Fios noturnos

No teto, os adesivos fosforescentes simulavam um delirante céu onde estrelas, lua e sol, dispostos de modo a ofender qualquer princípio de cosmologia, brilhavam ao mesmo tempo. Mesmo assim, era bonito. Não o que eram, mas o que simbolizavam: o carinho e a dedicação que os puseram lá, dando um ar coloquial e rústico, inda que descabidos, à nossa aconchegante alcova. Ao menos, a leve cortina branca que descia quase do teto até quase o chão, impulsionada pelo zéfiro noturno, parecia dar formas femininas a esse esquecido deus grego. Para que tudo isso? Essa decoração programada para nos atrair ao mundo de Morfeu, de tanto racionalizada, mais desperta nossa atenção do que… e esse guarda-roupa que até semana passada era coberto por um irrelevante marrom? Lixado, descolorido, pintado de branco, coberto de verniz, adquiriu manchas amareladas que lembrariam antigas pinturas japonesas, mas – que ela não me escute – lembram apenas um velho muro perdendo as escamas. Bom, felizmente, ela está dormindo, assim tenho um pouco de paz. Se há coisa pior do que ficar encarando esse tresloucado painel de absurdos, só mesmo enfrentar a minuciosa descrição do cotidiano a partir do ponto de vista de uma mulher que já conquistou seu marido. Digamos que seja uma vingança contra Adão, pois quando Eva lhe foi apresentada teve de ouvir tantas histórias sem pé nem cabeça a respeito da criação das coisas e dos seres que não é nenhum disparate saber que ela preferiu aprender a língua dos ofídios. Tá certo, tá certo… tenho de reconhecer que nunca vemos a própria olheira e que só o peido dos outros nos incomoda. Na medida em que…

Calma! Mas que coisa é essa? De onde vem esse sopro sibilino? Mais do que um respirar, menos do que um sussurro. Não é da janela que esvoaça a cortina, lançando sombras macabras no guarda-roupa descolorido como lápides de cemitério; não é da minha esposa cujas orelhas ardiam agora há pouco; não é do enorme e macio gato pedrês que se aconchegou entre nós. Nem a esposa, nem o gato, nem o vento, parecem perceber o fio sonoro que se estende pelo quarto. Quem dera fosse o bule de chá; camomila cairia bem numa hora dessas. Felizmente, porém, o barulho não vinha da cozinha; assim eu poderia permanecer na cama.

Cogitei estar sonhando. Evidente que aquelas formas sombrias que a cortina imprimia no guarda-roupa não poderiam ser literais; julgo mesmo que o amarelado parecia escorrer lentamente, símbolos da evanescida consciência. Enfim olhei para o teto, prova definitiva de que, enfim, estava onde queria e deveria estar, mas nada nele parecia confirmar minha hipótese. Melhor assim, pois se há algo pior do que a insônia, só o pesadelo, mas se há algo pior do que um sonho ruim é vigília infrutífera. Até parecia que tudo isso fosse mesmo um pesadelo, daqueles que nos dão e nos tiram pistas, que sugerem e renegam, insistindo no vai e vem típico das ilusões. Confesso que vez ou outra tentei flutuar, partir-me em dois ou mesmo fundir-me ao travesseiro, mas não adiantou; a única coisa concreta era, veja só, o sopro insistente que parecia nascer debaixo da cama.

Ciente de que ele era real, tinha duas alternativas: esticar-me para o lado e inquirir ao escuro o que lá havia ou esticar-me para dentro e inquirir à imaginação o que poderia ser – nem passou pela minha cabeça acordar minha esposa e ficar exposto ao seu entusiasmo em me contar seus sonhos. Pois bem, passei as costas da mão esquerda na testa, senti um princípio de suor e reparei que já se passavam das duas – e o barulho, tão insistente, murchava, sumia, deixando-me a sós comigo mesmo; pior companhia não há. Basta! Girei para o lado esquerdo, desci – quase caindo – da cama e tateei o breu até derrubar algo líquido que não escorreu. Quanto de tempo eu teria economizado nessa empreitada se tivesse me atentado a uma pequena garrafa d’água parcamente fechada, de onde escorriam finos fios de ar? Tão finos quantos os resistentes e fugazes fios que tecem nossa farta imaginação.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Fios noturnos

  1. A leitura de seu texto me leva a sentimentos estranhos… por um lado, o sentimento da leitora que gosta da descrição de imagens difusas e pensamentos que divagam e apontam para essa espécie de mundo onírico, interlúdio dos sonhos; por outro lado, o sentimento da esposa que reconhece no texto ficcional elementos concretos do cotidiano real e se sente próxima demais da imagem da tal esposa fictícia… será que a ficção e a realidade são indistinguíveis?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s