Da arte de rabiscar o chão

“Meu tempo é quando” (Vinícius de Moraes)

“O gosto do quando é o tempo e o ser. É o verbo e sua consequência. É o ser e sua causa. São os advérbios com sabores adjetivos. […] Escolho o advérbio para substantivar o gosto, como um adjetivo de vida. Escolho o gosto do ainda, o gosto do enquanto […] O gosto do quando é o tempo tocando a língua do cotidiano” (Fabrício César de Oliveira)

Não podemos parar o tempo; o tempo não para. Mas a vida segue, quer demos ou não um rumo a ela, imperativa a vida segue. Eis o pressuposto contra o qual existimos.

Aproveitando-se da deixa do poetinha, Fabrício conduz o devaneio para o agora, aparente contradição sem a qual nos entregaríamos a uma vida regida somente pela mecânica ou pela ideia. Sim, há um quê de Alberto Caeiro sem, no entanto, aquele rancor mal escondido, aquele mau humor carrancudo. Aqui, a razão combate o racionalismo com a leveza de quem pretende decodificar o sentimento juvenil que, espero eu, todos nós um dia tivemos a sorte de possuir. A começar pela integração entre o tempo e o ser, não mais elementos antitéticos (o homem versus sua perenidade), mas complementares (o homem é – essere verbo intransitivo).

Advérbios com sabor adjetivos? Eis uma sacada daquelas que invejamos, de tão bonita e sintética, simples como todo achado grandioso. “Meu tempo é quando” ecoaria “o homem é”, o qual ecoa o “j’existe” que Godard pôs na boca de Pierrot, le fou. O presente presentificado, na ponta da língua, o paladar, a sensação tátil mais saborosa – saber é conhecer o sabor. Sinestesicamente belo esse achado.

Mas os poemas são coerentes com a poética? Peguemos um exemplo:

 

Uma confissão mineira

Era as Gerais das Minas mais nobres.
Era o quintal da infância de tantos
Era o campo da fé em todos meus santos
É da terra que retiro meus sonhos, meu cobre.

Sou mineiro, sou bobo, sou malungo, sou pobre.
Pois riqueza maior corre como criança pelo quintal
ao som das prosas à lenha e de minha avó em seus cantos.

 No primeiro verso, o pretérito imperfeito remete aos contos de fada, e a inversão sintática amplia o significado de seu estado natal, indicando – como ficará claro na sequência – que a nobreza dessas minas não são seus minérios em sentido literal.

“Era o quintal da infância de tantos” parece dialogar com o leitor, como se perguntasse se também nós tivemos a felicidade de vivermos num quintal cuja amplitude extrapolava o espaço físico, um lugar em que nossos sonhos e crenças eram substantivamente concretos, época em que a fantasia tinha a consistência do cobre, nosso arcabouço, nossa proteção, nosso mais puro e malicioso ser.

Sem essas lembranças, sem o desejo de reviver um pouco dessa experiência, somos inequivocadamente pobres.

***

O blog: http://ogostodoquando.blogspot.com
O livro: http://www.pedroejoaoeditores.com.br/o-gosto-do-quando.html

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