Desconexões

Sábado, 23 de Outubro. Aproveitei as poucas horas de folga que teria no final de semana para passear com minha esposa pela região oeste da Paulista, ali onde os cinemas costumam oferecer opções além dos juvenilizantes.

 Jovens, envelheçam! – Nelson Rodrigues.

 Ela havia acabado de assistir a uma entusiasmante palestra no MASP (Adolescência Hoje), e se aproveitou da minha presença para decantar as inúmeras ideias que o psicanalista Joel Birman compartilhou naquela tarde. O compromisso do indivíduo com si próprio, as etapas do amadurecimento, o amadurecimento em si, isso soa tão conservador e ultrapassado que já não causa mais tanta surpresa ver inversões de valores sendo consideradas meros atos de rebeldia e liberdade.

 O próprio MASP, erguido sei lá quantos metros acima do nível da rua, deveria simbolizar uma alternativa ao vulgar. No entanto, mais de uma vez, tivemos de compartilhar orquestras de câmara, exposições e palestras com pessoas que deveriam ter ficado em casa assistindo à Zorra Total.  Há algo de egocêntrico e infantil naqueles que insistem em ir a uma palestra (ou a um cinema) para balbuciar com a pessoa ao lado em vez de permitir que o público possa curtir o evento. Se pensarmos que isso voltou a se repetir numa palestra sobre o comportamento insistentemente imaturo da sociedade moderna, até fica engraçado. Teria sido proposital?

 Há criaturas que chegam aos cinqüenta sem nunca passar dos quinze. – Machado de Assis.

O curioso é notar a quantidade de alternativas de que o jovem dispõe atualmente para amadurecer mais rapidamente. É inevitável pensarmos na internet, monumento das contradições, onde exibicionismo e anonimato, solidão e companhia, quase chegam a se fundir. É outro, porém, o par antitético que me interessa: a internet também é lugar de cultura e dissipação. Se nos lembrarmos de que cultura é também uma forma de dissipação (o indivíduo precisa sair de onde está para conhecer outros lugares), a condução do problema afligirá menos. A questão, como sempre, é reconhecer a existência de infinitos meios-termos, mas não se contentar passivamente com um lugar qualquer entre os dois pólos. Como fazer isso? Como saber se o ponto em que estamos denota conhecimento adquirido ou estagnação mental? Exatamente assim. Questionando-se. O amadurecimento não é uma fórmula pré-fabricada.

Quando leio um livro, fico 5% mais inteligente e 95% mais ignorante. – Millor Fernandes.
(citado de memória – ou de esquecimento)

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