a má atuação possa ter sido proposital. O ponto alto do filme é aquele que antecede o grande anticlímax, momento este em que Russell articula seu mais convincente golpe – talvez aquele que se lhe mostrou o mais importante de todos. Não direi mais para não estragar a surpresa.

Enfim, trata-se de um filme irregular (note que irregular não significa necessariamente ruim) que mescla diversos gêneros: uma comédia romântica com tempero excessivo; uma aventura cativante e envolvente; um drama que poderia ter sido mais valorizado.

P.S.: antes que alguém diga haver mensagem subliminar no título em inglês, afirmo: saí do cinema sem a mínima vontade de acender um cigarro.

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