A flor escondida

Hoje cedo deixei minha esposa dormindo e fui ao mercado da rua de trás. Já estava com o cestinho cheio de tudo aquilo que eu precisava ou desejava, mas mesmo assim continuava caminhando pelas prateleiras, vislumbrando aquelas cores e símbolos que tanto nos hipnotizam quando vamos às compras. Foi assim, agachado, mirando as latas de atum, que fui invadido por um cheiro suave e delicado de jasmim que remetia a algo distante, esquecido em algum fundo da memória. Quis saber de onde vinha a fragrância, levantei-me e contornei a prateleira lentamente – com medo de espantar o perfume? – encontrando uma pequena senhora olhando sei lá o quê do departamento de limpeza. Cogitei perguntar-lhe o nome do perfume, mas hesitei.

 

Sabendo então de onde vinha, tentei compreender aonde aquele cheiro me levava. Taubaté, onde vivi 18 meses, 18 anos atrás? Talvez. A primeira imagem que me veio à cabeça é daquele shopping a que fui duas ou três vezes, sempre com medo de ser assaltado ao atravessar o viaduto. Mas que boa lembrança eu guardo daquele lugar? Lembro-me de ter ido lá com os colegas de pensão, sem nunca conseguir concretizar os sonhos das vitrines ou os desejos dos hormônios. Mas o mais curioso é que eu não tenho nenhuma lembrança olfativa do local. O olfato é que levou até lá.

 

Continuei seguindo a velhinha, fingindo interesse pelos sucos em pó, chás em lata, cervejas importadas. Ela foi conversar com o açougueiro, eu fui investigar os congelados. Tentei identificar um ou outro aroma, mas o ambiente não era propício. 

 

Teve uma vez, em que estava no shopping com meus pais, numa das poucas vezes em que eles puderam me visitar em Taubaté. Estávamos flanando, olhando zoologicamente as vitrines, com o afastamento habitual dos adolescentes quando caminham com seus pais, quando noto uma garota cruzando meu caminho, deixando porém seu olhar no meu. Se era bonita, se era perfumada, não tenho a menor ideia. Talvez nem tivesse o poder de atração que eu lhe atribuo, afinal não desviei meu caminho, não fui atrás dela. Ou talvez tenha ido, diversas vezes, em meus pensamentos. Mas talvez não. Talvez ela seja apenas uma explicação racional, um esclarecimento artificioso para algo que eu não consigo compreender. Houve outros olhares, em situações que me deixaram mais lisonjeado, em momentos em que eu de fato precisava inflar minha vaidade, mas estes cumpriram seu destino de durar apenas o que duraram, deixando apenas um pequeno rastro que não leva a lugar algum.

 

A velhinha não a vejo mais. Acabo de pagar a conta, ciente de que não voltarei a vê-la (ela usava vestido ou calça? tinha óculos? sua aparência, em menos de três minutos, já se torna um enigma). Não importa. Se algum dia eu topar novamente com aquele perfume, saberei.

***

De onde tirei o título:
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