Onde andará Dulce Veiga?

 Não mais nos cinemas, não ainda nas locadoras, só restou a net. Depois de um ano procurando, eis que encontrei o filme, por preciosa indicação do Carlos Reinchenbach.

 OADV? (adaptação de um pequeno romance de Caio Fernando Abreu, dirigido por Guilherme de Almeida Prado) começa com uma pictorial e delirante cena em que Caio, um escritor anônimo e falido, discute com uma personagem da sua imaginação. É um belo cartão de visitas, visto que a ambiguidade realidade-delírio permeará boa parte do filme. Logo em seguida, vemos o escritor pé rapado sendo contratado como repórter num jornalzinho da cidade – o que significa, num determinado aspecto, vender a alma literária; visto que seus escritos devem obedecer às opiniões do jornal. Começo kafkiano e, como tal, nada animador para o protagonista, o qual se vê obrigado a entrevistar (para depois, obrigatoriamente, elogiar) a cantora e líder e estrela da banda Márcia Felácio (isso mesmo) e as vaginas dentadas (acredite!). Eis que começa a trama.

 Caio chega ao galpão onde aparentemente as meninas gravam um clipe. Se aquela música barulhenta e quase inaudível por trás dos ruídos traz a nós telespectadores a vontade de sermos surdos, a Caio trouxe a lembrança – corrijo: a recordação de acordes há muito (uma década, no mínimo) desaparecidos. Sim, aquela música (sic) era a regravação de um sucesso de Dulce Veiga, importante artista há muito desaparecida da mídia. Não fora mera coincidência, a garotinha loira (Carolina Dieckmann) é filha da marilyanamente loira Dulce Veiga – tentativa óbvia de criar uma intersecção entre a tara do protagonista e do telespectador; para quem aprecia a cereja do bolo, funcionou perfeitamente.

  Num detalhe narrativo muito bem construído, notamos que Caio fica curioso em saber o paradeiro de sua musa, no entanto – eis uma das chaves do filme – quem decide que ele deve investigar o paradeiro da cantora não é ele, mas a direção do jornal – que no momento mostra-se como um ser abstrato, representado pelo editor chefe (Cacá Rosset). E é isso que ele faz. Procurando pistas, Caio descobre peças de um quebra-cabeça que ele não consegue montar. Primeiro, Dulce Veiga desaparece durante as filmagens de Metaphora (sugestivo, não?), filme de suspense, cena decisiva e aparentemente clichê: Dulce está numa grande e (conforável? opressiva?) segura casa, quando ela ouve um uivo ameaçador, um uivo que destoa do ambiente em que ela se encontra. Como toda mocinha de filme de suspense, Dulce contraria nosso desejo precavido e conservador, ela caminha em direção à floresta, ao desconhecido. Ela desaparece. Outras peças:

 Patrícia, a “bateirista-relações públicas-namorada” da Márcia (Quem é Márcia? A filha da Dulce Veiga, a cantora daquele conjunto de nome obsceno. Ah…), é a filha rebelde de Lyla Van (Christianne Torloni), uma coroa, porém enxuta atriz que herdara  o papel principal e a suposta consequente fama que Dulce deixara para trás. Alberto Veiga (Oscar Magrini), o marido mais homo que bi, ex-diretor de cinema, atual diretor de teatro, era amante de Raudério, o suposto pai da filha de Dulce Veiga –  suposto pois, descobriremos adiante, o pai verdadeiro é Rafic (Nuno Leal Maia), o dono do jornal – sim!, ele que indiretamente incitara Caio a procurar a desaparecida Dulce – confuso, não?

 Pois é assim, tateando informações desencontradas (ou arranjadas), que Caio segue em busca de sua musa. O verbo não poderia ser outro: Caio tateia um universo que ele não consegue compreender – a nós, telespectadores, isso se revela por meio das cores saturadas que imprimem às imagens um tom de ambiguidade e fugacidade. Ótimo exemplo são as recorrentes imagens em que alguém aparece apontando a arma para o protagonista (culpa? autocomiseração?) ou aquelas em que vemos Márcia, ainda criança, surgir nas recordações de Caio. Aliás, não pense que a garotinha seja um toque de inocência e ingenuidade. Temos a profunda impressão de que aquela menina sabe muito mais do que o protagonista e nós sabemos.

 E aqui chego à revelação final. Se você prefere ver o filme antes que eu conte o final, agora é o momento de dar um até logo.

 Nenhuma pessoa pode dar a Caio as respostas que ele procura. Não que a ignorância paire sobre todos, mas ele logo percebe que ninguém é confiável (Neste aspecto, ele é muito mais convincente que os protagonistas de Roman Polanski. Quem não teve vontade de pular no pescoço da Rosemary, tamanha a demora dela em desconfiar das pessoas a seu redor?). A única pessoa que pode lhe dar as respostas é justamente Dulce Veiga. E ele a encontra. Mas ela não lhe dá as respostas. Vontade de matá-la? Sim, claro, mas o que fazer? A resposta parece óbvia, por isso a importâcia de ver o filme, sentir o clima que uma mera resenha não pode alcançar: Dulce Veiga não existe.

 Como assim? Não existe apenas uma Dulce Veiga. Há aquela coroa, ainda bonita, mas coroa, que ele acabara de encontrar na Amazônia, longe de tudo, longe de todos, mas perto de si, perto do seu canto (habilmente ambíguo). Há a Dulce Veiga que a mídia produziu, que o público conheceu, de que o público aprendeu a gostar, de que o público se esqueceu. Esta é a Dulce que ele tanto procurou, mas foi aquela que ele conseguiu encontrar. No fim ele perde. Quem ganha com isso somos nós. É Dulce agreste quem lhe explica o sentido simbólico da metáfora do Metaphora: a mocinha que invade o desconhecido da mata deixando o comodismo caseiro para trás (pensando assim, vemos que os filmes de suspense podem ser um tanto quanto caretas, não?).

 A Amazônia foi-lhes a libertação. Sim, para ele também, pois ao perder a imagem idealizada de Dulce (reflexo da má compreensão de seus próprios anseios), ele passa a reconhecer em si o objeto da busca. Dulce Veiga, a procurada, é o próprio Caio, ou a projeção feminina do seu próprio eu (não por acaso a desconfiança de uma homossexualidade mal enrustida, não por acaso a peruca loira que ele usa não só para enganar a polícia). Encontrá-la equivale a encontrar a si próprio. Talvez o objeto que admiramos valha mais por aquilo que pensamos dele do que por aquilo que ele realmente é. Se for o caso, vale a licença poética: Como é bonito vê-lo cantar no final do filme. O próprio ritmo da música, intermediário entre o tom calmo e sereno de Dulce e o ágil e agitado de Márcia, parece esboçar o que é o Caio, ou melhor: para onde ele quer ir, ou melhor: quais são os primeiros passos de uma vida que começa ali, naquela melodia cujo fim está além do saber.

P.S.: Minha esposa reclama que eu sequer mencionei a relação entre Caio e Márcia. Ela observa algo que eu considero muito revelador: Márcia não é apenas um simulacro rejuvenescido e – quiçá – melhorado de Dulce. Ela, sendo bissexual, é o “homem” dos sonhos de Caio (assim a jovem interpretou o desejo do rapaz). Também é possível que alguém reclame da licença poética de que me vali para alterar o final do filme. Poxa! Deixa, vai! No livro, ele canta sozinho. O amadurecimento é algo solitário.

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