O melhor momento da carreira do Rogério Ceni

Como previsto, Rogério Ceni marcou ontem contra o Corinthians seu 100º gol na carreira. Quem viu o lance com o áudio desligado escapou de ouvir a cretinice do Casagrande, o qual afirmou que a partir do gol de ontem (somente a partir dele?) Rogério deixava de ser um ídolo do São Paulo para se tornar um ídolo de todo aquele que curte futebol. Não é à toa que haja tanto preconceito contra a inteligência de quem usa ou usava drogas…

É ou deveria ser óbvio que aquele que gosta de futebol acima das paixões clubísticas já tinha motivos para admirar o Rogério (motivos esses que não se limitam a gols, mas incluem defesas, lançamentos e eventuais posturas fora de campo). Por outro lado, o fanático, aquele que é incapaz de perceber as inúmeras qualidades de um Ronaldo, de um Marcos, de um Raí (não sei se vale a pena citar o Sócrates…), este continuará incapaz de ver no Rogério um profissional merecedor de respeito. O gol de ontem, isoladamente, foi isso, apenas um gol, valendo uma vaga já assegurada para a segunda fase de um campeonato paulista. A história do Rogério é muito maior do que a tarde de ontem.

Disse que fora de campo o Rogério foi capaz de coisas elogiáveis, mas não sou daqueles que veem inteligência ou grandeza de caráter em qualquer coisa que ele diz (certa vez ele afirmou que chegaria aos 100 gols mesmo sem cobrar pênaltis; obviamente ninguém vai cobrar essa promessa). No entanto, houve sim um dia em que ele alcançou seu momento maior, houve o dia em que ele enfrentou a covarde acusação de uma jornalista mentirosa e irresponsável que lhe ofendia em rede nacional. Se ele não tivesse interferido, a espertinha teria ganhado respeito às custas de uma declaração sórdida e ordinária.

Este sim é meu lance favorito. O momento maior do grande Rogério Ceni:

P.S.: Achei divertido ele comemorar o gol se limpando da camisa cheia de patrocinadores, mas não sei até que ponto isso é justo com quem investe dinheiro no clube.
P.P.S.: A jornalista em questão é corintiana. Coincidência interessante para a tarde de ontem.
P.P.P.S: Para quem acha que tudo foi um mal entendido, eis aqui a coluna que ela havia publicado em seu site (posteriormente retirada do ar):

Por Milly Lacombe:

Sempre existiram aqueles jogadores catalogados e tratados como os queridinhos da imprensa. Aqueles que nunca são abordados com perguntas mais duras durante a coletiva, cujos erros nunca são amplificados e cujas falhas são sempre jogadas à sombra. Poderia citar vários, mas quero falar de um em particular: o goleiro são-paulino Rogério Ceni.

Sem dúvida, um arqueiro acima da média. Salvo historicamente pelo tricampeonato da Libertadores. Caso contrário, teria sido apenas um grande goleiro sem títulos. Mas isso não vem ao caso, até porque o título está, merecidamente, no Morumbi. O que me perturba é ver que o passado é facilmente esquecido quando um título e três dúzias de gols de falta entram em cena.

Por que, eu pergunto, não se fala mais daquele patético episódio da proposta-fictícia do Arsenal? Vale a pena ler de novo. Em 2001, ainda sem a estrela que tem hoje e a fim de ver seu contrato renovado com o tricolor do Morumbi, Rogério falsificou uma proposta do Arsenal. O objetivo era fazer com que o São Paulo acreditasse que o time inglês estivesse interessado em seu passe e aceitasse pagar mais. Foi flagrado e afastado temporariamente. O episódio, sempre minimizado pela imprensa, fala sonoramente sobre o caráter do jogador. Nada que não possa ser perdoado, claro, mas o currículo ficou – ou deveria ter ficado – manchado.

E eis que o homem volta e entra em ótima fase. Mais seguro, aprimora cobranças de falta, e, armado de um preciso chute e de uma enorme vaidade, despenca de sua área para bater faltas. Por duas vezes levou o gol que todos os anti-são-paulinos gostariam de ver: uma, contra o Fluminense, no Maracanã. A outra, na semana passada, contra o Santos. Mas, os números não mentem, Rogério bate com maestria na bola. Não apenas para marcar seus gols de falta e pênalti, como também para repor a pelota em jogo.

Mas o que eu gostaria de ver, isso sim, é uma comparação entre ele e batedores como Neto, Rivelino, Marcelinho, Zico, Nelinho, Roberto Carlos … Enfim, proponho que alguém faça as contas e, pela média, descubra quão bom de fato é o arqueiro do São Paulo. Porque eu tenho para mim que o simples fato de ver um goleiro sair do gol para bater uma falta acaba ofuscando seu real aproveitamento. E o número de vezes que ele não fez o gol? E se, durante a passagem de Ricardinho pelo São Paulo, tivesse sido o meia, hoje no Santos, o cobrador oficial de faltas? Não teria tido o São Paulo um melhor aproveitamento? Nunca saberemos. Porque Rogério é o xerife, e se ele quer bater, não há o que fazer.

Atualmente, Rogério é o todo-paparicado da imprensa esportiva. Nele, repórteres chegam quase fazendo reverência. Perguntas mais duras são praticamente antecedidas de um pedido de desculpas, cronistas dedicam linhas e linhas a sua genialidade em cobranças de falta. Nada contra. Mas, minha sugestão é para que coloquemos Rogério em perspectiva. Levantem-se os números. Comparem esses números a outros bons batedores. E aí sim, sem mimos e dengos, e com números nas mãos, coloquemos o goleiro são-paulino no seu devido lugar – seja lá onde for.

http://bloggol.zip.net/arch2005-10-23_2005-10-29.html

Anúncios

Um pensamento sobre “O melhor momento da carreira do Rogério Ceni

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s