Da ponta do lápis

Algo em minhas fibras me diz que não sou daqui. Uma sensação de falta, certa ausência em meus contornos, como se eu tivesse sido amputado de algo maior; algum galho, quem sabe um tronco.

Bobagem minha talvez. Será essa forma diminuta, cilíndrica, que em nada se parece com uma cerejeira ou eucalipto, a dimensão do meu ser, o corpo da minha psique? Terei sido outra coisa antes de ser eu mesmo? Até quando serei o que sou? Se tirassem de mim a grafita, ainda assim permaneceria? Ou será ela o núcleo da minha consciência?

Quando me apontaram pela primeira vez, temi, sem saber ao certo o que temia. Gastaram-me a grafita, apontaram-me mais uma vez. E outra e outra vez. Sofri, mas resisti, sendo se não mais o mesmo, mas ainda assim de algum modo ainda eu.

Por sofisticação ou desleito, apontaram-me a outra extremidade, causando-me o mesmo incômodo, mas uma nova preocupação: eu, que já não era galho ou tronco, já não era mais o mesmo de uma, duas semanas. Mas ainda era algo ciente ou pretensamente ciente do que era. Se continuarem me gastando a grafita, se continuarem me apontando, e sim farão isso, até quando permanecerei? Haverá uma nova consciência, um saber das raspas; de algum modo ainda serei?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s