crônica fluminense

Henrique Vaz

Há cerca de uma semana, cheguei ao Rio de Janeiro para fazer um Curso de Verão no IMPA, localizado no Jardim Botânico. Estou morando no Maracanã, a duzentos metros do Estádio, e ontem vivenciei uma desventura digna de relato.

Eu e mais dois amigos, voltando de nosso curso, trajeto de cerca de uma hora e meia, permanecemos ilhados em um posto de gasolina por duas horas, a quinhentos metros de casa. Todos com sono, fome, sede, frio e, pra completar, vontade de ir ao banheiro.

O posto de gasolina abrigava, além de nós três, policiais militares, moradores de rua, transeuntes e taxistas. Os moradores de rua, um pouco alterados – provavelmente por causa da chuva – bradavam contra o santo: “Ô, São Pedro, faz isso comigo não! Com essa sua marolinha eu chego na Mangueira duas da manhã!”; os transeuntes, quando a chuva abaixava, trafegavam em fila no meio da rua vazia, construindo um panorama digno de “The Walking Dead”; os taxistas diziam-se indispostos a uma corrida em que lhes fosse pagado o dobro da quantia, e o rádio anunciava que Eduardo Paes estava na rua “monitorando” as chuvas.

Enquanto isso, eu tentava fazer amizade com os policiais, visando uma carona: “E aí, a coisa tá preta lá pro lado da Saens Pena? Esse aí é um três oitão? Se eu der um soco no meu amigo eu vou pra delegacia? Porque com essa chuva prefiro ficar por lá mesmo!”. Acho que o moço foi com a minha cara, e até se dispôs a dar uma carona, mas disse que chegaríamos muito mais rápido se fôssemos a pé.

Tomamos coragem e nos juntamos à peregrinação no meio da rua. A cem metros, a rua estava coberta de água, com direito a correnteza e a leptospirose. Seguimos em frente, nadando crawl, borboleta, peito e cachorrinho. Finalmente chegamos em casa.

Despreparados, havíamos deixado as janelas abertas, afinal, Rio quarenta graus, não? Os notebooks, livros e algumas camas estavam cobertos de água. No fim das contas, tudo voltou a funcionar (pelo menos tudo que tentamos ligar até agora).

O momento que sucedeu foi de reflexão: imaginei as pessoas que passam tantas vezes por essa experiência, que acaba por se tornar algo lamentavelmente rotineiro. Naquelas que, mesmo com as portas e janelas de suas casas fechadas, acabam por perder absolutamente tudo que tem.

Não pude deixar também de considerar o grande público que será recebido durante a Copa do Mundo. É visível que gastar milhões em estádios não é suficiente quando as redondezas de um estádio do porte do Maracanã não possui infraestrutura para comportar a chuva. Mas tudo bem, em Junho não chove na cidade mesmo!

Agora, resta esperar. Estou confiante, acho que tudo vai ficar bem. O prefeito está zelando por todos nós.

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