O grande inquisidor

Amanhã vou assistir novamente a peça O grande inquisidor (adaptação do capítulo homônimo de Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski), no teatro Ágora. Um pequeno resumo, para quem não conhece a história:

 Sevilha, século XVI, época áurea da Inquisição; época em que as fogueiras se alimentavam dos corpos impuros dos hereges. Surge um homem a quem os fiéis reconhecem como o cristo redivivo. Após  fazer truques baratos para impressionar o populacho – ressuscitar uma criança, curar um cego, essas mesquinharias… – o barbudo balzaquiano foi mandado atrás das grades por ordem do Cardeal (este sim com inicial maiúscula), o qual se tornou o responsável por inquirir do artista mambembe o segredo por trás de seus truques.

 Eis que começa a peça, o grande e privativo interrogatório em que o Cardeal fala e o pretenso cristo cala. Isso mesmo. Sinal de submissão ou de superioridade, o barbudo andante nada diz a peça toda. Apenas o Cardeal controla a palavra – e que palavra! Poucos artistas tratam tão bem o verbo quanto Celso Frateschi. Conheci-o ano passado no monólogo Sonho de um homem ridículo, e já fiquei impressionado. A título de comparação, mesmo numa peça de boa qualidade como Agreste, com artistas de grande capacidade como Joca Andreazza, a sensação não é a mesma; sua voz máscula e rija não alcança a suavidade que o papel exige – por isso ele se dá muito melhor em Anatomia Frozen; imagine então levar os ouvidos para degustarem o insosso Rodrigo Lombardi, na regular A grande volta, é  – no mínimo – decepcionante. Enfim, voltemos ao que interessa.

 A peça trata da liberdade, dádiva ou maldição?, que cristo legou à humanidade. Parece um texto ateu, no sentido em que todo o discurso do Cardeal parece remeter à ditadura cristã,  mas não custa lembrar que Dostoiévski era um cristão – um cristão heterodoxo, é verdade, do naipe de um Nelson Rodrigues, aquele que dizia gostar da religião, mas não gostar de religiosos. Eu, pessoalmente, simpatizo-me com esse tipo de conduta. Certa vez percebi que os judeus que eu mais admiro são justamente os não religiosos: Chaplin, Grouxo, Wood Allen, fora um antigo professor da faculdade que, se não me fazia rir como os outros três, foi-me mais importante que o resto da lista. E eis que o texto parece empacar – mas não é acidental, tenho pudor em contar mais do que o necessário; a peça ainda está em cartaz e – ao lado de In on it – é daquelas que eu faço questão de rever. Para terminar:

Aparentemente, O grande inquisidor é um monólogo, visto que apenas Celso Frateschi, o inquisidor, faz uso da voz; Mauro Schames, o cristo reencarnado, só emite o próprio calar. E isso basta. Pouco a pouco, a fala do Cardeal vai apresentando e defendendo seus argumentos ao mesmo tempo em que, à moda dos grandes narradores machadianos, eles revelam o triste segredo guardado sob a máscara dos dogmas. Não por acaso, no final da peça, acusador e acusado trocam de lugares. Quando uma regra se torna mais importante do que o ideal que lhe deu vida, é imprescindível que a burlemos.

 Parece-me normal que muitos cristãos reclamem, mas creio que muitos outros ficarão felizes em ver (rever) a grande lição de liberdade, sempre ligada aos grandes homens.

 Real ou mito, desde que a lição seja apreendida, pouco importa.

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2 pensamentos sobre “O grande inquisidor

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