Harold and Maude

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 A sala ampla, com muitos móveis e espaços vazios, enquadrada pela grande angular, parece ainda maior e dominadora. Quando Harold aparece com sua cara de infante e roupas de adulto – escolhidas cuidadosamente para ressaltar a inadequação entre o ser e o espaço – é impossível não notar sua fragilidade. A trilha sonora (don’t be shy, de Cat Stevens), pouco a pouco trazendo-nos para dentro do filme, parece dialogar com o garoto, trazendo-lhe mensagens de incentivo. Em vão. Com menos de quatro minutos, temos um dos suicídios (de protagonista) mais rápidos da história do cinema. Ou melhor: teríamos.

 Na verdade, trata-se de uma simulação (talvez a décima quinta) que o jovem fez para chamar a atenção de sua jovem e bela mãe. Convém notar que o complexo de Édipo, ainda que Vivian Pickles seja um convite ao pecado, já estava meio fora de moda. Estávamos em 1971, época em que ainda era possível sentir o cheiro de Woodstock (de 1969) e do famoso 1968 (de 1968); a beleza em pauta, os critérios estéticos e – quiçá – ideológicos se baseavam na valorização da juventude e da experimentação; desejar a própria mãe, mesmo a Vivian Pickles, era de uma cafonice desmedida.  Mas quem disse que estamos falando de um jovem normal?

 Harold cultiva a morbidez. Não bastassem as encenações, ele curte frequentar velórios e enterros, aos quais vai no carro fúnebre comprado num ferro-velho. É num desses passeios em preto e branco que ele conhece a pictorial Maude.

 

 Vejamos: Harold, mal saído da adolescência, deve ter seus 20 anos, veste-se sobriamente, é sombrio, taciturno, introspectivo; Maude está a uma semana de completar 80, é alegre, informal (a ponto de nunca ser chamada pelo nome de batismo:  Marjorie) e expansiva, no entanto, ela também curte funerais. Combinação antitética meio óbvia, não? Voltaremos a isso depois. Continuemos.

 Outra música de Cat Stevens dá a dica (“I wish I knew / What makes me me,  what makes you you. / It’s just another point of view”, I wish, I wish): ainda que ambos frequentem o mesmo lugar, não o fazem com os mesmos olhos. Para Harold, a morte mimetisa o sentido de sua vida. Sim, sua postura é um tanto ingênua, a ponto de seus suicídios serem sempre de mentirinha, coisa de moleque mimado que não larga da barra da saia da mãe. Para Maude, a morte é uma espécie de confirmação da vida. Lembro-me que em Memento Mori, de Muriel Spark, uma personagem recebe a mensagem aparentemente fúnebre “Lembre-se de que vai morrer”, mas que na verdade não é nada mais nada menos que uma reformulação do famoso “Carpe diem [pois o futuro é incerto]” horaciano. Como dito no parágrafo anterior, enquanto o jovem Harold simboliza a morte, a velha Maude simboliza a vida. Olhando de agora, isso seria apenas um chavão em forma de antítese, mas se recordarmos que o filme cheirava a 1968, Woodstock e outras febres juvenis, perceberemos que ele está questionando um famoso lugar-comum da época: a hipervalorização da juventude dos jovens. Convém explicar a diferença.

 A juventude de expírito, se compreendida como ânimo, ímpeto ou vitalidade, de fato é o que é. Trata-se de um equívoco, porém, generalizar positivamente os jovens, imaginando que todos escapem facilmente da indolência, preguiça ou inércia. É verdade que hoje ainda há um desproporcional elogio da juventude (todos queremos ser j0vens, desde as crianças, até os idosos, passando pelos adultos, nenhum deles compreendendo devidamente o que afinal significa aproveitar a vida).

 A generalização, a sensação de que uma teoria qualquer possa compreender (etimologicamente, inclusive) por completo toda gama da complexidade humana, é um perigo. Por isso, são bem-vindas as ironias destiladas à imperativa masculinidade paternalista das forças armadas (representada pelo tio maneta), à psicanálise reducionista que a tudo e a todos tenta adaptar teorias freudianas (coisa que até o próprio Freud consideraria um despropósito), ao clero conservador que, mesmo sem o admitir, apega-se a modismos seculares como o faria um bom materialista – nem a informática escapa.

 Num certo momento da história, a mãe de Harold percebe que seu filho precisa amadurecer, que o jovem precisa de um casamento para, enfim, tomar jeito. Se você não entendeu o eufemismo, faça de conta que Harold seja um jovem de classe média para baixo, criado por um pai solteiro cheio de “disposição”; traduza o conselho da mãe para a voz masculina e, pronto!, é disso mesmo que estamos falando. Para que não houvesse problemas na escolha da parceira (digo: esposa), a mãe recorre à ajuda de computadores que, de posse dos dados do pretendente, escolheriam a candidata ideal. Por mais de um motivo, a cena é cômica:

 

 As meninas, afe!, traçam um engraçado retrato de época: Candy Gulf é uma jovem estudante esquerdista de ciência política, para quem o encontro com Harold nada mais é do que uma experiência sociológica;  Edith Phern é uma jovem trabalhadora (daquelas que precisam trabalhar), arquivista numa empresa de rações e sementes, seu carro é um significativo fusca; e, por último, Sunshine Doré, uma bela candidata a atriz. A todas elas, Harold entrega um pouco de seu humor teatral, seja fazendo uma ígnea auto-imolação, seja decepando a mão esquerda com uma machadinha, seja praticando um harakiri. Onde está a tão festejada juventude daquela época?

 Por óbvio que pareça, em Maude. É após encontrá-la que Harold abandona a tara pela mamãe, é conhecendo-a que ele enfim biblicamente conhece alguém, com ela ele aprende a ter apego e desapego pelas coisas (bonito e complexo, não?):

  Mas eis que chegamos ao clímax do filme, na noite de sábado, em que Maude se torna octogenária. Harold lhe prepara uma bonita e íntima festa de aniversário. É aí que se vê aquele que talvez seja o melhor diálogo do filme:

Harold: Eu espero que a próxima surpresa faça você ficar muito feliz.
Maude: Harold, eu estou muito feliz.

Antes, porém, de Harold pedi-la em casamento, Maude é que consegue surpreendê-lo, ao confessar que tomara uma overdose de remédios que a fariam morrer no decorrer da noite. Harold não entende como uma pessoa tão cheia de vida opta por uma decisão tão absurda (tampouco eu entendo). Ele corre para levá-la ao hospital, mas o inevitável acontece. A cena final sugere o leitmotiv, mas desta vez, com Harold já amadurecido, o suicídio é para valer:

  E de fato, finalmente Harold consegue se livrar da vida, daquela vida apática e sensabor de que todos nós deveríamos nos livrar.

  Personagens planos, antítese esquemática, título que cheira a auto-ajuda (no Brasil, ele é conhecido como Ensina-me a viver, tradução pobre que atenua o caráter íntimo da relação, tornando-a uma espécie de manual massificado), como Harold and Maude consegue sobreviver ao longo das décadas? Minha aposta: Hal Ashby, o diretor (também conhecido por Muito Além do Jardim [Being There], estrelado por Peter Sellers), enquadra a superfície sem desfocar o fundo. Lembrando que se trata de uma obra ficcional, o filme não precisa ser exatamente factível, a verossimilhança vem do seu aspecto simbólico. A morte de Maude, por exemplo, não precisa ser convincente. O foco do filme é o aprendizado de Harold.

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