Retalhos

Visite sua memória: o primeiro dia letivo no início da finada década de 80, quando sua avó fazia questão de lhe acompanhar à escola, distante apenas quinze minutos de sua casa; as pescarias naquele riacho em que só se podia pegar alguma verminose; a horta do avô, na qual as plantas não tinham nomes nem função outra se não alimentar os porquinhos da índia; a primeira vinda a São Paulo, já para ficar, sozinho, inda imaturo, já meio perdido. Tudo bem que você não se identifique com essas imagens que sequer ganharam o registro de uma fotografia, mas pense nas suas; as recordações são uma colcha de retalhos que às vezes nos sugere ter sido construída por acaso, mas que sabemos – aos bem dotados de fósforo ao menos – possui fios e fios da uma coerência (não disse “harmonia”) às vezes inimaginável.

 Sim, essa metáfora não ganharia o primeiro prêmio de originalidade, mas isso não a torna menos verdadeira. Conforme envelhecemos aprendemos (será?) que a vida é perecível, passamos (sempre) a relembrar o que se passou e (às vezes) aprendemos com isso. A memória é uma bela interlocutora, tanto pelo que nos traz de alegria, mas também pelo que nos traz de amargor; você sabe que a vida não é guiada pelos livros de auto-ajuda, ainda que haja neles uma coisa ou outra que lhe possa ser útil. É mais ou menos sobre isso (a memória, não a auto-ajuda) que trata Retalhos, ótima HQ de Craig Thompson .

 Logo nas primeiras páginas ficamos sabendo que se trata de uma obra memorialística, o que não me é muito animador – talvez por ter pensado encontrar algo como A garota das laranjas ou  O vendedor de histórias, dois livros chochos do famoso Jostein Gaarder (aquele de O mundo de Sofia e O dia do curinga) em que nos deparamos com narradores egocêntricos que não sustentam a própria prepotência. Felizmente, eu estava errado.

 Retalhos, como o nome sugere, nos apresenta a inúmeros episódios da vida de Craig. O livro todo é feito de tensões: do seu relacionamento com o irmão, provamos da doçura lúdica, mas também do acre sabor da violência a que ambos são submetidos pelo baby sitter ou pelos colegas de escola (lembre-se de que bullying só foi reconhecido como problema ultimamente; quando eu era criança, os fracos optávamos por suportar passivamente ou por sermos taxados de afeminados, caso tentássemos reclamar);

do convívio com os pais, vemos como ternura e brutalidade ecoam de uma autoridade que nem sempre se distingue do autoritarismo; da vida social, o eterno conflito entre o indivíduo introspectivo e a coletividade acéfala;

da vida amorosa, a tensão entre desejo e castidade.  

 

  Tudo isso parece ter brotado de sua formação cristã – corrijo-me: tudo isso parece equacionado pela particular postura cristã com que ele vê o mundo a sua volta. A família de Craig é cristã, Craig é cristão, mas ele não parece sublinhar a conduta dos pais, do pastor ou de outros fiéis. Na verdade, mesmo na religião, ele se sente isolado, inseguro.

 Inseguro – convém analisar essa palavra. Craig sempre foi um jovem frágil, daqueles a quem uma força interior é imprescindível para suportar a desordenança do mundo. No entanto, ao contrário dos depressivos, ele percebe a importância de criar – a partir do próprio eu – uma nova ordem, um novo modo de encaixar-se no volúvel e labiríntico espaço. Muito bonito e significativo é quando ele queima seus desenhos, desapegando-se de um passado que urge ser deixado para trás.

  Hoje, olhando para trás, percebemos que pequenos atos, equivocados até, certas dores, que certamente gostaríamos de ter evitado, ajudaram a criar o indivíduo em que nos tornamos. Sim, quando olhamos para trás, toda aquela aleatoriedade, todo aquele caos de diferentes tecidos e texturas, toda a nossa vida possui um fio aparentemente desordenado que só ganha sentido agora, depois de pronto. Mas não se alegre muito. Ainda estamos a costurar; há mais retalhos pela frente.

 

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2 pensamentos sobre “Retalhos

    • Felizmente há tantas! E felizmente conseguimos, vez ou outra, nos impressionarmos com uma aquisição recente.

      Lembro-me do meu entusiasmo inicial com “Death Note”; pena que a história perdeu-se a partir da segunda parte (após a morte do L).

      “Retalhos”, por sua vez, é mais maduro; uma espécie de romance de formação, menos intelectual que um “O fazedor de Velhos” (novela de Rodrigo Lacerda), mas comovente como algu´ns filmes do John Ford (“Como era verde o meu vale”, “As vinhas da ira”) – guardadas as devidas proporções.

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