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Bia não via cores

O desenho da Júlia Lacerda que deu origem ao filme:

JL -  (8)

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Morangos Silvestres – análise do sonho

[Atividade realizada com alunos do Ensino Fundamental II durante reunião dos Estudos Narrativos]

Trecho de Morangos Silvestres, de Ingmar Vergman:

     O protagonista, um professor aposentado, tem um sonho/pesadelo. Ele está numa rua desconhecida da cidade em que mora. Aparentemente, isso lhe dá um misto de medo e esperança. Afinal, ele não sabe onde está, mas ele imagina estar perto de um lugar seguro.  De diversas formas, ele busca alguma resposta (inclusive pedindo auxílio a um homem que se desintegra à sua frente, o que realça seu isolamento):

    a) Ao olhar ao redor buscando saber onde está;

    b) Consulta o relógio público, mas ele está sem ponteiros. Depois, consulta o próprio relógio de pulso, mas este também está sem ponteiros. No relógio público, dois olhos o encaram (ele não é apenas o agente, mas também o assunto do sonho). Simbolicamente, isso parece sugerir uma supressão do tempo, como se ele estivesse numa espécie de eternidade. Mas não;

    c) Ainda que o relógio esteja sem ponteiros, ouvimos o barulho do tique-taque, vindo do coração do protagonista. Ainda que não percebamos, o tempo continua a passar. E o que é o tempo? O nosso tempo é a nossa própria vida;

   d) Como o tique-taque se combina com os batimentos cardíacos, poderíamos pensar que o tempo independe da nossa vontade. Afinal, não dominamos nossos batimentos cardíacos. Uma hipótese interessante, mas que o filme irá negar logo na sequência;

   e) Agora o barulho que remete ao tique-taque não é mais produzido pelo coração, mas pelo passos do protagonista. Isso sugere que nosso tempo, nossa vida, sejam determinados não pelo acaso, mas por nossas escolhas;

   f) E para confirmar essa nova hipótese, logo em seguida ouvimos sinos da igreja. Sabemos que os sinos sempre tocam numa determinada hora específica. Ou seja, finalmente, o sonho lhe sugere que – depois de tantas perguntas – alguma resposta está por vir. Mas ao mesmo tempo sabemos que a igreja simboliza julgamento. O protagonista não parece perceber essas dicas, mas elas serão confirmadas logo na sequência;

   g) Surge um carro-fúnebre – na verdade, uma carroça-fúnebre – puxada por cavalos, sem que ninguém os guie. A carroça se enrosca num poste de metal, mas os cavalos – sem se importarem com o defunto – apenas se preocupam em seguir seu caminho. O caixão tomba no chão. O protagonista se aproxima e vê que ali dentro está seu próprio corpo, o qual tenta segurar-lhe a mão, tenta de algum modo lhe transmitir algum recado. Memento mori (lembre-se de que vai morrer)?

   h) Ao acordar, o barulho do relógio soa insistente, como se quisesse confirmar o assunto do sonho: pode não parecer, mas o tempo passada. E o tempo, como símbolo da nossa vida, é responsabilidade nossa. Em algum momento seremos julgados (ou talvez estejamos sendo julgados o tempo todo), logo – sabendo que o tempo é finito – é preciso corrigir nossos erros mais relevantes.

    Sim, em quatro minutos, o filme conta tudo isso sem usar praticamente nenhuma informação verbal.

Caminhos de Alex

      “Caminhos de Alex” é fruto de muitas conversas e debates. Boa parte do roteiro deriva das tarefas que os alunos me entregaram nas férias; tarefas estas baseadas nos temas que foram discutidos ao longo dos Estudos Narrativos. O filme pretende dialogar com experiências que o público já viveu ou provavelmente viverá. Por isso optamos por uma estrutura fragmentada, similar à estrutura das memórias. O filme talvez pareça meio bagunçado, mas é de propósito: “certas coisas só se revelam no caos”.

 Ah, caso alguém tenha interesse em conhecer os projetos anteriores, ei-los aqui:

 ESPERANDO NEMO (2011): https://mutuca.wordpress.com/ec_2011/esperando-nemo/

 FURUMBELO PAIXÃO (2010): https://mutuca.wordpress.com/furumbelo-paixao/

Notas sobre “A pele que habito”

 * Quando falta tempo e paciência, recorro-me às notas. Elas são duplamente vantajosas: destravam minha escrita e consomem pouco tempo dos meus três leitores;

* Não por outro motivo, cultivo aforismos e haiquases. O tempo escorre se não fixamos os olhos nele;

* Vamos então às notas de A pele que habito, mais recente filme de Pedro Almodóvar:

* Robert, o protagonista, tem sérios problemas com sua masculinidade;

