…pedras amontoadas por todo terreno escuro.

 

Natália Calciolari

Vejo, ao cair em mim, pedras amontoadas por todo terreno escuro. Tento forçar minha memória, olhar o antes, mas nada me ocorre. Como todo jovem, tenho a finalidade de ser feliz. Sou jovem, ainda que meus cabelos grisalhos não digam o mesmo. Minhas pernas já não aguentam mais meu peso. Sequer consigo tentar; caio em frente a uma árvore.

 Um som quase inaudível chega a meus tímpanos, logo torna-se ensurdecedor. A minha curiosidade não deixa por pouco: forçando os olhos, espreito gritos de lamentação que minhas cordas vocais um dia já pronunciaram, e me arrependo de recordar delas.

 Fujo das palavras perseguindo a mim com pancadas nostálgicas, mas, mesmo me debatendo, o saber transbordava de vontade:

 “Não deixei você partir, meu coração sente apertos. Ontem era dia. Hoje é noite. Há apenas o buraco que me deixou. Sem cumprir promessas, você partiu. Foi para a eternidade, deixando rastros de
tristezas, que saboreio pelo fato de ter sido feito por ti.”

 Vontade de gritar para impedir que mais palavras tolas fossem pronunciadas, mas não o fiz. Observei-o mais um pouco a fim de ver como reagiria às próprias explosões. Não me assustei quando meu semelhante começou a cavar a sepultura onde residia sua amada, talvez para poder resgatá-la.

 Fechei os olhos e os mantive fechados. Não, isso não pode ser verdade. Devo estar sonhando.

* * *

Leitura comentada:

Vejo, ao cair em mim, pedras amontoadas por todo terreno escuro.[1] Tento forçar minha memória, olhar o antes, mas nada me ocorre. Como todo jovem, tenho a finalidade de ser feliz. Sou jovem, ainda que meus cabelos grisalhos não digam o mesmo. Minhas pernas já não aguentam mais meu peso. Sequer consigo tentar; caio em frente a uma árvore.[2]

 Um som quase inaudível chega a meus tímpanos, logo torna-se ensurdecedor.[3] A minha curiosidade não deixa por pouco: forçando os olhos, espreito gritos de lamentação que minhas cordas vocais um dia já pronunciaram, e me arrependo de recordar delas.[4]

 Fujo das palavras perseguindo a mim com pancadas nostálgicas, mas, mesmo me debatendo, o saber transbordava de vontade:

 “Não deixei você partir, meu coração sente apertos. Ontem era dia. Hoje é noite. Há apenas o buraco que me deixou. Sem cumprir promessas, você partiu. Foi para a eternidade, deixando rastros de tristezas, que saboreio pelo fato de ter sido feito por ti.”

 Vontade de gritar para impedir que mais palavras tolas fossem pronunciadas, mas não o fiz. Observei-o mais um pouco a fim de ver como reagiria às próprias explosões. Não me assustei quando meu semelhante começou a cavar a sepultura onde residia sua amada, talvez para poder resgatá-la.

 Fechei os olhos e os mantive fechados. Não, isso não pode ser verdade. Devo estar sonhando.

 

 


 

[1]
A expressão “cair em mim” não é exatamente um sinônimo de acordar. O cair, sugerindo uma espécie de tombo (imagem essa que será usada mais adiante), expressa certo desconforto (físico e mental, como também veremos a seguir). As “pedras amontoadas” também sugerem desconforto. Essa mistura de elementos concretos e abstratos sugerindo adversidades é fundamental para o clima do texto.

[2]
Temos aqui dois movimentos concomitantes. O primeiro é o da consciência tentando, mas não conseguindo, acessar a memória. Se entendermos isso como ato falho, podemos supor que o narrador tem problemas relacionados não só com a memória recente, mas também com a distante (coisa que irá se confirmar logo mais). Já o segundo movimento é a insistência de o narrador sentir-se jovem, apesar de seu corpo não dizer mais o mesmo. Considerando que ele está embriagado no momento da narração e considerando que álcool não é um alimento propício a quem quer se manter com o corpo jovem e saudável, talvez nem ele mesmo acredite na sua suposta juventude. Essa decepção com o próprio eu talvez seja uma das causas da sua embriaguez – mas certamente não será a única.

[3]
Há aqui um saboroso oximoro. Há duas formas de estarmos surdos: pelo excesso e pela ausência de sons. O tom onírico, verbalizado no último período do texto, já está sendo sugerido aqui.

[4]
Dizer que há aqui uma sinestesia é pouco. Muito pouco. Interessante será analisar o modo como ela é usada para, então, usufruirmos as notas de seu paladar delicado. Ao espreitar “gritos de lamentação”, a autora não está apenas deixando o texto bonito, mas fazendo com que o narrador crie uma identificação visual com a expressão quase animalesca do jovem apaixonado que está entrando em cena. Mais do que uma sutileza quase cinematográfica, o que temos aqui é uma passagem daquelas que a gente mesmo gostaria de ter escrito.

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