Identidade plástica

Harini Abja Kanesiro

     De coloração preta, destinada à clientela masculina, feita em corte sóbrio e, devo admitir, antiquado, eu apresentava uma composição que se resumia essencialmente a policloreto de vinila. Embora o nome possa ecoar alguma nobreza, entre todas aquelas que me faziam companhia na vitrine, ele significava apenas duas coisas: meu âmago não era nada além de plástico (o que justificava meu valor inferior diante das que se diziam cabelos verdadeiros) e quem me utilizasse seria um pobre coitado inconsciente do ridículo a que estaria se submetendo. O homem que efetuou a minha compra parecia ciente da primeira. Mas julguei que, embriagado pelo desejo desesperado de ocultar a calvície, não parecia ter percebido a segunda.

       Fui vendida como promessa de jovialidade, de mudança, de uma beleza que todos sabiam ser sintética, mas que poderia trazer uma confiança maior nos campos da estética, da sedução e, por que não, nos diálogos com antigos amigos que, contrariando os efeitos da velhice, ainda conservavam uma quantidade generosa de madeixas a cobrir o topo da cabeça. A alegria de meu recém-adquirido dono parecia tão sincera, tão pura, ele me carregava na sacola com tanto cuidado, que me peguei pensando, sem medo de elevar minha presunção a um nível superior ao que me era permitido como artigo considerado frívolo e de segunda categoria, que havia sido comprada para fazê-lo feliz.

       Em casa, o velho que se tornara meu dono deixou as chaves na mesa, tirou-me da sacola e caminhou ansioso para o banheiro, onde me depositou com cuidado sobre os poucos e isolados fios que, brancos e privados do vigor da juventude, pareciam suplicar por uma rápida e indolor queda. Mas foi apenas ali, diante do espelho, que me dei conta do encaixe perfeito e da beleza precisa que se configurava. Eu me sentia completa, maravilhada por ter me tornado útil, apesar de todas as previsões malditas dos caros exemplares da loja, tomada por um sentimento afetuoso em relação àquele senhor pacato. E o melhor é que o sorriso de meu dono parecia indicar reciprocidade. Com o perdão do clichê, tínhamos sido feitos um para o outro. Por isso me surpreendi com a figura feminina que entrou em cena após alguns minutos.

       Arrancou-me da superfície calva e iniciou todo um discurso repleto de palavras desdenhosas para meu dono. Com um sorriso ferino ela zombou de suas crises capilares, de sua velhice, de sua dignidade e nos insultou como um todo. Desejei que não fosse um emaranhado de fios, mas sim algo com uma consistência mais ameaçadora que pudesse causar estrago àquela mulher. Meu dono, entretanto, abaixara o olhar e, envergonhado, cobria a cabeça com as mãos. Subitamente, enquanto eu ainda estava perdida em pensamentos vingativos, ela me jogou no chão e em seguida fui pisoteada pelo que pareciam dezenas de saltos enfurecidos para me desfazer em pedaços cada vez menos dignos.

    Eu terminava minha breve vida mutilada. Quando meu dono me colocou em meio a todos aqueles restos orgânicos, já não tinha certeza do que restara de mim. Para completar a atmosfera trágica, me dei conta de que não soubera seu nome. E aquilo me trouxe uma tristeza tão densa que nem meus fios poderiam diluir.

   Antes de fechar a tampa do lixo, ele me olhava como se compartilhasse daquela mesma dor aguda que me afligia, daquela angústia que emerge de todas as separações. Os gritos de minha algoz lhe chamando desviaram sua atenção, ele direcionou seus olhos para mim uma última vez, respirou fundo e tudo ficou escuro. Ela sequer teve a dignidade de chamá-lo pelo nome.

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2 pensamentos sobre “Identidade plástica

  1. Harini, gostei muito de seu texto. As escolhas de vocabulário são bastante apropriadas, oferecendo-nos descrições claras dos sentimentos, das emoções e das percepções dessa peruca destinada a um fim tão trágico.
    Essa experiência das redações criativas parece ser mesmo bem interessante.
    Só uma coisinha não me agradou muito, ou melhor, me causou estranhamento. No trecho “Arrancou-me da planície calva”, sinto que algo não parece muito adequado. A peruca desenvolvera sentimentos por aquele homem, não me parece que chamaria a querida careca de “superfície calva”, expressão um pouco fria para uma personagem tão cheia de subjetivos arroubos.
    Apenas um detalhe, contudo.
    Adorei ler seu texto (o segundo que leio). E é ótimo ler um texto tão bom, escrito por alguém tão jovem.
    Abraços.

  2. Ótimo, Harini! A imagem do velho é tão nítida ao fim do texto que causa uma angústia imensa. E a construção da identidade de ambos em um processo dialético foi bem tecida. Gostei. 🙂

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