Dos textos perdidos

A mania de anotar ideias nos espaços virgens dos livros me faz não só perder diversos ganchos e motes, como ainda me aprisiona a, digamos assim, criatividade.

Felizmente, consegui encontrar dois aforismos antitéticos – estavam no Viagens na minha terra, do Garret. Ei-los:

A vida é um diálogo com si próprio.
A vida é um monólogo com os outros.

Quem me conhece percebe em ambos o gosto pelo paradoxo aparente; são duas ideias parecidas na casca, mas possuem seivas cujos sabores não combinam. De um lado, há a importante inquietação de quem se recusa a aceitar concepções taxativas e autoritátias – mesmo, e principalmente, no caso em que a autoridade é o próprio indivíduo. Já na segunda, encontramos a típica condição daquele para quem não existe o diferente, para quem o outro só tem o direito de ser enquanto não é; o outro não como complemento, mas como mero prolongamento do eu. Há quem se contente com a placenta.

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