Periféricos caianos

Ao corrigir a tarefa de um aluno meu, o Caio, deparei-me com um periférico* muito bem trabalhado. Ele se assemelhava a um conto de fadas, mas tinha um quê meio non sense que lembrava os koans orientais. Por falta de nome melhor (periférico narrativo é muito pouco, periférico filosófico seria muito genérico), resolvi denominá-lo de periférico “caiano”. E, numa homenagem do tamanho que posso alcançar, resolvi fazer meus próprios periféricos caianos. Conseguir montar uma aula com base naquilo que meus alunos criaram / desenvolveram é certamente um dos privilégios da minha profissão.

Obs.: 

* Infelizmente, esqueci-me de tirar uma cópia do texto antes de devolver o caderno ao aluno. Caso ele me envie o texto, colocá-lo-ei aqui com todo prazer. 

* Para quem não sabe, chamamos de periférico o trecho inicial de uma introdução (de texto dissertativo), o qual se caracteriza por não remeter imediatamente ao tema. Um exemplo, em vermelho:

De um lado da ponte, o poeta admira a margem oposta. Parecia haver maravilhas sob aquele Sol reconfortante, um ar mais límpido, cores mais vivas. Almejando-as, atravessa a ponte: um caminho sem volta-as águas do rio caudaloso devorariam o percurso conforme a travessia era feita. A cada passo, uma desconfiança cada vez maior passa a inquirir a margem idealizada: a que deixara parecia cada vez mais bela vista de longe. É de forma semelhante a esse poeta que todos nós construímos as nossas vidas: atravessamos infindáveis pontes em busca de satisfação pessoal, da construção de uma identidade, em suma, de um lugar melhor. Entretanto, esse contínuo mudar “de margens” envolve mudanças que não podem ser desfeitas, daí a importância de analisarmos se tal empreita é realmente válida.
Travessias (Michell Lee) – [Texto completo aqui]

* Quanto mais inusitado o periférico, maior a chance de o texto se distinguir. Mas também maior será a dificuldade de mantê-lo coerente e coeso.

E agora, com vocês, os periféricos caianos:

Exemplo 1:

Como se fosse um sonho, o boneco de madeira ganha vida, movimentos, curiosidade. Passa a perambular de um lado para o outro em busca de aventuras e descobertas. Mas não, não é ele o personagem mais importante dessa famosa história. Gepeto, o velho sábio e solitário, simboliza perfeitamente as frustrações daqueles que anseiam uma vida simples ao lado de seus pares. No entanto, não há como escapar: são ímpares e complexos.

 Exemplo 2:

Depois de traçado um longo e sinuoso caminho, apagado suas pegadas, eliminado qualquer pista que revelasse seu percurso, o eremita enfim alcançava a paz. Finalmente, ele poderia descansar, sabendo que ninguém o encontraria. Ninguém poderia retirá-lo daquele esconderijo tão bem calculado. Agora ele estava só, sem ninguém para incomodá-lo, e sem ninguém para protegê-lo do maior perigo que ele poderia encontrar.

 Exemplo 3:

“Era uma vez…” um sem número de histórias encantadoras, repletas de magia, enigmas, desafios – mas todas elas com o mesmo previsível final feliz. Dizer que se trata de um clichê seria apenas outro clichê. É importante compreender que nem sempre foi assim e, acima de tudo, é fundamental entender as razões que levaram esse tipo de desfecho a fazer tanto sucesso.

[…] “E eles viveram felizes para sempre…”, pois precisávamos acreditar que esse tipo de história era possível.

Exemplo 4:

Ela olhou para o espelho e viu inúmeras pessoas, mas não conseguiu ver si própria.

 Exemplo 5:

Já há muito ele havia passado dos trinta. Uma carreira séria, sólida e congruente. Depois de uma longa reunião, foi levado a uma cafeteria sem tanto requinte, mas de bom gosto – lhe disseram. Pediu um café simples, visto que se tratava mais de um costume do que de um prazer. Mas foi só aproximar a xícara dos lábios que ele sentiu um antigo aroma invadir seu cérebro e se lembrou da infância, da época em que não precisava se esforçar para parecer uma pessoa realizada.

 Exemplo 6:

Viver é como andar de bicicleta. A regra para se evitar o tombo não é buscar um ponto de equilíbrio, algo que nos mantenha estáticos, livres de qualquer instabilidade. Os veículos incitam o movimento. E mover-se é a arte de buscar, instante após instante, um novo ponto de equilíbrio, tão efêmero quanto o anterior. Afinal, viver – assim como andar de bicicleta – é a arte de equilibrar-se em constante desequilíbrio.

***

P.S.: Como dito em sala. Caso alguém queira desenvolver qualquer um dos exemplos acima, por favor, sinta-se à vontade.

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