Matando o tempo

Grata surpresa: descobri uma boa opção cultural para as noites de quarta e sexta, a Mostra Internacional de Cinema na [TV] Cultura, com frutos oriundos da Dinamarca, Irã, Argentina, Áustria, entre outros. Sei que é possível variar o cardápio sem sair das produções norte-americanas, mas também sei que os cinemas dos recônditos podem trazer sabores inusitados e, por que não?, aprazíveis – às vezes nem isso nem aquilo, mas, enfim, o paladar foi feito para ser testado.

Meu Irmão Quer se Matar aka Wilbur Wants To Kill Himself (Lone Scherfig / 2002 / Dinamarca, Inglaterra, Suécia, França) conta a história de Wilbur, um insistente suicida em potencial, já famoso por suas tentativas frustradas de dar cabo à própria vida. O filme começa com Wilbur tentando se matar: ele fecha as janelas do apartamento, reduzindo assim a ventilação, depois ele liga o gás, que em minutos o envenenaria. Tudo pronto, basta despedir-se do irmão. Então Wilbur telefona a Harbour, tentando contar-lhe o porquê desse estranho desejo. Harbour, porém, em vez de ouvir as explicações filosóficas do caçula, prefere correr até o apartamento deste para tentar – e conseguir – salvar-lhe a vida.

Não foi a primeira, nem seria a última vez. As tentativas de suicídio são uma rotina na vida de Wilbur, e como tal banalizaram-se. Fora o irmão, ninguém mais se impressiona ou se importa. Órfão de pai e mãe que o tinham como predileto, sem amigos, sem namorada, sem nenhum interesse específico pela vida, Wilbur é um egoísta. Não, não foi um lapso. Não quis dizer niilista, você leu certo: Wilbur é um egoísta. Eis o tema do filme.

O par antitético de Wilbur é justamente seu irmão. Harbour, o primogênito, cresceu à margem do caçula, acostumando-se desde cedo a ser o coadjuvante. Preterido pela mãe, preterido pelo pai, preterido por si mesmo. Por isso ele nem se incomoda quando suspeita que sua esposa está  tendo um affair com Wilbur – nunca o vi tão feliz.

Em meio a personagens egocêntricos, Wilbur, Alice (a esposa), Horst (o médico), Harbour pode até se passar por altruísta. No entanto, a verdade é que em nada ele lembra os comoventes e heróicos seres que habitam os filmes de John Ford. Se em As vinhas da ira, Como era verde o meu vale ou em O jovem Lincoln, há de um modo ou outro um admirável desapego material, aqui o que temos é um ególatra às avessas, um egoísta que cultiva o ego de outra pessoa. Nem Wilbur nem Harbour são admiráveis. A prova definitiva, para quem a exige: Harbour é enterrado numa cova sem lápide, sem nada que o identifique, sem nada que preste a lhe preservar a memória, um túmulo isolado, invisível, como se feito para o esquecimento, como se feito para condenar um suicida.[1]

 


[1] Platão. Leis IX, 873 C2-D8, in Fernando Rey Puente, Os filósofos e o suicídio.

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