Garrincha, em duas versões

 Pouco antes de começarem as férias, li Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro. A biografia daquele que talvez tenha sido o o segundo maior jogador do futebol brasileiro é impecável. Ou no mínimo muito além de satisfatória, até porque nos imprime um novo patamar de qualidade, tornando-nos mais exigentes.

  O livro começa contando a provável origem dos antepassados indígenas do jogador. Curiosidades como o cachimbo, uma espécie de panaceia caseira, remédio capaz de curar todos os males: “adultos e crianças o tomavam como purgante, xarope, fortificante e para combater gripes, lombrigas, coqueluche, asma e dor de dentes. Aos bebês era dado até como tranquilizante: uma ou duas colheres antes de dormir, para não terem sonhos agitados.” De que era feito essa maravilha? “Cachaça com mel de abelhas e canela em pau, posta para curtir numa garrafa envolta em cortiça e pendurada numa viga do teto”. Esquisitices como o indivíduo vingar-se de uma pedra, na qual tropeçara, devolvendo-lhe a dor à custa de dentadas. Até nos esquecemos de que o livro fala de quem se fala. Mas Ruy recuperará esses dados mais adiante, seja para tratar do permanente alcolismo ou da incrível simplicidade (não confunda com ingenuidade) do craque.

 Depois somos levados a conhecer o pai da criatura, Amaro, de quem o filho herdará o incrível apetite, por bebidas e por mulheres, a consequente indigestão que a ordem e o compromisso lhe proporcionava.

 Somando os dos últimos parágrafos, pode-se pensar que Ruy transcreve uma receita determinista: Garrincha foi o que foi por ter os antepassados que teve, por viver em meio à cultura em que vivia. Nada disso! Também somos apresentados a seu tio homônimo (Manuel; Garrincha só houve um) que, desafiando a tendência da família, se é que se pode usar tal termo, constrói uma vida de lutas e conquistas, sempre ao lado do esforço, da ordem, da constância. Fora isso, vemos que, se é verdade que o Botafogo pode ter lhe faltado com apoio em momentos capitais, é mais verdade ainda que sempre houve uma ou várias mãos estendidas a Garrincha, prontas a lhe socorrer um sem número de vezes. Ele, no entanto, fingiu não perceber, optando por uma autocomiseração que se tornou cada vez mais frequente de 1965/70 para frente.

 A tragédia individual do artista foi também familiar. Sobre sua casa em Pau Grande, a descrição (pp. 270-273) chega a provocar nojo. Uma amostra: “A imundície da casa horrorizou Elza. Havia objetos que pareciam caídos há meses no chão. As camas davam a impressão de não serem feitas nunca. Os colchões listrados, rotos e com mau cheiro, não tinham nada por cima. Sapatos e chinelos era atirados para baixo das camas, mas os exalantes urinois estavam à vista. / O banheiro, de cerca de quatro metros quadrados, era entulhado de gaiolas, além do poleiro do papagaio. O chão era um tapete de alpiste e cocô de passarinho. A pia era coberta de limo. O vaso não tinha tábua“. Sobre sua primeira mulher, Nair, sentimos um misto de pena e repugância: tamanha ignorância justifica ignorância tamanha? Não contarei aqui os detalhes de como ela foi tantas vezes enganada por seu “adevogado” (ele merece tal grafia) Dirceu Rodrigues Mendes.

 Felizmente, para Garrincha houve Elza. Mas, infelizmente, por mais que insistisse, nem Elza foi capaz de mudá-lo. Se o alcolismo foi a doença que lhe privou de viver a vida que ele tanto fez por merecer, ela não nascera sozinha como aqueles cânceres de pulmão que acometem os não fumantes; ele também tinha sua parcela de culpa, ainda que não a reconhecesse ou ainda que não se esforçasse o suficiente para combatê-la.

 Mas o livro também tem seus momentos felizes. A descrição dos primeiros jogos de Garrincha em Pau Grande, seus primeiros anos no Botafogo, as duas Copas do Mundo que ele conquistou, tudo isso nos faz ver por que ele merece a fama que sobreviveu à sua morte prematura (ou perlongada, considerando-se os hábitos insalubres que ele alimentou durante décadas) em 1983. É um livro de leitura rápida, ágil, dinâmica e fluente, comos os dribles do Mané.

