no flat

           O texto a seguir foi produzido após uma reunião dos Estudos Narrativos, atividade destinada a alunos do Ensino Fundamental II, das quais o Luca participa como ouvinte – embora às vezes, a gente o deixe falar. As únicas instruções que lhe passei foi que usasse de modo consciente alguns dos recursos trabalhados nas reuniões (enredo, vozes [narrador, personagens], iluminação/cores, enquadramento, ritmo/velocidade, símbolos, ideias). Aqui está o resultado, ao qual inseri algumas notas de rodapé totalmente dispensáveis, mas sabe como é a vaidade, né?

Luca Fasciolo Maschião[1]

           Suspirava satisfeito ao som da suave sinfonia de sua vida, que se sustentava sublime na sua precisão matemática.[2] Na hora do almoço, sorvia a meticulosa harmonia em longos goles – já na meia idade, pensava naquele momento, como extraía de seu pulsante cotidiano essa satisfação. Suspirara novamente, sorrindo. [3]

           Contemplava a ordem perfeita que regia a cidade, sua funcionalidade, sua lógica.[4] De repente, cessaram os instrumentos.[5] Captara de relance o sentimento cru de um casal que, em explosão sonora, ruía toda aquela ordem.[6] Preenchia-o lentamente com angústia, meio no qual aquele baque ressoava estrondoso e incessante. O recipiente já não suportara mais e, naquela madrugada, rompeu-se. Agora que explodira; no flat: silêncio.[7]


[1] Como o Luca não batizou o rebento, o provisório eu que dei.

[2] O primeiro período possui bastante sonoridade. A aliteração de sons assoprados dialoga com a tal “suave sinfonia de sua vida”, indicando um toque de delicadeza. O desfecho, porém, apresenta uma expressão ambígua. A “precisão matemática” pode tanto remeter a uma sensação quase divina quanto a um rigor cujas sequelas irão aparecer cedo ou tarde.

[3] Aqui temos uma metonímia que se tornará interessante. Ao sorver “a meticulosa harmonia em longos goles”, o protagonista nos transmite um caráter alegre e vivo, bastante coerente com a aliteração do período anterior. Já na segunda metade do período, vemos uma pista bastante sutil: a satisfação era extraída do pulsante cotidiano com certo esforço. A ênfase, sem dúvida alguma é positiva, mas podemos ficar sim desconfiados que essa alegria toda dialoga com uma espécie de dor que está sendo disfarçada com muito empenho.

[4] Analisemos a personificação. Em “a ordem perfeita que regia a cidade”, é possível ver uma inversão semântica, em que as pessoas (“cidade” / substantivo concreto) são governadas por leis (“ordem” / substantivo abstrato), quando o correto deveria [?] ser o contrário. “Funcionalidade” e “lógica” parecem soar mais como marcas de uma civilização robotizada do que atributos elogiáveis.

[5] Há aqui uma mudança de plano sensacional. O foco narrativo apontava para fora, para a cidade como um todo; agora, num piscar de olhos, estamos de volta ao apartamento com o protagonista. Um processo sutil, mas de muita tensão.

[6] Assim como acontece em Alphaville, filme de Jean-Luc Godard, também aqui o amor (ou a paixão ou o contato humano, use o nome que lhe seja conveniente) se encarrega de ruir a distopia até então tão bem disfarçada pelos artifícios narrativos do Luca. “Sentimento cru” parece remeter à cena inicial de Hiroshima mon amour, de Alain Resnais, em que os corpos de Emmanuelle Riva e Eiji Okada se unem num abraço capaz de fundir o sólido mais duro. O importante aqui não é inquirir se esse diálogo é feito de modo proposital ou não, mas sim perceber uma sensibilidade muito próxima de duas obras que emocionaram inúmeros fãs. E caso tenha sido mesmo uma apropriação, eis um motivo a mais para consumirmos culturas.

[7] Releia o texto sem minha interferência. Usufrua por conta própria. Eu sei que você vai gostar.

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