perfume que por tanto tempo acariciei…

   É errado sentir orgulho por feitos dos outros, mas – quer saber? – certo ou errado, a verdade é que eu sinto um imenso orgulho por poder compartilhar este texto da Mel, aquela criatura linda que desde o Furumbelo sempre aparece com brilho próprio nos filmes que faço com meus alunos. A conheço tanto e há tanto tempo que não teria como eu atenuar minha felicidade ao ver nascer dela esta bela narrativa que ela produziu numa oficina de texto que eu coordenei algumas semanas atrás.

 Deixo o texto aqui em duas versões: a limpa, o texto em si, e a suja, com algumas notas de rodapé.

 Aproveite. 🙂

 P.S.:  Como ela me entregou o texto sem título, decidi por colocar um provisório que estará aqui até ela me dar um definitivo.

perfume que por tanto tempo acariciei…

Melissa Machado

E o que o breu não cobria, eu já não conhecia. Há um tempo, o mármore gélido, sem esperança de aurora, contrastava com a cama negra que me envolvia. Solitária de mim, eu não sabia a dor ou a falta.

De longe ouvi algumas lágrimas, alguns suspiros, mas nenhum me comoveu, nenhum. Por baixo de onde os vivos vivem, a vida é serena, o tempo não existe, a paz sem consciência nos envolve.

O solo sempre dançava no ritmo do meu coração. Porém naquele dia, sem ter certeza de que fosse um dia ou outro qualquer, a dança mudou: saltitava, corria, brincava, não! Corria-corria ao som do desespero.

A primeira coisa que senti foi seu perfume, perfume que por tanto tempo acariciei. Dentro de mim algo despertou; aquelas borboletas cuja existência fora tragicamente despedaçada pareciam um quebra-cabeça que, dentro de mim, começava a se reconstituir.

Ele chegava mais perto, e aquilo só crescia em mim. Eu o sentia apesar de tão longe, mas não o entendia; era incompreensível para mim. Aquela calma e paz se esvaíam, como a vida: lenta e sutilmente. Meu coração agora seguia a dança da terra, pulsante e vívida, a mistura do sentir. Pausa. A dança se cala, mas o silêncio se rompe. Era ele, ele com seu olhos e seus sorrisos, sua alegria e seu amor. Não, era ele, mas seu olhos, olhos que exalavam o seu ser, estavam tão vazios quanto a minha solidão.

– Amélia!

Agora aquilo doía, doía como se algo me consumisse de dentro para fora. As borboletas exalavam o mais doce aroma, mas o veneno ácido ardia em meu peito; estava entre o céu e o inferno.

– Amélia, por que me deixou?

Meu amor, por que só o seu chorar me afeta? A verdade é que naqueles segundos de angústia meu coração começou a descongelar. A saudade, o medo, a tristeza ,tudo que não havia me atingido, como um tiro de canhão, fez brotar a mais triste das lágrimas.

O desespero puro, essencial, e ao mesmo tempo a estagnação, a incapacidade… foi a primeira vez que realmente senti que estava morta .E as lágrimas que regavam as flores de meu berço eterno doíam em mim. Que destino cruel, que abandono divino, os dois solitários, separados para sempre.

Mas por um instante as lágrimas cessaram, talvez o meu desespero tenha escapado da terra e passado para o meu amor. Seus olhos já não estavam molhados, agora tinham a cor do inferno e num ato selvagem começou a retirar meu manto negro. Estaríamos próximos. Era incessante, até que me vi, pela última vez envolvida em seus braços, pela última vez envolvida pela doçura de seu olhar. Meu adeus, meu ultimo suspiro…


 

* * *

Leitura comentada:

perfume que por tanto tempo acariciei…

Melissa Machado

E o que o breu não cobria, eu já não conhecia. Há um tempo, o mármore gélido, sem esperança de aurora, contrastava com a cama negra que me envolvia. Solitária de mim, eu não sabia a dor ou a falta.[1]

De longe ouvi algumas lágrimas, alguns suspiros,[2] mas nenhum me comoveu, nenhum. Por baixo de onde os vivos vivem, a vida é serena, o tempo não existe, a paz sem consciência nos envolve.[3]

