O indivíduo perante o mundo

Além da vida (aka Hereafter / EUA / 2010), o novo filme de Clint Eastwood, chega ao Brasil após o ano em que os filmes espíritas nacionais tiveram grande destaque. Chico Xavier, o panegírico ao mais famoso discípulo de Kardec, e Nosso lar, cuja bonita e exagerada fotografia quase gruda em nossas retinas, compartilham um pouco da doutrina de tolerância e responsabilidade que o espiritismo prega. E o velho cowboy, qual é a dele?

 

Um breve resumo.

O filme apresenta três histórias que giram numa enorme espiral de progressão concêntrica.[1] Marie Lelay (Cécile de France), uma jornalista francesa que julga ter tido um contato com o mundo dos mortos quando atacada pelo tsunami tailandês; George Lonegan (Matt Damon), um vidente norte-americano em crise existencial e Marcus (Frankie McLaren), um garoto inglês que acabara de perder o irmão gêmeo. Como se percebe, cada um deles tem um contato diferente com a morte. O garoto procurará a todo custo entrar em contato com seu brother, deparando-se com um sem-número de picaretas. A jornalista encontrará dificuldades para publicar seu livro-reportagem em que denuncia as barreiras religiosas ao estudo científico das manifestações que poderiam provar a existência de uma vida pós-morte. O vidente, crendo ser portador de uma cruel maldição, deseja mais do que tudo ter uma vida discreta e normal.

 

Quando saí do cinema, não sabia ainda ao certo o que Clint pretendia com este filme, o que ele pretendia dizer a respeito deste assunto. Minha esposa, que frequentemente guia o primeiro passo das minhas análises, sugeriu-me que o “homem sem nome” fizera um retrato bastante positivo – digo: afirmativo – da possibilidade de haver mesmo uma outra vida no desfecho desta. Mas – acrescentou – isso não significa que ele esteja defendendo uma doutrina, afinal nenhum dos três protagonistas parece possuir uma religião, nenhum deles frequenta um grupo espiritualista que lhe desenhe o mapa por onde caminhar. Nada disso. São três solitários, como soem ser os indivíduos – aos menos os indivíduos que costumam habitar os filmes deste diretor.

 

Pensando assim, fica mais fácil estabelecer paralelos. Frankie Dunn, o protagonista masculino de A menina de ouro, é um curioso e angustiado católico que, por meio de insistentes conversas com Horvak, o jovem padre, busca – mas não encontra – respostas às suas inquietações. Chega um determinado momento em que ele percebe que precisa tomar uma decisão, ele precisa – e consegue – fazer a escolha certa, inda que isso doa fundo na sua alma. Parece-me que nos filmes de Clint a religião (ou, para ser mais preciso: a ética interior) não foi feita para dar o conforto buscado nos livros de autoajuda, mas sim para ajudar o indivíduo a encontrar a si próprio, aceitando o fardo da sua liberdade e assumindo as inevitáveis responsabilidades de suas escolhas.

 

Em Além da vida, não é diferente. Não há religião ou doutrina sincera que nos garanta o conforto e o bem-estar. Parafraseando o Godard de Pierrot, le fou, parafraseando o existencialismo de Sartre, é o indivíduo que constrói seu destino.


[1]    Ou seja: as histórias parecem progredir paralelamente, porém – ao contrário do que acontece com as linhas paralelas – lentamente elas vão se aproximando uma das outras.

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11 pensamentos sobre “O indivíduo perante o mundo

  1. Legal esse post, estava escrevendo sobre o mesmo assunto, eu só me incomodo que encontrei muitas críticas de cinema que apontam este como “mais um filme espírita” e sabemos que não é bem assim.

    Na minha opinião pessoal, já é um avanço que um filme estrangeiro traga a mediunidade sem ser tema de filme de suspense e terror, mas por outro lado, pode divulgar informações erradas, e influenciar mal quem não é espírita. Como ainda n vi o filme, espero que isso n aconteça.

