Notas sobre “A pele que habito”

 * Quando falta tempo e paciência, recorro-me às notas. Elas são duplamente vantajosas: destravam minha escrita e consomem pouco tempo dos meus três leitores;

* Não por outro motivo, cultivo aforismos e haiquases. O tempo escorre se não fixamos os olhos nele;

* Vamos então às notas de A pele que habito, mais recente filme de Pedro Almodóvar:

* Robert, o protagonista, tem sérios problemas com sua masculinidade;

* Ele, analisado como um macho padrão, sofre duas fortes derrotas sexuais (quando Vera, a mulher que ele está construindo para si, é deflorada por Zeca; quando a filha é seduzida por Vicente). Robert tenta equilibrar sua autoestima por meio de duas vitórias baseadas na força física, mas mesmo assim ele não consegue dar ordem a seu universo psíquico. Primeiro porque a derrota sexual importa mais*** que uma vitória baseada na força física – se não acredita em mim, pergunte a um macho padrão que ele confirmará. Segundo, não há como negar que suas vitórias se deram em condições em que não primaram pela equidade de condições: numa ele estava armado e, mesmo assim, alvejou o adversário pelas costas; na outra um capanga (ou ele próprio vestindo uma máscara) vale-se de um confronto desigual (van versus moto) e de uma espingarda com tranquilizante – ou seja, nos dois episódios, ele parte para um combate em que não haverá confronto;

* Antes disso, porém, Robert sofrera outra derrota sexual, quando a esposa o trai com Zeca. Dessa vez, porém, não há confronto entre protagonista e antagonista, pois Robert se preocupa em salvar a vida da esposa, que sofrera um acidente de carro que deixou seu corpo em chamas. Talvez possamos levantar a hipótese de que, ao manter sua esposa viva, Robert estivesse se vingando dela (como que uma pessoa que acabara de viver momentos tão calorosos poderia suportar os olhares repugnantes que os outros, e ele mesma, lhe lançariam?), mas creio que há análise mais aguda que esta;

* Robert, cirurgião plástico, só conseguia satisfazer as mulheres superficialmente;  

* Talvez, com esse ponto de partida, até seja possível traçarmos, entre Robert e seu irmão Zeca, um paralelo antitético. Afinal, enquanto um é masculinamente frágil, o outro é protomacho até em demasia; um cultivou-se com uma educação  formal e clássica, o outro sempre foi avesso a ordens e regras; um é delicado e racional, o outro bruto e explosivo. Seria belo se não fosse falso…

* Mais do que um par antitético, Robert e Zeca (nome e apelido também ajudam a sugerir essa falsa antítese) são variações de uma mesma matriz: ambos possuem problemas com a masculinidade (Quando se depara com Vera, Zeca não a seduz, simplesmente a obtém); ambos são intempestivos e rebeldes, para não dizer mimados; ambos, cada qual a seu modo, são filhos bastardos, ou seja, simbolicamente frutos de uma relação torta, quiça doentia (segundo avaliação a posteriori da própria madre);

* Se o tema do filme é a pele, ainda que óbvia, a ênfase nos tecidos e nas artes plásticas gerou-me prazer estético. A partir do momento em que se criou a cultura, ninguém mais conseguiu ficar nu;

* Como reforço imagético, em diversos momentos do filmes vemos referência a peles falsas: Zeca, como tigrão e como assaltante quase mascarado, as esculturas cujos rostos são cobertos por Vera, a bastardice, as drogas excitativas que Vicente toma antes de ir à festa;

* Além das doloridas derrotas sexuais, Robert tem mais uma, que anuncia a derrota final. Ele é intelectualmente desmascarado por seu amigo Fulgêncio, o qual consegue ler não só o todo de suas ações como também vislumbra-lhe os porquês. E mais uma vez Robert precisa recorrer a uma pistola (símbolo fálico não acidental) para simular uma nova falsa vitória – pouco antes, vemos, numa espécie de cena síntese, Robert, falsamente zen, tentando esculpir um bonsai. Todo bonsaísta sabe que a saúde do seu projeto depende de uma cuidadosa observação de como galhos e raízes vão crescendo; Robert deixou escapar um galho e uma raiz;

Daniel Piza, cujas leituras costumam ser bem mais apuradas que as de um Inácio Araújo, por exemplo, reclamou d”a demonstração inocente de confiança do médico”, no final do filme. Creio eu que essa escolha foi imprescindível para dar mais verossimilhança ao filme. Pensando na construção do protagonista, nos problemas que ele sempre teve com as mulheres, na sua necessidade de afirmação, o turning point da sua vida se lhe mostrou justamente quando ele pressentiu a possibilidade de finalmente conseguir confiar numa mulher, quando ele finalmente considerou a hipótese de enfim ser amado;

* Querendo ver aquilo que mais gostaria de ver, fechou os olhos.

