Confabulando

De uns dias para cá, você tem pensando em alegorias.
É verdade. O discurso simbólico, a metáfora, essas coisas todas me interessam.

Mas elas vêm lhe interessando de modo especial ultimamente, não?
Sim. Depois de participar da realização do Furumbelo, comecei a esboçar as estruturas – ou melhor: os parâmetros para um novo projeto.

Explique-se.
Antes mesmo de ter uma estrutura, um roteiro, um mote, um ideal, comecei a pensar na linguagem com que poderei desenvolver novos projetos, sejam eles didáticos ou não. A alegoria me surgiu como uma boa opção.

Quando penso em alegoria, a primeira coisa que me vem à cabeça são as fábulas e os contos de fada.
Mas não só isso. A poesia…

Os evangelhos…
Os mitos…

Enfim, podemos dizer que a alegoria permeia nossa compreensão do mundo.
Eu diria que as melhores permeiam nossas incompreensões – com prefixo e no plural, por favor. Não gosto muito de obras de arte com pretensões didatizantes.

Você sabe, porém, que a moral é um atributo essencial da fábula. Há como escapar do didatismo?
Não sei se é realmente um atributo essencial. Sei, é claro, que os livros didáticos a tratam assim, mas o escritor deve ir além das premissas reducionistas.

Na sua opinião, a fábula ideal não transmitiria valores?
Toda obra de arte compartilha valores (“transmitir” supõe uma postura extremamente passiva por parte do apreciador). A questão é evitar os chavões e os lugares-comuns moralizantes que, aliás, são correntes em toda obra destinada a adestrar crianças. Pensemos, por exemplo, em As aventuras de Pinóquio.

O livro de Carlo Collodi? Você não o vê como uma espécie de romance de formação?
Sim. Um romance de formação infanto-juvenil: a criança tornando-se adolescente. Mas a fórmula não me parece ter envelhecido bem. Acho que em Alice, de Lewis Carroll, o discurso é mais bem articulado – e menos politicamente correto. Mas voltemos a falar de Pinóquio.

Fique à vontade.
É curioso notar que seu personagem mais interessante, mais complexo, mais humano, mais atual, costuma ser deixado em segundo plano. Não fosse pelo anacronismo, poderíamos dizer que Gepeto é o símbolo da solidão moderna, daqueles que buscam na ficção da internet o substituto à amizade verdadeira; o tom onanista com que cria seus bonecos de madeira ecoaria as incessantes tecladas de que nos valemos em busca de um pseudointerlocutor.

Pinóquio parece não sofrer desse mal. Vemo-lo arrependido, vemo-lo com remorsos, mas em momento algum ele parece de fato solitário.
Pinóquio é bastante previsível, meio simplista até.

Poderia ser diferente?
Creio que sim. A propósito, foi lançado ano passado um filme interessantíssimo, Air Doll, do diretor japonês Hirokazu Kore-eda.

Creio que ele foi exibido na Mostra Internacional…
Isso mesmo. Com um ano de atraso, ele chegou ao Brasil.

Ao menos chegou…
Se ele não chega até nós, nós chegamos até ele.

Conte um pouco a respeito do filme. Ouvi falar que é uma espécie de adaptação do Pinóquio.
Exato. O filme começa mostrando o cotidiano de Hideo, um solitário homem de meia idade, com sua boneca inflável. Ele conversa com a boneca, passeia com a boneca, janta com a boneca – com e sem preposição. Trata-se de um pobre coitado que conquista nossa pena e, quiçá, simpatia.

Não etimologicamente falando, espero.
Gosto é gosto. Enfim… Sintetizando: chega certo dia em que ela cria vida, resolve ir às ruas, conhecer um pouco da cidade, ver como se comportam as pessoas – sempre às escondidas, sem se revelar a seu parceiro. Ela chega mesmo a conseguir emprego numa locadora de filmes, onde conhece um jovem com quem sai eventualmente.

Ela não se releva a seu “marido”, mas sai a passeios com o colega de trabalho?
Parece estranho, mas isso se explica. Percebemos logo em seguida que ela não o vê como um namorado ou coisa do tipo – ela está ciente de que é um objeto, “um substituto do amor verdadeiro”.

Explique.
Quando Hideo “conversa” com a boneca, seu interesse não é trocar ideias, mas simplesmente expressar-se, fingir que tem com quem conversar. Quando ele a leva para passear, seu intuito não é alegrar a boneca (como se alegra um ser inanimado?), mas simplesmente satisfazer sua necessidade afetiva.

É verdade.
Além disso, ela descobre ter sido escolhida por se parecer com a ex-namorada do dono.

“Substituto do amor verdadeiro”
Afinal, ela é uma boneca.

Uma marionete.
Que nem o Pinóquio.

Pois é. Mas o Pinóquio em momento algum traça uma verdadeira reflexão existencial.
Tem uma cena de que eu gosto muito: num certo dia, ela se corta no trabalho e começa a vazar.

E o que acontece?
O colega de trabalho começa a assoprá-la. É uma cena muito sensual, de um intimismo profundo.

Bota intimismo nisso. Ele a preenche de ar, como se fosse um deus assoprando-lhe o espírito.
“La petite mort” torna-se “ la petite vie”.

Há mesmo essa insinuação no filme ?
Sim. Aliás, há três momentos de “insinuação” no filme: a cena da janta sem preposição, uma cena em que o chefe consegue o que quer por meio de uma chantagem e, a melhor de todas, esta.

Como o colega reage quando percebe estar diante de uma boneca?
Naturalmente. Sem nenhum estranhamento. Ele até confessa ser uma espécie de boneco inflável.

E de fato o é?
Não. Ele está falando em linguagem figurada, mas ela não percebe.

O filme parece valer-se de uma verossimilhança parecida com aquela que vemos em A metamorfose, de Franz Kafka.
Eis aí outra alegoria bastante aguda.

Falemos dela outro dia. Mas voltemos ao filme. Qual lhe parece ser a mensagem principal, a solidão?
Bem, não pretendo contar o desfecho, mas posso lhe dizer que um dos temas é a solidão. Todos são solitários: Hideo, a boneca, o colega de trabalho, o patrão repulsivo, outras personagens que aparecem eventualmente. No entanto, o mais importante é perceber: todos somos bonecas infláveis.

Todos somos?
Generalizei, mas você me entenderá. Nas relações humanas, muitas vezes rejeitamos adentrar nos problemas alheios. Abrimos mão de compreender as dores dos nossos amigos e fechamos nosso espírito a um convívio verdadeiramente humano.

O outro sempre é um alheio?
Esse aforismo cai bem. O outro só existe enquanto complementação da nossa própria existência. Não estamos dispostos a reconhecer no outro uma essência diferente da nossa. Queremos que o outro seja apenas o reflexo dos nossos próprios anseios.

Narcísico, não?
Bastante. É uma história extremamente dolorida.

Um ótimo exemplo do que uma fábula é capaz de criar.
Concordo.

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Um pensamento sobre “Confabulando

  1. Primeiro: adorei a ideia de colocar suas impressões e reflexões em forma de diálogo.
    Segundo: gostei das impressões e reflexões.
    Aliás, essa questão da solidão e da imagem narcísica são temas bastante presentes nos estudos psicanalíticos atuais.
    Os depressivos que o digam.

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