    Abraços,

    Felipe

  2. Felipe, muito obrigado pela sua leitura.

    Quando você vir o filme, perceberá que o diretor não teve uma preocupação em ser fiel a uma doutrina específica. Mesmo que haja áreas de intersecção, essa não parece ter sido a sua meta. Em vez disso, ele focaliza a história de três indivíduos rodeados por um ambiente pleno de demônios*, como se cada um deles vagasse no seu deserto particular com cobras e lobos à espreita.

    Sim, é verdade que ele, o diretor, faz uma leitura positiva (ou afirmativa) da possibilidade de uma vida pós morte. Não sei dizer se ele acredita ou não nisso, mas certamente ele vê nos seus protagonistas indivíduos oprimidos que precisam ser fortes para encontrar seu lugar no mundo (inda que isso não signifique necessariamente a felicidade).

    Por isso tudo, vejo neste filme muito daquilo que mais me alegra em filmes como “Os imperdoáveis”, “A menina de ouro”, ambos do Clint, ou ainda em “Poesia”(de Lee Chang-dong) ou em vários do John Ford.

    Não sei se um espírita ficará plenamente satisfeito com o filme. Mas depois você pode me dizer.

    Abraços,

    Rodrigo

    * Não estou usando “demônios” no sentido cristão.

  3. O filme parece muito bom e muito forte. Sua resenha me deu vontade de vê-lo. Principalmente porque eu sou um espirita. Enfim… Deixo o endereço do meu blog para caso se interesse.

  4. Apesar do título, e da temática que envolve todos os personagens, sobre a existência ou não de uma vida após a morte, o que me chamou mais atenção do filme, foram os fatos imprevisíveis que marcam a historia de cada um dos personagens.
    eferir).

    A jornalista tem a vida desestruturada devido ao tsunami, evento não esperado, o menino perde o irmão num acidente de carro, inesperado, e o vidente, que consegue essa maldição, numa cirurgia de uma doença, inesperada.

    O título Além da Vida, não é necessariamente, depois da vida, mas algo ‘maior’, que não está em nossas mãos, e é imprevisível. Essa imprevisibilidade é a raiz de todos os medos humanos em todas as fases da vida, o que não conhecemos e não sabemos como lidar, como funciona, torna hostil e perigoso para nós.

    Meu irmão, três anos, tem medo do bicho papão, que ele ouviu numa musica infantil. Ele teme porque realmente não conhece essa forma que genericamente chamamos de monstro, e daqui alguns anos ele vai se habituar a acreditar que não existe, porque ele não apareceu.

    Seu medo nasce do fato que, para ele, existe a possibilidade do monstro entrar no seu quarto, se ele tivesse certeza do perigo iminente do monstro, ele se protegeria, da forma infantil que encontrasse, mas o faria. Se soubesse com certeza que é uma invenção, dormiria sossegado, mas a imprevisibilidade tira o sono do meu irmão. Pronto, uma música inocente condenou meu irmão ao medo.

    Medo tal, a que todos nós somos condenados, porque desde sempre, aprendemos que a previsibilidade existe até certo ponto, e existe um inúmero numero de variáveis que podem sair do nosso controle, e nos surpreender, para bem e para mal.

    A discussão sobre, o que há depois da morte, além da vida, não me intriga, porque é normalmente baseada em religião e certezas. E depois você sai à rua, fala com o seu irmão para perceber nitidamente que não há certezas, sobre nada.

    Duas personagens têm vidas solitárias, o menino e o vidente, cada um a sua maneira. Não aceitam as mudanças impostas sobre eles, e forçam o tempo a parar e voltar, e esperando como crianças que a vida realize seus desejos e vagam pelas cenas como se tivessem renunciado a vida.

