Homens de antanho

 Solidarizo-me contigo, caro leitor: eu também nasci na época errada. Percebi isso ainda criança quando nas poucas vezes em que curti as férias no Quilombo, um escondido recanto do sul de Minas, ouvia meus meus primos contarem histórias de lobisomem e mula sem cabeça. Em Cruzeiro, cidade pequena porém cidade, não havia mais esse tipo de bicho. E hoje em dia, nem mesmo nos rincões mais perdidos parece haver.


Ah, o século XIX sim que era bom! Naquela época era muito mais comum encontrar uma mula acéfala no sertão ou um lobisomem visitando as vilas. Que saudades de antanho!
– Não, meu caro. Se você pensou assim, não concordo. Se vivêssemos lá, teríamos nosso próprio antanho, a Idade Média, lamentaríamos viver numa época em que o fauno, o unicórnio e as sereias só se conheciam por lendas. E se vivêssemos na Grécia de Sócrates e Platão, desejaríamos ter vivido antes do paricídio que deu cabo a Cronos.

 
O poeta espanhol  Jorge Manrique tentou cunhar esse sentimento com o dístico “Cualquiera tiempo pasado / fue mejor”. Talvez deslocando a frase constantemente para o passado, constatando o recorrente saudosismo a que nossa natureza parece estar amarrada, encontremos Adão – ainda com todas as costelas – indagando como seriam seus primitivos antepassados. Deus, desgostoso com tamanha e anacrônica heresia, num gesto de compreensível machismo, criou a mulher. Talvez não fosse nenhuma Brigitte Bardot, mas serviu para que Adão parasse de pensar bobagem. Aliás, do que a gente estava falando mesmo?

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