Escher, no Banco do Brasil: decepcionante…

  Ponha-se no meu lugar.

  Em outubro de 2004, você vai a uma inusitada feira de livros no Piqueri, onde, em meio a uma diversidade zoológica de livros, você encontra um daqueles que você desejava mesmo sem saber se ele existia. Ele existe, enfim, e é menos caro do que soem ser as encadernações similares. Você confere a carteira, saca duas notas de dez reais (que naquela época eram subjetivamente muito mais valiosas) e se torna proprietário daquela bonita edição da Taschen com dezenas de imagens de [Maurits Cornelis] Escher.

  Desde então você passa a conhecer, ainda que leigamente, um panorama geral da obra deste curioso misto de artista e geômetra (existe artista que não seja, a seu modo, um geômetra?), que enxergava a simetria de um modo tão perfeito e abstrato que é até difícil acreditar que ele vivenciou duas guerras mundiais (a insatisfação com o contexto não teria contribuído para sua postura – digamos assim – escapista?).

  Sete anos depois, chega a São Paulo uma exposição com as principais obras desse artista; o que já seria uma boa notícia. Melhor ainda: a divulgação prometia interatividade (como seria entrar numa obra do Escher?) e filme em 3D explorando perspectiva absurda de suas obras mais famosas! Você se anima, procura no feriado uns pares de horas disponíveis, mas está difícil. Quinta comprometida, sexta preparando prova, sábado preparando prova, domingo preparando prova até as 14h. Pausa para o almoço; você está livre, cria coragem e vai.

  Chegando lá, você acata a sugestão da curadoria e começa a exposição no terceiro andar, onde se encontra a tão conhecida linha do tempo com informações que pouco acrescentam à análise ou mesmo à contextualização do artista. Em que exposição os curadores se preocupam em colocar textos que provoquem um diálogo instigante com o público culto, porém não especializado? Certamente você já foi a muitas cujos textos se perdiam no hermetismo e a outras, como esta, em que o didatismo é tão tacanho que até mesmo um leigo como eu tem pouco a aprender.

  Dos funcionários que não coibiam os fura-filas, você resolve não reclamar. Apenas olha para os turistas franceses perguntando se Escher era brasileiro e pensa, citando Bernard Shaw, em como a juventude é desperdiçada pelos jovens (tema tangencial do último filme do Godard?). Mas dos quadros, espremidos lado a lado, sem espaço para “respirarem”, você reclama. É como se a exposição estimulasse o público a caminhar em fila pelas obras, detendo-se cinco, dez segundos no máximo, em cada uma, como se elas fossem as fachadas coloridas daqueles simpáticos sobrados que você vê, do ônibus, pouco antes da curva que liga a Heitor Penteado à Cerro Corá. Das filas que se instalam frente às obras, o que falar?

  Felizmente, um vídeo lhe devolve o bom humor. A animação que fizeram de “Print Gallery” foi mesmo um achado, uma boa síntese da simetria em espiral com que Escher se divertia.

  Daí, feliz da vida, você resolve ver o filme em 3D, cujos ingressos tinham de ser retirados no térreo. Tudo bem , você vai, é mal atendido e decide conferir a interatividade que está ali a seu lado, uma espécie de casa maluca que você já havia visto dezenas de anos atrás no Playcenter. Talvez os mais jovens consigam ver uma graça que você não se sente mais capaz de ver, talvez os pontos negativos da exposição tenha contaminado um pouco o seu humor. Já que você está li, o jeito é tentar aproveitar. Então você resolve conferir a cereja do bolo. E não é que o ajuste do foco está desajustado e o filme 3D se transforma em uma dupla projeção sem foco? Mal humorado como todo mundo que viu aquela sessão, mas com a teimosia típica dos velhos chatos, você desce, pega outro ingresso, volta, reclama com a atentende que não entende sua pergunta, reclama com o técnico de projeção até que ele resolve agir e resolver a parada. A bem da verdade, ele foi competente naquilo que tinha de fazer e o filme foi devidamente projetado, com o previsível voo em 3D (3D sem voo é um desperdício!) e com os previsíveis achados que você já havia visto no youtube. Não foi ruim, mas foi muito abaixo do que você esperava.

 Nada da exposição se salva? Não. Não exageremos. O documentário, cuja maior parte você conseguiu ver, foi elucidativo, apresentando as matrizes islâmicas em que Escher se inspirou, contextualizando satisfatoriamente sua obra, apresentando algumas das questões com que ele se deparou ao longo da vida. Isso sim vale a pena rever.

  Mas os funcionários aos gritos, expressando seu desejo de que saíssemos logo da sala – antes mesmo de acabar o filme -, foi a gota d’água. Felizmente, ao chegar em casa, você pôde pegar aquele velho livrinho da Taschen para observar com calma aquelas figuras fantásticas e maravilhosas, coisa que a exposição não lhe permitiu.

 

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4 pensamentos sobre “Escher, no Banco do Brasil: decepcionante…

  1. Infelizmente foi assim que senti as coisas também. O aperto entre as obras, a má elaboração e/ou a pouca surpresa das supostas obras interativas, o despreparo de alguns funcionários, as informações sem gosto do 3º andar…
    Realmente, o que valeu mesmo a pena foi o documentário (ainda que, sendo a última sessão, não nos tenha sido permitido apreciar o documentário com o devido sossego de espírito).

    Parabéns pelo texto, pelo humor de suas observações e por compartilhar sua percepção da exposição. Quem sabe você não resolve voltar lá pela última semana… Talvez alguns dos problemas que você mencionou tenham sido corrigidos.

    😀

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