Metonímicas: dois novos textos

A quem interessar:

 11 – O homem que não se enxerga.

           Como se fosse invisível, chega à padaria, dá um bom dia mecânico ao atendente, pede na chapa e sem açúcar, e fica ali, fingindo não perceber que todo mundo vê o quanto ele é escroto.

12 – O rato perfeito.

           Era uma vez um homem de muitas opulências e exageros. Ele muito viveu, consumiu prazeres e aprendizados, provou sabores e saberes. Teve muitos filhos; filhos próprios e filhos alheios – não só no mal, quanto no bom sentido. Teve tantos filhos que seus dedos e sua memória não poderiam contar. Viveu muito, sabia que ia morrer, mas não estava triste. Sem saber, no meio de tantas possibilidades, quem das suas crias era mais legítima que a outra, decidiu inventar um jogo para eleger seu herdeiro. Ele adorava jogos.

           Aquele, seja escultor ou músico, que fizesse, poeta ou malabarista, o rato perfeito, ator ou mestre-cuca, ficaria com toda a fortuna. Como cultivava a inteligência e a sagacidade, não restringiu a competição a apenas uma arte. E assim escultores e músicos, poetas e malabaristas, atores e mestres-cucas, todos eles mais os outros se dispuseram a construir o rato perfeito.

[…]

***

           E um, já meio antigo que eu me esqueci de divulgar:

10 – Satori

            Satori não era um computador comum. Por mais que as evoluções tecnológicas dos anos 1990-2020 tenham sido exponencialmente assustadoras, nenhuma outra invenção humana chegou tão longe. Mesmo a enigmática loucura que acometeu seu inventor foi atenuada pela enorme capacidade intelectual de Satori: ele não só se mostrava um exímio matemático e engenheiro (capaz de criar projetos futurísticos que só seriam viáveis meio século depois), como também desenvolveu um forte senso humanitário (coisa que nem século e meio depois seria recebida só com aplausos). Até quem nunca se rendeu à tecnologia admitia que Satori era especial.

            Todas as questões que interessavam aos humanos ele respondeu: a agricultura, a tecnologia, os recursos energéticos não geravam nenhum tipo de problema à população; os tratamentos aos doentes, as políticas públicas, a justiça econômica também não provocavam nenhum estresse nos governantes; tudo ia bem. Nos seus últimos cinco anos de vida pública, Satori recebeu uma espécie de aposentadoria; contrariado, ele ficava numa sala de museu, onde recebia silenciosas visitas de admiradores que talvez balbuciassem algo do outro lado da grossa parede de vidro que o protegia. Ficar ali, sem nada poder ouvir, sem nada poder dizer, deve tê-lo incomodado. Foi então que, dizem, ele começou a escrever o seu diário.

[…]

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