    Há um dialogo no filme, da jornalista com o seu namorado, em que ele diz que gosta nela a característica de não se tornar vitimas da situação, e sim protagonista. Ela se destaca no filme por conta disso e em alguns aspectos me lembrou a protagonista feminina do filme “Menina de ouro”. Ela apesar de ter quase morrido no tsunami, perdido seu cargo no trabalho, seu mérito com os colegas ao abordar novos temas, enfrenta as adversidades, e segue com um sorriso ingênuo no rosto. Se existe algum apelo para uma mensagem motivacional no filme acho que é a postura dessa personagem.

    Eu gostei do título do post ‘O indivíduo perante o mundo’ sintetiza a ideia das incertezas do mundo.

    • Milena, muito obrigado pelo cuidadoso comentário.

      Acho muito pertinente que você tenha tocado na questão da imprevisibilidade da vida. Coincidentemente, semana passada, conversando com um aluno, disse-lhe algo bastante parecido: Quando eu era mais novo, cometi um erro que demorei a desfazer: eu acreditiva na estabilidade das coisas; acreditava num cotidiano imutável na Grécia Antiga, acreditava que no tempo dos meus avós o tempo simplesmente não passasse, todas essas coisas que – analisando com atenção – revelam-se extremamente simples, mas que – estou certo – iludem ainda muitas pessoas. Sempre quando alguém discute questões como “quem é o melhor líder? o autoritário, o liberal ou o equilibrado?” procurando uma resposta pontual, ilude-se imaginando que haja uma resposta constante que perdure pelo tempo. Na verdade, usando suas palavras, é como se o indivíduo buscasse a chave da previsibilidade, seu porto-seguro, a razão mor que eliminasse todos os medos.

      Fico muito feliz por seu comentário ter trazido um raciocínio tão agudo e necessário.

      Eu, que julgo não ser religioso ou algo que o valha, apreciei no filme aquilo que eu chamo genericamente de personagens “clintianos”. Discordo de você, justamente neste ponto. Na minha leitura, os três personagens deparam-se com uma forte barreira (representações do “mundo”) e, cada qual a seu modo, buscam enfrentar ou se ajustar a esse mundo. O garotinho, roubando dinheiro da família que o abrigou, fazendo buscas na internet e nas ruas, ainda que tenha feito escolhas que eu não faria, teve uma postura ativa. A seu modo, coerentemente desajeitado e imaturo, ele procurou resolver seu problema (o que não significa conseguir). O mesmo eu diria a respeito do Vidente. Ele deixa aquilo que poderia se tornar um cotidiano seguro e estável para ir à Europa em busca de deus-sabe-o-quê. Acho justo, porém, que você tenha se identificado mais com a jornalista (ou tenha gostado mais do comportamento dela). Mas acho que outras pessoas podem se identificar mais com um dos outros personagens.

      – E você? De quem você gostou mais?
      – Bom. Acho que vou ficar devendo essa resposta, pois nem havia pensado nisso até então.
      – Assim não vale! Dê uma resposta, ainda que imperfeita.
      – Bom, acho que eu gostei mesmo foi da protagonista do Shi (http://www.megaupload.com/?d=ZLR0XINB)
      – Mas esse filme coreano não é do Clint!
      – Mas essa mulher parece ter vindo diretamente dos seus melhores filmes.

  5. Sim, pensando desse modo, os personagens ‘clintianos’ por terem defeitos, fazem com que as pessoas se identifiquem com eles. Cada um, com a sua historia e seu personagem que gostou mais.

    Estou baixando o torrent e mando notícias depois que assistir!

    -Obrigado pelas dicas !

  6. Milena, também gostei de seus comentários.
    Rodrigo, quando você diz no seu comentário (ao comentário da Milena): “Quando eu era mais novo, cometi um erro que eu demorei a desfazer” não fica claro que erro foi esse. Parece tratar-se da sua visão equivocado de uma certa previsibilidade, porém ao dizer “cometi” tem-se a ideia de uma ação, não exatamente de uma visão, de uma percepção.
    É isso…só pegando um pouquinho no seu pé.
    🙂

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