Mary e Max

 Mary e Max é uma bonita animação que conta o convívio epistolar de uma jovem garota australiana e um problemático judeu novaiorquino, ela com oito, ele com quarenta e quatro anos. Ele um aspie, ela uma criança, cada qual cultivando seus grilos solitariamente até que, num lance de sorte, eles começam a troca de cartas que duraria pouco mais de uma década.

 Que diferença faz uma década? Ela deixará de ser uma criança insegura e se tornará uma jovem e experimentada adulta, ainda que não plenamente amadurecida (e quem é plenamente maduro?); ele continuará engordando e envelhecendo, mas até mesmo para os velhos o tempo passa, trazendo-lhes novas rugas e experiências. Nesse ponto o expectador talvez se sinta convidado a relembrar a última década e a valorizar mais a que está por vir – ou talvez eu tenha me sentido assim por a idade e as doenças estarem mais íntimas de mim ultimamente, pouco importa. O certo é que a vida, com seus amargores e imperfeições, também pode ser doce como uma pitanga. E por isso, por nos fazer sorrir e sofrer, o filme é tão cativante. Não, ele não é leve como O pequeno Nicolau, nem alto astral como Harold and Maude (traduzido no Brasil como: Ensina-me a viver), mas é mais tocante que ambos.

 Agradou-me, por exemplo, a grande diferença de linguagem e símbolos  articulando os diálogos. O universo mental da criança tanto quanto o universo mental do velho soam-nos estranhos, mas são apenas distantes, afastados do nosso dia a dia, às vezes pragmático demais.

 Àqueles que pensam que um desenhinho com menininha e velhinho trocando cartas seja leve e vazio como uma seção da tarde essebetiana, prepare-se, pois o filme não se submete a concessões primárias (aliás, o ator que dubla o velho, Phillip Seymour Hoffman, parece ter trazido um pouco do humor indecente do Truman Capote para a animação). Se você quer um filminho que lhe faça rir, anestesiando o cérebro, esqueça! Este provoca um riso daqueles que demandam consolo.

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4 pensamentos sobre “Mary e Max

  1. Mary & Max é uma delícia perigosa. Eu subestimei o filme por ser uma animação, mas esta animação é tem aquele ponto que nos pegamos refletindo semanas depois.

    • Laura, quando vi o trailler, confesso que não fiquei muito animado. No entanto, concordo que se trata de um filme de que vale a pena nos lembrarmos.

  2. Eu adorei o filme. Vi na época em que saiu Alice e achei que devido a este, Mary and Max não ganhou a atenção que merecia. Achei fantástico e muito sóbrio.

    O filme trata de inúmeros temas tabus com uma leveza impressionante. Morte, bebida, mendicância, perdão, sexualidade. Se tornou um dos meus favoritos.

    • Outra animação que me surpreendeu recentemente foi “Paprika”, de Satoshi Kon. Lembra um pouco “A origem”, com a vantagem de ter saído antes. Qualquer dia, após revê-lo, escrevo sobre este filme por aqui.

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