O voo

por Caroline Carvalho.

     Eu costumava viver em uma grande loja de brinquedos, com muitas pipas. Muitas pessoas iam lá para comprá-las, mas quase ninguém reparava em mim. Mas isso era devido à minha cor, um laranja escuro quase marrom, que não chamava a atenção. Eu via as outras pipas sendo compradas uma após a outra. Cinquenta, vinte, dez pipas sobravam. No final só ficou uma, eu.
      Foi assim até que um garoto entrou na loja, querendo comprar algo. Infelizmente, ele deu azar; o grande estoque de pipas acabara, e as novas só chegariam no dia seguinte. Com uma cara de desgosto, o garoto me comprou e, logo ao sair da loja, começou a me empinar. Eu sentia a brisa fresca passando e via o céu azul. De cima era possível ver outras pipas, grandes pequenas, de todos os formatos. Mas algo estava errado. Por ter ficado tanto tempo na loja, minha linha estava ruim, quase arrebentando. Senti a linha se romper e vi o rosto triste do garoto ficar cada vez mais fundo e distante.
     Agora estou voando sem rumo, sentindo o vento. Percebo que, como várias pipas que eu observava da janela da loja, alguma hora eu vou cair.  Me sinto triste, pois eu passei pouco tempo voando, e daqui a pouco vou cair. Mas também percebo que é exatamente por isso que devo aproveitar cada momento até a minha queda. Vou voar tranquilamente até o fim, sabendo que fui livre ao menos uma vez na minha breve vida.
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