* Ele, analisado como um macho padrão, sofre duas fortes derrotas sexuais (quando Vera, a mulher que ele está construindo para si, é deflorada por Zeca; quando a filha é seduzida por Vicente). Robert tenta equilibrar sua autoestima por meio de duas vitórias baseadas na força física, mas mesmo assim ele não consegue dar ordem a seu universo psíquico. Primeiro porque a derrota sexual importa mais*** que uma vitória baseada na força física – se não acredita em mim, pergunte a um macho padrão que ele confirmará. Segundo, não há como negar que suas vitórias se deram em condições em que não primaram pela equidade de condições: numa ele estava armado e, mesmo assim, alvejou o adversário pelas costas; na outra um capanga (ou ele próprio vestindo uma máscara) vale-se de um confronto desigual (van versus moto) e de uma espingarda com tranquilizante – ou seja, nos dois episódios, ele parte para um combate em que não haverá confronto;

* Antes disso, porém, Robert sofrera outra derrota sexual, quando a esposa o trai com Zeca. Dessa vez, porém, não há confronto entre protagonista e antagonista, pois Robert se preocupa em salvar a vida da esposa, que sofrera um acidente de carro que deixou seu corpo em chamas. Talvez possamos levantar a hipótese de que, ao manter sua esposa viva, Robert estivesse se vingando dela (como que uma pessoa que acabara de viver momentos tão calorosos poderia suportar os olhares repugnantes que os outros, e ele mesma, lhe lançariam?), mas creio que há análise mais aguda que esta;

* Robert, cirurgião plástico, só conseguia satisfazer as mulheres superficialmente;  

* Talvez, com esse ponto de partida, até seja possível traçarmos, entre Robert e seu irmão Zeca, um paralelo antitético. Afinal, enquanto um é masculinamente frágil, o outro é protomacho até em demasia; um cultivou-se com uma educação  formal e clássica, o outro sempre foi avesso a ordens e regras; um é delicado e racional, o outro bruto e explosivo. Seria belo se não fosse falso…

* Mais do que um par antitético, Robert e Zeca (nome e apelido também ajudam a sugerir essa falsa antítese) são variações de uma mesma matriz: ambos possuem problemas com a masculinidade (Quando se depara com Vera, Zeca não a seduz, simplesmente a obtém); ambos são intempestivos e rebeldes, para não dizer mimados; ambos, cada qual a seu modo, são filhos bastardos, ou seja, simbolicamente frutos de uma relação torta, quiça doentia (segundo avaliação a posteriori da própria madre);

* Se o tema do filme é a pele, ainda que óbvia, a ênfase nos tecidos e nas artes plásticas gerou-me prazer estético. A partir do momento em que se criou a cultura, ninguém mais conseguiu ficar nu;

* Como reforço imagético, em diversos momentos do filmes vemos referência a peles falsas: Zeca, como tigrão e como assaltante quase mascarado, as esculturas cujos rostos são cobertos por Vera, a bastardice, as drogas excitativas que Vicente toma antes de ir à festa;

* Além das doloridas derrotas sexuais, Robert tem mais uma, que anuncia a derrota final. Ele é intelectualmente desmascarado por seu amigo Fulgêncio, o qual consegue ler não só o todo de suas ações como também vislumbra-lhe os porquês. E mais uma vez Robert precisa recorrer a uma pistola (símbolo fálico não acidental) para simular uma nova falsa vitória – pouco antes, vemos, numa espécie de cena síntese, Robert, falsamente zen, tentando esculpir um bonsai. Todo bonsaísta sabe que a saúde do seu projeto depende de uma cuidadosa observação de como galhos e raízes vão crescendo; Robert deixou escapar um galho e uma raiz;

Daniel Piza, cujas leituras costumam ser bem mais apuradas que as de um Inácio Araújo, por exemplo, reclamou d”a demonstração inocente de confiança do médico”, no final do filme. Creio eu que essa escolha foi imprescindível para dar mais verossimilhança ao filme. Pensando na construção do protagonista, nos problemas que ele sempre teve com as mulheres, na sua necessidade de afirmação, o turning point da sua vida se lhe mostrou justamente quando ele pressentiu a possibilidade de finalmente conseguir confiar numa mulher, quando ele finalmente considerou a hipótese de enfim ser amado;

* Querendo ver aquilo que mais gostaria de ver, fechou os olhos.

 P.S.: Coincidência ou não, ontem – antes e depois do filme – estava lendo a quase autobiografia de Fernando Pessoa (de José Paulo Cavalcanti Filho). Talvez as máscaras sejam assunto para um novo post.

*** Corrigido após alerta do Bernardo. 🙂

Ideias para o futuro

* “Um filme mudo” – sobre diálogos que não se concretizam.

* “Intersecções” – uma rapsódia, no estilo de Waking Life.

* “Francis Stémon” – para que o roteiro saia do papel.