A grande expectativa

Aproveitando a sequência de dias livres, ontem fomos ao teatro FAAP assistir a A grande volta, peça de Serge Kribus, traduzida por Paulo Autran e dirigida por Marco Ricca. De acordo com o que li no UOL, um dos atrativos da peça era o ator global Rodrigo Lombardi, de quem nunca ouvira falar. Isso, porém, não quer dizer muito, afinal quando assisti a Policarpo Quaresma eu também não conhecia o ótimo Lee Thalor. Enfim, sem qualquer tipo de expectativa pré-moldada, fomos curtir o espetáculo.

A grande volta conta uma noite na relação entre pai e filho. Assim que a peça se inicia, sabemos que Henrique, jovem publicitário de trinta anos, havia recentemente perdido o casamento e o trabalho – em termos concretos: ele ficou sem esposa, sem filho e sem dinheiro. E o pior: ele sabe ser o grande responsável por suas perdas. Como se não bastasse, ele recebe a inesperada e indesejada visita de seu pai (Fúlvio Stefanini), um velho ator decadente, que pretende ficar hospedado “uma semana ou outra… no máximo dois meses!”, afinal ele precisava se preparar adequadamente para seu grande retorno aos palcos: estrelar a peça Rei Lear, de Shakespeare.

Apesar das excessivas gargalhadas da plateia, estávamos assistindo a um drama. Aos poucos, o filho revela aquilo que a bagunça da sala já antecipava: sua vida estava em ruínas. Seu ferrenho racionalismo, disfarce típico da mais incontrolável das fúrias, fez com ele assumisse brigas sem sentido tanto com seu ex-chefe (no qual atirou um vidro de tinta após ter um trabalho criticado) quanto com sua esposa (contra a qual esbravejou violentamente por causa de uma lata de tomates). O problema do pai é parecido: sua dificuldade em manter um olhar crítico, em escapar das fantasias e devaneios, faz com que ele dê pouca atenção às palavras do filho, faz com que ele não perceba que seu grande retorno aos palcos é apenas um doce faz de conta.

Se existe um momento que ilustra bem essa situação, é quando eles discutem sobre a relação de Lear com sua filha Cordélia. Seria o velho pai um louco ranzinza e vaidoso? Seria a filha uma representante do pior pragmatismo fleumático? A convicção com que cada um se identifica com o personagem que melhor o simboliza é cômica. Disse ali atrás que pai e filho se parecem. Sim, o dito racionalismo de um e a paixão do outro são igualmente cegos, igualmente egocêntricos. Talvez aí esteja a grande causa da maioria dos problemas de relacionamento; a dificuldade com que abrimos mão de nossos pontos de vista para nos ouvir – ou melhor: escutar – aquilo que o outro tem a nos dizer. Reconhecer o interlocutor como um ser ativo, em vez de um mero receptor a nossas exclamações, eis a questão.

O título da peça, por seu exagerado otimismo, cheira a melancolia. São muitas as grandes voltas que a peça nos sugere. Desde o retorno aos palcos do grande Bóris, a mais óbvia de todas, até ao possível retorno da esposa, passando pelas tentativas de Henrique em conseguir um novo emprego, a peça nos faz pensar na dificuldade de encararmos racionalmente uma derrota. Sim, em alguns momentos ela provoca risos, mas um riso amargo que mal conseguimos aproveitar.

Anúncios

Um pensamento sobre “A grande expectativa

  1. Pingback: O grande inquisidor « Mutuca

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s