momento branco

manhã branca

peixe branco

uma

polegada branca

(Haroldo de Campos)

– A tela esconde ideias, lança nuvens, penumbras, terra escura sobre as palavras que queremos encontrar. Essa, neste momento, é a função da sua arte. Comunicar-se num mundo em que camadas de preconceito, intolerância e indiferença se colocam entre o eu e o tu seria o pecado mortal do artista consciente de sua arte. É vital que se diga a todos os ouvidos o ruído. Mais do que o silêncio, que sugere paz, tranquilidade, calma, o ruído estimula, excita e incomoda. A recusa é, de certa forma, uma espécie de afirmação. Dizer sim para o nosso tempo, sua complexidade, seus meandros, é balbuciar algo impronunciável, gemer uma interjeição não compreensível, sussurrar o inefável.

Ouvindo aquilo tudo como se ouvem antigos ecos nunca esquecidos, ela sorriu, admirando a energia que se desperdiçava com tanto empenho. Uma brisa tocou o seu rosto, harmonizando com o frescor do suco que o garçon havia acabado de trazer. Admirava as conversas; delas algo de grandioso sempre pode surgir – mas naquele momento ela queria mesmo era fruir o instante, sentir o vazio, como se o perfume daquele limão rosa, com suas camadas de açúcar e acidez, pudesse se fundir com a plenitude que só a quietude a dois pode trazer.

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