Conversa de botequim

[…]

 – E Pierrot, le fou, de Godard?

– Há nele algo de anárquico. Pensemos, por exemplo, naquela festa burguesa logo no início. As conversas dos convidados são pura propaganda.

– É uma caricatura cujo grotesco é realçado a ponto de suprimir o indivíduo.

– Personagens destituídos de toda e qualquer complexidade, reduzidos ao símbolo.

– Os cavalheiros propagandeiam carros; as damas, desodorantes.

– Por isso é ainda mais surreal o encontro metalinguístico com Samuel Fuller. Ferdinand lhe pergunta o que é o cinema?

– E ele responde: Em poucas palavras, é a emoção.

– Godard ecoaria essa resposta?

– Acho difícil. Parece-me que ele encarna o estereótipo do intelectual francês: racionalista, frio, blassé.

– Enquanto que o cinema norte-americano seria emotivo e grandiloquente? É um tremendo reducionismo.

– Mas ele é incentivado pelo próprio filme. Ferndinand lê um ensaio sobre Velásquez à filha como se fosse uma cantiga de ninar.

– “Velásquez é o pintor da noite…” Como se desde cedo as crianças francesas recebecem uma educação saturnina.

– Por isso a ideia de anarquia. O filme parece uma imensa brincadeira. As cenas da fuga não são nem um pouco verossímeis.


– Nem pretendem ser. A influência do cinema B é muito forte em Godard.

– Discordo. Parece-me não ser o caso de uma relação passiva. Ele se apropria de características do cinema B norte-americano. Isso é diferente de ser influenciado. Se formos pensar nessa relação de mestre-aprendiz, acho que podemos citar Monty Python. Você viu Em busca do cálice sagrado?

– Sim. Uma divertida paródia do Rei Arthur e seus cruzados.


– Também aqui temos um espírito aventureiro. Aparentemente, foi necessário muito jogo de cintura para terminar esse filme.

– Os cavalos improvisados, as animações para economizar cenários…

– Mas isso em si não seria digno de nota se não houvesse uma coerência maior por trás de tudo. O filme é tão iconoclasta que tira sarro de si próprio.

– Mas em Pierrot, le fou, o espírito aventureiro tem outra razão de ser. A aventura é o tema do filme. Aliás, ela é sua essência. Por isso aceitamos as atuações lastimáveis em algumas cenas. É como se o diretor nos dissesse: “deixe de ser careta, curta a vida!”.

– Não sei se ele é tão positivo a esse ponto. Parece-me que ele quer uma montagem coerente com o espírito das personagens. Mas isso não significa que ele, Godard, esteja elogiando esse espírito aventureiro. Nos filmes que os Beatles fizeram na mesma época, acho que isso é mais presente.

– Curioso como esses filmes todos são non sense. Mas você tem razão. Help! e Yellow Submarine são muito mais solares.


– Há algo de provocador em Pierrot, le fou. Quando o vejo, fico com vontade de pegar uma câmera e fazer um filme.

– Como assim?

– A sensação que eu tenho é de que é possível fazer um bom filme sem gastar muito, sem se preocupar muito com certos detalhes.

– Viva o tosco?

– Espere. Eu disse que é possível pegar uma boa ideia e, sem muitos recursos técnicos, fazer um bom filme. Mas uma ideia ruim, por mais que tenha um bom produtor, não se transforma num bom filme. Pode até se tornar um filme lucrativo, mas não um bom filme.

– Então você gostou muito mesmo desse flme, não?

– Na verdade… É estranho dizer isso. Não o considero um filme tão bom, mas ao mesmo tempo ele me toca de uma maneira tão profunda que eu não lhe posso tirar o valor. É como se ele me sussurasse: faça algo melhor, faça algo melhor…

– Então o filme é um grilo falante?

– Isso, um grilo falante.

– O filme é uma espécie de daimón, então.

– Precisa ser mais que isso?

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5 pensamentos sobre “Conversa de botequim

  1. Diga-me em que botequim tu andas e eu te direi quem és.
    🙂
    Sério: em que botequim tu andas?

    Ainda não assisti a Pierrot, le fou, mas a propaganda foi boa, acredite.

  2. Pingback: O indivíduo perante o mundo « Mutuca

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