 Nada disso, porém, pode ser dito do filme Garrincha: a estrela solirária (dirigido por Milton Alencar, estrelado por André Gonçalves). Há nele erros toscos como, numa cena, Garrincha, recém contratado pelo Botafogo,  anunciar que sua esposa está esperando um filho, e na cena seguinte, no mesmo ano, no mesmo mês, ela aparecer com três meninas (duas às mãos, uma à barriga).  Mas veja bem! – diria um defensor do filme – em 1954, Garrincha já estava para ter sua terceira filha com Nair. Pode ser, mas ele chegou ao Botafogo um ano antes. Licença poética? Eu não caio nessa.

 Outro erro tosco, talvez ainda mais grave, ocorre quando o filme sugere que Elza deixara Garrincha após saber que ele já tinha um filho homem com Iraci. De acordo com Ruy Castro, a separação é motivada por Garrincha não ter cumprido a promessa de parar de beber caso Elza lhe gerasse um filho; e ele não só  continuou a beber, como ainda punha em risco a saúde da criança. E, como se não bastasse, numa briga ele chegou a dar pontapés na criola – como ele a chamava carinhosamente. Quem vê o filme tem a impressão de que Elza o abandonara por mera vaidade.

 E o erro dos erros. Ao contrário do livro, em que a história é contada em terceira pessoa; no filme, o diretor opta pela primeira: é Garrincha que conta sua história, com uma quase onisciência que provavelmente ele nunca teve em vida. Soa completamente inverossímil que ele ecoe as reflexões que permeiam o filme. Veja bem: uma coisa é o Ruy traçar análises e reflexões sobre o papel que Garrinha representou, outra é o próprio Garrincha conseguir analisar-se num contexto amplo que sempre lhe escapou. Quem leu a biografia certamente sentiu-se ofendido pelo filme. Se você, caro leitor, não concorda com o que eu disse, ao menos concordará que as enunciações “poéticas” da narração não combinam em nada com o jogador.

 Perto disso, outros problemas são menores: o filme insiste abusivamente com as cenas de sexo, dando pouca ênfase ao futebol (sequer percebemos a importância do Garrincha na Copa de 58; sua última grande partida, aquela final do Campeonato Carioca de 63 contra o Flamengo, escapa rapidamente dos nossos olhos).

 Há mais, muito mais do que reclamar, mas como aquelas partidas chatas, monótonas, de falso pragmatismo, quanto antes acabam, melhor.

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6 pensamentos sobre “Garrincha, em duas versões

    • Oi, Jordy,
      Primeiramente, obrigado pela leitura,
      Concordo contigo: no que diz respeito a investigar a causa da tragédia individual e social do Garrincha, Ruy Castro é claro em apontar o alcolismo. E, como você bem notou, como uma droga de grande potencial, ela toma conta das decisões do indivíduo. O problema é que, assim como aconteceu com a aids na década de 90, assim como acontece com o tabagismo, poucas pessoas admitem ser passíveis da “doença”. Este é o primeiro passo para se adentrar cada vez mais nela.

  1. Olá, Rodrigo.
    Também senti falta do futebol. Apesar de eu ter achado o “Pelé Eterno” um pouco estrelista, foi muito mais prazeroso assistir a esse filme, no qual temos acesso a diversas imagens de arquivo de partidas jogadas por Pelé. Neste filme sobre Garrincha, vemos muito pouco de Garrincha. O que mais vemos é, como você disse, a imagem do homem que tem fome de álcool e de mulher (e não fome de bola, como o Garrincha narrador chegou a dizer algumas vezes).
    Ainda que a questão do álcool seja relevante para a compreensão da decadência do jogador, seria muito mais enriquecedor para o telespectador se pudéssemos visualizar de que forma o álcool afetou sua carreira, a partir de amostragens mais claras dos fatos.
    Parabéns pela análise coerente e por levantar alguns tópicos de importância.
    Abraços.

    • Exatamente. Por essas e outras, parece-me melhor colocar um vídeo com alguns lances do jogador em vez de colocar o trailler do filme.

      Beijos.

  2. Estou lendo o livro “Estrela Solitária”. Se garrincha não tivesse o defeito físico teria sido o maior jogador do mundo. Mané Garrincha foi muito maior que Pelé. Mesmo alcoólatra e de pernas tortas era melhor que todos. Fiquei muito indignado como o advogado ladrão: Dirceu Rodrigues Mendes, que rapou tudo que Garrincha lutou para ter.

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