Um som na praia

 Stella A. N.

A brisa entrava pela janela e soprava as fotos na parede branca, o quarto ficou fresco e pode-se escutar as ondas quebrando nas pedras de calcário. As águas brilhantes e cristalinas transmitiam calma e serenidade, podia me perder naquela paisagem com o meus pés afundados na areia fofa e branca.[1]

Eu caminhei um pouco pela praia; meu vestido era tocado levemente pelo vento que cheirava a mar salgado. O vestido vermelho se destacava na praia deserta, nem uma pessoa à vista ou outro som além do mar e das gaivotas que sobrevoavam o lugar.[2]

Depois de algum tempo escolhendo conchas trazidas pela maré, com a barra de meu vestido molhada, ouvi um som bem fraco. Segui o som e cheguei a um lugar que se parecia com uma pequena casa de praia. A porta estava aberta; então, entrei.[3]

A casa tinha uma decoração simples e o chão era forrado com madeira. Andei pela casa e cheguei à fonte do som: um senhor já grisalho e bronzeado pelo sol forte do verão que então tocava um violão gasto e desbotado. Ele tocava uma melodia triste, movendo lentamente seus dedos entre as cordas do violão.[4]

-Que música é essa, senhor? – Ele nada me respondeu, continuou tocando a música até o final.

-Esta música foi escrita para alguém que eu amei e que se perdeu nesta praia deserta. Ela era como você, jovem e bela, com cabelos negros e um belo sorriso. – disse o senhor, com uma voz suave, nada desgastada pelo tempo.[5]

O senhor começou a tocar novamente e eu parti. Me pus a pensar se aquele senhor era conhecido, pois era muito hábil. Bem, se ele não tinha fãs, eu me tornara a primeira.

Ainda penso naquela triste canção, tão suave e tão forte. Nunca mais encontrei aquele senhor; espero que ele tenha achado o que buscava.


[1] O texto começa com a personificação da brisa, a qual serve como elo entre os ambientes (quarto – praia). As breves descrições sugerem que há algum tipo de memória nesta casa (Seriam fotos da narradora ou ela está imersa em um santuário de recordações alheias? A se conferir na sequência do texto), ao mesmo tempo ficamos sabendo que esse quarto transmite certo incômodo (ele só fica fresco quando a brisa entra). Metonimicamente, a brisa sugere o lado de fora, onde além da brisa há calma e tranquilidade, retratadas pelos elementos da natureza (novamente vem a questão: ali, dentro daquela casa, há calma e tranquilidade?).

[2] O diálogo com a natureza continua. A narradora expressa uma espécie de necessidade de entrar em contato com alguém – ou mesmo com algo. A visão que ela faz de si mesma como se estivesse num quadro (o vestido vermelho se destacando na praia deserta) sugere uma sensação de incompletude. E, no caso, a cor do vestido é significativa, indicando desejo, sensualidade.

[3] A verossimilhança deste trecho é algo que merece ser analisado. De modo geral, o simples fato de a porta de uma casa desconhecida estar aberta não é motivo para que entremos. Aqui não. Neste ambiente meio que mágico, meio que onírico, a porta aberta (símbolo da possibilidade de comunicação com um outro ser) parece ser razão mais do que suficiente para que a narradora adentre-se naquela casa.

[4] O elemento sonoro, antecipado no título e no primeiro parágrafo, é retomado. Se lá o som era um atributo da natureza (o barulho das ondas), aqui ele se converte num atributo humano.

[5] Aqui temos um momento de saborosa ambiguidade. Esse senhor cuja voz resistiu à passagem do tempo seria um ser do além? Se considerarmos que voz sugere não só comunicação, troca de experiência, mas também expressão de sentimentos, acabamos de ser apresentados a um ancião cujos sentimentos, por mais antigos que sejam, ainda estão vivos, com o sabor da mocidade. Por outro lado, se analisarmos esse encontro pela perspectiva do senhor, a narradora passa a ser o elemento misterioso e simbólico. Será ela a ressurreição da saudosa amada? O interessante é perceber que em qualquer uma dessas duas hipóteses, a configuração simbólica está bem feita. Enquanto ela parece se vestir especialmente para o encontro, ele a recebe com uma canção aparentemente feita sob medida para a amada. E mesmo a natureza parece colaborar com o clima.

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