Das aparências

Aparência não é tudo. Provo: na falta de leite, misture Jack Daniels com leite condensado. Apesar da similar viscosidade e textura, lamento; já era a mamadeira do nenê – em compensação, tem-se o drink ideal para pessoas de paladar doce que não dão a mínima para contagem de calorias e outras manias da modernidade. Por isso, repito: a aparência não é tudo. Às vezes frutas simpáticas como o mangostão, que se assemelha a um caixão coletivo de casulos,  ou o figo, cuja textura lembra o couro de um velho rato bolorento, são o alucinógeno que suas papilas tanto imploram.

Falando nisso, estou em dieta. Quero perder uns quilos e diversos gramas, sentir-me mais ágil e bem disposto. Veja: não disse que eu quero me sentir mais jovem; matinê depois da missa nunca me agradou, mesmo que – confesso – goste muito da mistura entre desejo e privação. Eis o ponto.

Não, não estou me sentindo tentado a flertar com assonânticas senhoras carolas da Freguesia do Ó; o pecado a que me refiro é estritamente circunstancial. Quanto mais eu fico sem comer, mais vontade eu sinto de o fazer. E quanto maior minha vontade, mais forças encontro para resistir à tentação. Como o conseguir?, perguntaria o amigo me arremedando a próclise. Vamos lá: quando estou voltando para casa, triste no ônibus balançante, começo a criar as receitas, i-nú-me-ras, que far-me-iam feliz como criança banguela. Talvez minha criatividade não seja grande coisa, mas sou muito imaginativo, um tanto desejoso, embora algo renitente. Quando chego à minha morada, já pensei em diversos pratos (tanto os de que poderei usufruir quanto os que aguardarão minha eventual magreza ou desistência da dieta). Estou numa época em que o raciocínio comanda o estômago. O resultado é que, mesmo comendo pouco, estou comendo bem.

Para quem comia um miojo minutos antes de dormir, não é fácil reduzir as calorias. Mas quando olho o prato e vejo, sobre o cozido de legumes, aquelas finas fatias de atum grelhado, regadas com molho de limão (um fio de azeite e duas pitadas de orégano), decoradas com folhas do meu quintal, ah!, até sinto pena do lâmen que, mesmo com o dobro de calorias, não alcança metade do sabor.

Ainda estou com sobrepeso, mas em uma semana perdi três quilos e meio! É verdade que às vezes tenho vontade de comer tudo que vejo pela frente, é verdade que já me flagraram babando em diversas vitrines, é verdade que meus amigos dizem que eu pareço meio obsessivo, mas – ora! – o que são as aparências?

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