O solo sempre dançava no ritmo do meu coração. Porém naquele dia, sem ter certeza de que fosse um dia ou outro qualquer, a dança mudou: saltitava, corria, brincava, não! Corria-corria ao som do desespero.[4]

A primeira coisa que senti foi seu perfume, perfume que por tanto tempo acariciei.[5] Dentro de mim algo despertou; aquelas borboletas cuja existência fora tragicamente despedaçada pareciam um quebra-cabeça que, dentro de mim, começava a se reconstituir.[6]

Ele chegava mais perto, e aquilo só crescia em mim. Eu o sentia apesar de tão longe, mas não o entendia; era incompreensível para mim. Aquela calma e paz se esvaíam, como a vida: lenta e sutilmente. Meu coração agora seguia a dança da terra, pulsante e vívida, a mistura do sentir. Pausa. A dança se cala, mas o silêncio se rompe. Era ele, ele com seu olhos e seus sorrisos, sua alegria e seu amor. Não, era ele, mas seu olhos, olhos que exalavam o seu ser, estavam tão vazios quanto a minha solidão.

– Amélia!

Agora aquilo doía, doía como se algo me consumisse de dentro para fora. As borboletas exalavam o mais doce aroma, mas o veneno ácido ardia em meu peito; estava entre o céu e o inferno.

– Amélia, por que me deixou?

Meu amor, por que só o seu chorar me afeta? A verdade é que naqueles segundos de angústia meu coração começou a descongelar. A saudade, o medo, a tristeza ,tudo que não havia me atingido, como um tiro de canhão, fez brotar a mais triste das lágrimas.

O desespero puro, essencial, e ao mesmo tempo a estagnação, a incapacidade… foi a primeira vez que realmente senti que estava morta .E as lágrimas que regavam as flores de meu berço eterno doíam em mim. Que destino cruel, que abandono divino, os dois solitários, separados para sempre.

Mas por um instante as lágrimas cessaram, talvez o meu desespero tenha escapado da terra e passado para o meu amor. Seus olhos já não estavam molhados, agora tinham a cor do inferno e num ato selvagem começou a retirar meu manto negro. Estaríamos próximos. Era incessante, até que me vi, pela última vez envolvida em seus braços, pela última vez envolvida pela doçura de seu olhar. Meu adeus, meu ultimo suspiro…

 


[1] O texto começa invadido por diversas nuanças de sombra e penumbra, sejam elas mais físicas (“breu”, “mármore gélido”, “sem esperança de aurora”, “cama negra”) ou psicológicas (“não conhecia”, “Solitária de mim”, “eu não sabia”). O tom é sombrio também pelos elementos que sugerem anulação (“não” [três vezes], “sem”, “negra”, “Solitária” “falta”). Essa escolha vocabular evidencia uma harmonia semântica muito importante para entendermos o porquê de o texto não possuir uma dicção narrativa fluida. Ou melhor: a fluência do texto não pode ser medida em termos de velocidade. Aqui, o intuito dessa aparente lentidão é dar um toque poético e onírico à narrativa. Exemplo dessa proposta é a expressão “solitária de mim”, a qual se localiza num meio termo entre o paradoxal e o depressivo.

[2] Assim como no texto da Natália, aqui também temos uma sinestesia muito bem escolhida. A audição cria imagens visuais no cérebro da narradora, evidenciando o poder imagético das palavras, não só no plano da história, mas também no plano da narração.

[3] Aqui ficamos sabendo que a narradora é uma defunta. Além disso sabemos que ela não se comove com as palavras que pouco a pouco chegam a seus ouvidos.

[4] O terceiro parágrafo, calculando devidamente a progressão narrativa, apresenta uma mudança de postura, ainda que essa mudança seja “justificada” por um elemento externo, a movimentação da terra ao redor da sepultura. Essa justificativa tem de ser compreendida em toda sua ambiguidade, afinal é a terra que move o coração da narradora ou é seu coração que move a terra?

[5] Temos aqui uma sinestesia de muita sensualidade e bom gosto.

[6] O “turning-point” não poderia ser mais bonito. Acredito que a maior parte dos leitores está torcendo para que a narradora deixe esse sentimento renascer. Por ora, deixarei você se deliciar sozinho com o restante do texto. Aproveite-o.

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