Retrô

Primeiro foi a máquina de escrever. A esposa estranhou, pois não fazia dois meses ele gastara o salário de três para comprar um MacBook Pro, 17”. Não adiantou argumentar, reclamar, fazer cara feia; ele estava decidido. A máquina respeita mais a escrita intuitiva, o fluxo de pensamento, o instante precioso e exato em que nasce o raciocínio. No laptop não, nele reside o texto calculado, lapidado, artificializado, pronto para o consumo. Sim, se há uma diferença capital, é esta: enquanto a Remington é um hino ao amor primitivo e primevo… – cansada do papo onanista, a esposa o deixou sem interromper o solilóquio.

Depois foi a Leica, ressuscitada do armário onde jazia há três anos. Não é uma câmera qualquer; a M3 faz parte da história da fotografia. Tal quais os melhores poemas parnasianos, sua mecânica é sutil a ponto de fingir-se natural. Complexa e simples, a sofisticação sem excessos, uma lição das mais profundas à modernidade excessiva tão bem simbolizada nessas câmeras automáticas que guardam milhares de fotos que tão logo serão esquecidas numa pasta de computador à espera da formatação.

Por último preteriu o vinho ao whisky, assim como a música clássica ao jazz, a esposa real à ilusória amante e a literatura ao devaneio. Serviço completo.

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2 pensamentos sobre “Retrô

  1. Sempre há um quê de autobiográfico (até porque a imaginação faz parte da vida, como não?)

    Falando nisso, viu Mulholland Drive ou o último episódio do Harry Potter?

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