 P.S.: Coincidência ou não, ontem – antes e depois do filme – estava lendo a quase autobiografia de Fernando Pessoa (de José Paulo Cavalcanti Filho). Talvez as máscaras sejam assunto para um novo post.

*** Corrigido após alerta do Bernardo. 🙂

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9 pensamentos sobre “Notas sobre “A pele que habito”

  1. Olá, Rodrigo.
    Gostei das suas observações. A questão da masculinidade como você a coloca é muito interessante, diferente do eu pensara a princípio (cheguei a supor um problema de virilidade de Robert), soa-me muito mais apropriada.
    A arma como símbolo fálico merece maiores comentários, afinal, esse símbolo passa, no filme, às mãos de duas mulheres: Marília e Vera. A primeira, incapaz de tomar para si esse símbolo, só faz ameçar; enquanto que Vera usa-o quase que instintivamente. Eu pensaria na possibilidade de uma análise que tentasse apontar a força masculina como independente do sexo (ainda que saibamos que por baixo da pele de Vera está Vicente).
    Senti falta de comentários acerca da problemática da imagem homem/mulher. Do mesmo modo que você afirma que a cultura nos tirou a nudez, acho que seria enriquecedor tentar apontar como a cultura constrói as figuras homem e mulher (e valeria remeter-nos a Simone de Beauvoir). No filme, a cosntrução de Vera não se dá apenas pela pele. Vicente, que já tentara, enquanto Vicente, dialogar com seu algoz (como soem acontecer com vítimas de sequestro e outros crimes, isto é, o apego ao algoz, único interlocutor), tem em Robert seu único interlocutor (Marília é, a princípio, apenas uma voz, não uma interlocutora), o qual passa a tratá-lo como Vera; se aceitarmos que muito da construção de nosso eu se dá pelo outro, a internalização de um eu feminino passa a ser mais aceitável (não só Robert funciona como esse catalizador, mas Marília também, já que, aparentemente, ela não sabia que Vera fora Vicente, de modo que a tratara sempre como mulher).
    Me parece muito simbólico disso o beijo que Vera dá na foto de Vicente. Uma reação sutil, eu diria. Pareceu-me, talvez equivocadamente, a reação de alguém que se despede, com muito carinho. Não seria o gesto de aceitação? Bem, talvez esteja enganada, já que Vera, ao final, se reconhece como Vicente…
    Fico por aqui… acho que já comecei a divagar. 🙂
    Beijos!

  2. Olá, Rosa.

    Assim como no texto original, comentarei seu comentário por meio de notas:

    * De fato, não considero o homossexualismo um problema de masculinidade.

    * De fato, esqueci-me de falar das armas nas mãos das mulheres, principalmente no caso da Vera. É irônico notar que foi justamente um símbolo fálico, na mão de uma quase mulher, que matou Robert.

    * Gostei de você ter apontado a questão da sexualidade como construção social. O homem padrão, a mulher padrão certamente são valores sociais. Próximos ou distantes da nossa essência, mas sem dúvida alguma construções culturais. Não que isso, “a posteriori” seja bom ou ruim, mas considerado “a priori” tem um grande potencial de gerar problemas.

    * Penso, assim como você, na peça “Viver sem tempos mortos”. Como deixar de pensar em algo tão bem feito?

    * Aquela cena do beijo não poderia ter passado em branco. Interpreto-a como que uma demonstração do compromisso com o seu passado, com sua história, com sua memória. Parece-me que, ao ver o retrato de Vicente, Vera se dá conta de mutilação (não só física) que Robert lhe imprimira.

    Obrigado pelo diálogo, ainda que não seja num restaurante, à beira do jantar.

  3. Gostei muito do Texto Rodrigo,
    alguns pontos que eu também achei interessante foram, quando temos a fragilidade da mulher, quando Vicente “ataca” Norma, e posteriormente já como Vera, Vicente é atacado, podendo ele sentir na pele o que Norma talvez tenha sentido.

