Recebi uma carta

Cintia Mayumi

   Recebi uma carta… Estou distante de mim mesma, ela dizia. Parte de mim aqui, escrevendo. A outra parte, em algum lugar, por aí. Talvez por isso ao olhar-me no espelho me deparo com uma imagem borrada, como se o espelho estivesse sempre embaçado, a despeito do meu capricho em limpá-lo. Uma imagem sem contornos refletindo um eu sem contornos.

  Onde será que se encontram as minhas linhas? Minhas definições? Minhas luzes e sombras? Em algum lugar, por aí.   Busco ao meu redor, vejo muitas pessoas, formas nítidas que andam e circulam e correm e pulam à minha volta, saltam aos meus olhos com os seus contornos e cores marcantes… Nenhuma delas sou eu.

  Certa vez observei uma moça elegante, de cabelo preto e vestido vermelho. Queria tanto ser como ela… Então peguei uma caneta nanquim e um guache vermelho e desenhei-me, como ela.  Contornos pretos, grossos, davam dimensão à minha forma, enquanto o guache me preenchia de cor, me tornava atraente, marcante. Por algum tempo desfilei assim pelas ruas, pensando ter resolvido o meu problema, encontrado a minha forma.

  Um dia, enquanto passeava alegre e despreocupada, começou a chover muito forte… e pouco a pouco meus contornos foram escorrendo, minhas cores, se esvaindo. Voltei para casa correndo e chorando. Olhei-me no espelho e vi a mesma imagem borrada de antes, sem linhas, sem cores, sem sombras; triste por ter deixado de ser quem eu nunca fui. Procuro incansavelmente por mim mesma desde então.

  Já revirei o mundo nessa busca, sem sucesso. Só havia um lugar no mundo em que eu ainda não havia procurado. Um lugar escuro, de profundidade desconhecida, um lugar que ninguém nunca havia explorado, habitado por sei lá que tipos de sentimentos – eu mesma. Eis que agora busco por mim dentro de mim mesma. Vasculhando às cegas, cada escombro que tiro do lugar causa um ruído que ecoa e gera um certo desconforto. Mas prometi a mim mesma que não desistiria. Até agora, tudo o que encontrei foram alguns rastros, traços que me compõem e cores que me preenchem. Está tudo bem, estou no caminho certo.

  Descobri que não sou tão tímida e que sou um tanto ansiosa. Que gosto mesmo de cinema e que sempre quis aprender a tocar violão. Descobri também que escrevo para descobrir quem eu sou. Então, por favor, continue escrevendo, de algum lugar, por aqui.

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