… não era uma narração

 Era uma vez um garoto que não morava numa casa de campo, não conversava com sapos e não tinha um velho baú com cartas esquecidas no sótão. Sua casa sequer tinha sótão, ele sequer tinha um bichinho de estimação, mas ele morava numa casa pequena, onde de vez em quando parava para pensar nas coisas.

O quintal, cimentado, não tinha tocas de tatu, vasos de plantas ou tijolos à mostra; nada que revelasse ou desse margem para um devaneio – e como ele gostava dessa palavra. Antes mesmo de conhecer seu signficado, ele a sussurava com deleite, bem baixinho, quase que só pensando, para que ninguém a ouvisse, como se a quisesse só para si. De-va-nei-o…

Ele não ouviu essa palavra de uma garota bonita nem de um garoto amigável, nem de um velho tio-avô desconhecido, nem de um jovem primo aventureiro. Mas mesmo assim ele gostava, como gostava, de sentir aquela palavra. Nunca ninguém lhe explicou o que ela significava. Pouco tempo depois de conhecê-la, ele sentiu que ela lhe era íntima, quase que uma cúmplice, abraçou-se a ela e ficaram amigos.

Como sua casa não tinha bichos, jardim, sótão ou qualquer outra misteriosidade, às vezes ele se deitava no quintal e fica olhando para as nuvens passeando no céu. O curioso é que ele nunca se preocupou em decifrar se as nuvens tinham formato de pessoas ou bichos; satisfazia-se apreciando as texturas, as cores e os contrastes, ora harmônicos ora desarmônicos, que se formavam. Às vezes, escutava o barulho das nuvens (não confunda com o barulho do vento) e se sentia realizado. Certa vez a chuva caiu sobre ele. Foi um dia muito gostoso.

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4 pensamentos sobre “… não era uma narração

  1. Adorei seu texto, não só pelo tema, que muito me agrada, mas igualmente por sua construção.
    Gostei muito da apresentação por litotes. As negativas foram um recurso muito interessante para apontar não apenas as ausências relevantes, como também para nos fazer refletir acerca daquilo que de fato contrói uma “narrativa” da infância.
    O mais interessante é que podemos pensar que uma infância encantada (como nos dá a entender o “era uma vez”) também se faz de elementos inusitados, ou melhor, independentemente da ausência de elementos grandemente esperados.
    Parabéns pelo texto.
    🙂

  2. A ideia de se afeiçoar a uma palavra é muito bonita mesmo. :3

    Professor, acompanhei suas postagens em 2011 e queria agradecer pelos textos tão interessantes que o senhor disponibilizou. As leituras por aqui me salvaram muitas vezes 🙂 Obrigada.

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