    Outra é a de Robert de forma alguma deixa que Vera se mate, assim como Gal e Norma o fizeram, para acabar com a dor e não aceitaçao da realidade, Robert a “obriga” a sentir a realidade; porém isso o leva a morte no final, mesmo após os conselhos da madre.

    acho que é isso.

    bjos

  4. Interessante, Rodrigo! fiquei com uma dúvida, porém:
    – “Robert tenta equilibrar sua autoestima por meio de duas vitórias baseadas na força física, mas mesmo assim ele não consegue dar ordem a seu universo psíquico. Primeiro porque a derrota sexual importa menos que uma vitória baseada na força física – se não acredita em mim, pergunte a um macho padrão que ele confirmará.” – se a derrota sexual importasse menos que uma vitória na força física, não bastaria apenas uma vitória na força física para contrabalançar a derrota sexual? não equilibrar, é verdade, mas passar de uma auto-estima negativa para uma auto-estima positiva?
    abraço!

  5. Farei comentários em forma de notas também

    “Robert parecia nutrir um amor incondicional pela sua esposa, por isso fez de tudo para mantê-la viva após o acidente, preocupando-se inclusive em manter a casa escura e sem espelhos – para que ela não visse a própria imagem e não se perturbasse. (A visão da própria imagem, aliás, foi o que a levou ao suicídio). Não interpretei o desejo de Robert em mantê-la viva como sendo uma forma de puni-la pela traição, pelo contrário. Quando assisti ao filme, tive a impressão de que ele a perdoou pela traição. Essa impressão se reforçou quando, ao ver Vera sendo estuprada por Zeca, Robert se apressou em salvá-la e cuidou carinhosamente dela. Isso leva a uma segunda questão.

    *Há uma cena em que Vera tenta seduzir Robert, e ele recusa. No entanto, após ela ser violentada pelo Zeca, Robert parece se deixar envolver. Será porque ele viu no acontecido uma repetição do que ele achava que havia acontecido com a sua esposa (será que na mente de Robert, sua esposa não teria sido “vítima” do Zeca? Seja por ter se deixado seduzir, ou seja porque Robert achou que o Zeca a teria levado a força?)? Ou será que Robert acaba por se apaixonar pela sua própria criação? Antes, sua recusa em ficar com Vera era porque ele sabia que Vera era um homem. Após o estupro, é possível que, na cabeça de Robert, Vera meio que tenha assumido de fato o papel de mulher.
    Para mim, Robert meio que acaba vendo muito de sua esposa em Vera (como se ela fosse mesmo um Frankenstein). Para alguns amigos com quem discuti o filme, Robert se apaixona pela sua criação e possui Vera cegado pela sua vaidade.

    *Concordei em parte com o comentário do Daniel Piza. É que causou um certo estranhamento o voto de confiança que Robert deu a Vera. Por outro lado, não achei que a atitude de Robert foi inverossímil, apenas achei que revela um lado dele que não se mostrou durante todo o filme – uma certa ingenuidade. Um homem cheio de si, que no fundo é muito solitário, que esconde seu fracasso emocional com sucesso profissional, pode ser o mais ingênuo dos homens quando acha que está sendo amado. Ou será que Robert era ingênuo mesmo? Não é impossível, visto que ele tem tantas questões mal resolvidas. Se ele realmente achou que sua esposa fora “vítima” do Zeca, isso pode significar que ele talvez tenha mesmo alguma ingenuidade. O fato de ele acreditar que Vera estava apaixonada por ele mesmo ela tendo tentado fugir dele em outra época também. A questão para mim é: Robert era ingênuo ou ficou ingênuo ao achar que estava sendo amado?

    *A questão da roupa também é interessante. “A partir do momento em que se criou a cultura ninguém mais conseguiu ficar nu”. A filha do Robert não conseguia usar roupas, sentia-se sufocada por elas. Por que?
    E a Vera também não usava roupas, apenas aquela para proteger a pele, usava as roupas apenas para rasgá-las. Mas isso se explica pelo fato de Vera ser um homem que não queria virar mulher, ok.

    *Por fim, o beijo de Vera na foto de Vicente. Achei um gesto muito feminino. Talvez Vicente tenha se aceitado como mulher. Talvez tenha se aceitado ainda mais quando encontrou Cristina, a lésbica de quem ele gostava. A pele acaba moldando quem somos? O nome A Pele que Habito sugere que a pele é superior a nós mesmos, que nós devemos nos adaptar à pele, não o contrário…

    Foi um bom filme.. perturbador em algumas partes!

