Quando éramos velhos

 Por causa do post anterior, tive de recorrer a algumas fotos antigas que há muito não via. Revisitar o passado não é algo que me vejo fazendo com constância, é preciso viver o presente, vida que segue, blá-blá-blá… Quem dera fosse tão simples. A verdade é que muitas vezes visito o passado, não para refazer mentalmente os caminhos que fiz ou para entender a pessoa que me tornei; não se trata de problemas de identidade ou coisa do tipo. O que procuro entender são as finadas pessoas que eu já fui.

 Não, não vou me valer de eufemismo. O Rodrigo de vinte anos existe na memória de poucas pessoas; o de quinze quase ninguém que eu conheço o conheceu; que dirá então o de dez ou o de cinco, que eu mesmo não sei quem foi. É duro admitir, mas o meu eu infantil está morto, e não deixou resquícios; nem uma carta sequer chegou até mim. Quando tento entender o que fui na juventude, só encontro imagens de um velho cada vez menos nítido na memória. O meu eu de dez ou cinco anos atrás não está ainda envelhecido; às vezes reconheço-o num ou noutro gesto; mas vivo mesmo, só o Rodrigo que sou agora, em 2010. Parece estranho, mero paradoxo lúdico, mas procure ler a sério: hoje somos mais jovens que vinte anos atrás. Não acredita? Faça as contas: há quantos meses você tem – digamos – vinte e cinco anos? Seis, sete? Agora: há quanto tempo você teve sete? Muito mais, não? É mentira dizer que hoje somos velhos. Hoje somos atuais, nossas células – boa parte delas – nasceram há pouco tempo. Aquelas que tínhamos na mais tenra infância ou já faleceram ou estão velhinhas, velhinhas, coitadas. Aliás, a – assim chamada – tenra infância, ela sim, é um paradoxo; quanto mais tenra, mais avelhada.

 Sim, você está certo. O Rodrigo de cinquenta, sessenta anos, que sequer chegou a nascer, ele sim, quando existir, será mais novo que todos eus. Obviamente, eu também estou fadado ao envelhecimento, por isso a insistência em registrar minhas impressões, minhas memórias – afinal, talvez algum dia ‘alguém’ queira saber quem eu fui.

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4 pensamentos sobre “Quando éramos velhos

  1. Olá, Rodrigo.
    Concordo com a ideia geral de seu texto, mas acho que não posso concordar com sua afirmação de que a infância não deixa resquícios. Você pode estar sendo específico, tratando apenas de sua infância, mas creio que você queira que aceitemos que o caso específico é passível de ser verificado em outros indivíduos.
    A meu ver, resquícios são deixados, ainda que de forma não consciente. Sejam traumas, sejam características que apresentamos na tenra infância, creio que essas coisas, de alguma forma, permanecem.
    É verdade que o indivíduo como um todo não será o mesmo e, nesse sentido, aceito o que você diz; mas resquícios, sempre existirão.
    Abraços e parabéns pelas reflexões.

  2. Acho que este é o único texto em que eu cito meu nome. E eu abusei: três incidência. Sem dúvida, este é o texto mais egocêntrico de todos do blog.

    Agora, quanto aos resquícios da infância: tudo aquilo que me parece ter sobrado deste envelhecido período soa como mera projeção, paralaxes mentais, tão verdadeiras quanto uma imaginação.

    Gostaria de ter algum registro objetivo de quem eu era naquela época, mas – como escrevi – não herdei nenhuma carta daquele sujeito que só conheço por fotos ou pelos depoimentos – nem sempre confiáveis – de familiares.

    Obrigado pela visita e pelo recado.

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