Sonhos e lembranças de uma pipa

 Quem conhece o blog perceberá facilmente que o texto abaixo não é meu. Tenho fé e esperanças de que ainda conseguirei escrever algo tão bom, mas enquanto esse dia não chega, o jeito é divulgar os bons textos que chegam às minhas mãos. Este especificamente foi escrito pela Aninha (Ana Bernardi), minha aluna do 7ºEF.  Isso mesmo, ele foi escrito por uma mocinha de, imagino eu, 12 anos. Prepare-se.

 ***

  Acho que sempre sonhei em ser livre.

Sentir a brisa no meu rosto – não que eu realmente tenha um –, voar o tão alto quanto eu queira e não ter ninguém para me controlar parece maravilhoso! Por isso, é óbvio que eu tenho planejado esse momento há bastante tempo.

Eu sempre fui uma pipa com dono. Eu fui montada há muito tempo atrás pelo bisavô do meu dono atual, e fui passando de mão, de pai para filho, de geração em geração. Até hoje.

Não que eu não sinta afeição pela minha “família”. Eu até já cheguei a pensar que os amava. /e sei que eles sentem algo por mim também. Mas eu acho que é besteira passar a vida em um só lugar. O mundo é gigante. E eu quero conhecer cada pedaço dele antes que uma chuva me derrube, um raio me atinja ou eu fique preso em uma árvore. Por isso eu pensei muito e eu já cheguei à minha decisão.

Eu fico guardado num quartinho muito bagunçado, porém iluminado, no andar de cima da casa, que, por sinal, fica no meio de uma grande fazenda. Eu sempre gostei de olhar os animais pela janela daquele quarto, no qual eu ficava quando o meu dono não estava brincando comigo. Apesar de ficar amarrado a uma estante, não era entediante. Aquele lugar tinha de tudo, pequenas bolinhas de gude, cartas de baralho, livros e gigantes pranchas de surfe. Tudo espalhado. As únicas coisas que saíam de lá, aliás, eram eu e as pranchas, quando a família ia para praia.

Por mais que eu tenha gostado por muito tempo desse meu estilo de vida, já está tudo planejado. Amanhã, quando meu dono me levar para passear, eu irei tentar o máximo raspar o fio, que me prende, a uma árvore para que ele se rompa e eu finalmente possa ser livre. Eu não quero magoar ninguém, porém eu quero muito isso e não vou desistir.

Crac, crac. Era o barulho da maçaneta da porta se abrindo. Eu devia ter adormecido enquanto pensava, pois um novo lindo dia raiava e não havia nuvens no céu. O que me lembrou que era hora de pôr meu plano em ação. Meu pequeno dono me desamarrou da minha morada, mal sabendo que seria a última vez.

Ao chegar lá fora, eu quase mudei de ideia. Ora, eu devia mesmo fazer isso? Iria me arrepender? Porém, já havia refletido muito e abandonei esses pensamentos.

A primeira árvore que eu vi era muito alta, e já tentei roçar minha fita nela. Porém, não tive sucesso. Tentei isso em várias outras, apesar da insistência do meu dono em me manter longe delas. Mas meu coração disparou quando eu finalmente ouvi uma ruptura. Olhei para baixo e só vi meu dono tentando me pegar, pulando e pulando.

Eu o amava, mas de uma coisa eu tenho certeza:

Eu não vou me arrepender.

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10 pensamentos sobre “Sonhos e lembranças de uma pipa

  1. Lindo texto. Parabéns à Ana Bernardi.
    Eu me peguei pensando na história do Pequeno Príncipe, que se deixou envenenar pela serpente, para poder alcançar mais uma vez o que tanto amava… suicidou-se, ao que tudo indica…
    No caso dessa pipa, houve uma espécie de morte com o desprender-se da vida antiga. Aprender a abandonar algumas coisas, por mais que as queiramos bem, por mais que as amemos, parece de fato fazer parte da vida, para aqueles que buscam coisas maiores.
    Muito bom sim. Singelo e bonito.

    • Eu vejo o desfecho de outro modo. Não me parece um suicídio. Parece-me que [1] a pipa, meio ingênua, está curtindo sua liberdade provisória sem saber / sem perceber que logo vai cair, ou [2] talvez ela saiba que estará livre por pouco tempo, enquanto o vento durar talvez, mas não lhe importa pensar no futuro, e sim curtir esses instantes preciosos. A história também parece remeter aos adolescentes que amam os pais, mas querem conhecer outros lugares, outros ambientes.

      Embora saiba que sua leitura é possível, ele me transmite um otimismo sem medo, não uma fuga.

      • Não quis propor o suicídio da pipa, mas só a morte de uma vida e o início de outra. 😀 O suicídio que me ocorreu foi o do Pequeno Príncipe.
        Também vejo positivamente essa mudança.
        Mudar é morrer, de certo modo. Bem, pelo menos eu vejo assim. Gosto de enxergar a morte como renovação, não como fim.
        😀

  2. É um texto especialmente bom; as cenas descritas aparecem naturalmente na mente enquanto se lê. Essa fluidez é algo muito especial. Parabéns 🙂

  3. Estaria a pipa buscando sua liberdade? Eu soltei tanta pipa, vi tantas indo embora, algumas voltando a minha mão, mas nunca pensei desta forma como a Ana, parabéns!

    A vantagem de um texto como este é que podemos aprofundar bastante em seus significados.

    Poderia estar tratando da liberdade, mudanças, morte, renovação, enfim, tanta coisa.

    Parabéns Ana!

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