    • Ci, aproveitando que as notas estão facilitando a nossa vida…

      a) Concordo contigo que a hipótese da tortura psicológica não faz muito sentido no filme. A análise mais aguda, a que fiz referência – sem, no entanto, explicitá-la – é que ele se doa como tentativa – desesperada? – de enfim conquistar uma mulher. Por isso, me parece, a crença ingênua no final do filme.

      b) Não havia pensado em o que poderia ter motivado a tara do Robert pela Vera. Que ele a desejava, isso me ficou claro pela quantidade de vezes que ele a admirava pela enorme tela. Mas, sim faltava, algo. Pensando agora, transar com a Vera, com o consentimento dela, seria uma espécie de vitória simbólica contra Zeca, o qual só a teve graças à imposição física. Talvez a cena tivesse ressaltado a fragilidade “feminina” da sua criação. (A propósito, você foi ver “Viver sem tempos mortos”?)

      c) Eu acho que o Robert sentia uma necessidade muito grande de acreditar em uma mulher. Etimologicamente, ele se apaixonou (tornou-se passivo). Talvez, ele sempre tenha sido meio passional com as mulheres, conforme a madre insinuou. Eu acho que o defeito do Robert é uma virtude do ponto de vista da criação da personagem. (O mesmo eu noto em “Sonho de um homem ridículo”, de Dostoiéviski)

      d) No meu texto, refiro-me ao nu simbólico. Sempre estamos vestidos com alguma cultura, ideologia ou coisa parecida. Mas concordo contigo que é mesmo inquietante que a garota rejeite a “segunda pele”, como se esta estivesse contaminada com o pior da sociedade que ela conheceu. A loucura, a nudez – literal e simbólica – parecem indícios de que ela queria ficar só, completamente só, longe de tudo, até mesmo da vida.

      e) “Por fim, o beijo de Vera na foto de Vicente. Achei um gesto muito feminino.” Também achei muito bonito e delicado. Portador de uma força interior que só as mulheres têm. (Estou fazendo referências veladas a Simone de Beauvoir.

      f) “O nome A Pele que Habito sugere que a pele é superior a nós mesmos” – discordo. Se é a pele que habito, a pele é adjunto adverbial de lugar. O sujeito continua sendo o “eu”. Se fosse “a pele que me habita”, concordaria contigo. Por trás do desejo de Vera por Cristina continua havendo o desejo de Vicente por Cristina. Robert o mutilou, mas não apagou a carne da sua memória.

      É bom dialogar. 🙂

  6. Assisti “Viver sem tempos mortos” há uns 2 anos (ou ano passado, não lembro), quando estreou pela primeira vez. Queria ver de novo, pois infelizmente já esqueci de muitos detalhes. Lembro que foi uma das melhores peças que já vi. E adorei o significado de “viver sem tempos mortos”, foi o que mais me marcou.

    Acho que concordo sim que o Robert se doou como uma tentativa desesperada de conquistar a sua mulher, é bastante plausível!

    Estava pensando e acho que talvez a pele, no filme, signifique o que o ser humano é por dentro, as vestimentas mostram que o homem é um ser corrompido.
    A Norma é a única personagem do filme “pura”, que não cometeu nenhum pecado, talvez por isso ela não goste de usar roupas e, no hospício, a roupa que usa é um vestido branco.
    Vera também, na maior parte do filme, ela usa apenas aquela proteção e, até certo ponto do filme, acreditamos que ela seja pura. (Pelo menos eu, que assisti ao filme sem ter lido nada antes, achei, no começo, que ela era uma mulher ingênua e indefesa que estava sendo mantida em cativeiro). E justamente no momento em que o filme dá uma reviravolta, Vera sai pra comprar roupas.
    Ao mesmo tempo, a obsessão de Robert por uma pele perfeita, macia, porém resistente, pode expressar uma obsessão dele por criar um ser humano que seja assim também – belo e delicado, porém forte. Talvez Robert quisesse criar a pele perfeita porque acreditava que, assim, criaria um ser humano perfeito. Esqueceu-se, porém, de que o ser que habita a pele não se molda pela pele.

    Ok, isso contradiz o que eu havia dito antes sobre o nome “A Pele que Habito”, não havia pensado nessa hipótese antes. Pensando agora, acho que talvez haja uma ambiguidade nesse título. Como você disse, o sujeito é “eu”. Por outro lado, o artigo definido em “A pele” sugere que é algo bem definido, não adaptável, pré-definido. Talvez seja um pouco dos dois, a pele e o ser que a habita tem que entrar em harmonia apesar de suas discrepâncias, pois um não vai mudar em função do outro…

  7. Genial! Um dia fará um clube de cinema desse filme? Não ano que vem, por favor, porque aí que não poderei ir UHAHUAUHAUHUHS! Gostei dos diálogos com os leitores em notas, um dia conversamos sobre esse filme! Abraço!

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