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Francis Stémon – Discurso final

O texto abaixo é fruto dos meus alunos do 8ºEF de 2009. Usufrua.

O nosso filme conta a história da cidade de Celene, uma cidade grande.
Uma cidade grande como qualquer outra cidade grande que vocês conhecem.
Uma cidade grande com grandes problemas.
Lá havia um prefeito muito esperto e oportunista: Lupércio das Neves.
Lupércio era muito habilidoso com as palavras, mas ele não sabia o que fazer para melhorar a vida da cidade.
Então, ele pediu ajuda a um famoso projetista, Francis Stémon, o símbolo do raciocínio lógico, o símbolo do raciocínio calculado e preciso.
Francis tinha a ambição de fazer a cidade perfeita.
Não sei se vocês percebem, mas essa história dialoga com a famosa história de Frankstein.
Para quem não sabe, Victor Frankstein é um cientista que, em busca de criar o homem perfeito, acaba criando o famoso monstro.
Francis Stémon, entre outras coisas, remete a Frankstein.
Sua cidade ideal vai também se transformar num monstro.
Ele, no entanto, não é uma má pessoa.
Vocês verão o diálogo dele com Cláudio, um antigo amigo de faculdade.
Cláudio, por mais que acreditasse na honestidade do amigo, nutria fortes receios sobre o futuro da cidade.
Valerá a pena abandonar os direitos individuais em troca de uma suposta busca da perfeição?
Esse é seu questionamento, essa é sua dúvida.
No fim do filme, quando são revelados os verdadeiros interesses do prefeito Lupércio, quando são revelados os verdadeiros problemas da cidade, todos….
Todos querem que Cláudio seja o salvador da pátria.
O herói que resolverá todos os problemas.
Mas ele, Cláudio, ele se sente capaz de criar a cidade perfeita?
É o que vocês vão ver logo na sequência.
Em nome de todo meu grupo,1 muito obrigada.

Clarissa, no dia da premiação.

[…]

 O DISCURSO DO CLÁUDIO:

Dez anos atrás, [Celene] deixou-se seduzir por uma promessa.
A promessa de uma cidade perfeita, livre de injustiças sociais, livre da violência, livre da desorganização que assolava nosso cotidiano.
Vocês ficaram otimistas, confiantes, alegres… mas terá a felicidade convivido mesmo conosco esse tempo todo?
Não sei de vocês, mas eu sempre tive um pé atrás.
Não que os problemas da nossa cidade fossem pequenos.
Não que eu não me interessasse por mudanças.
Mas eu temi.
Eu temi o discurso em prol do controle, da ordem, do planejamento.
Eu temi que a limitação do poder individual pudesse nos cegar.
E talvez tenhamos mesmo fechado os olhos.
É verdade que, com a proibição dos veículos privados, o trânsito ficou melhor.
É verdade que o desnível educacional fora banido.
Como negar que o envelhecimento se fez a lentos passos?
Transporte, educação e saúde… foram os pilares do governo que imperou nos últimos anos.
Mas eu tenho o direito de questionar… o direito de refletir.
Um transporte mais rápido e abrangente, um transporte menos poluente vale o controle de nossos movimentos?
Um sistema educacional que não discrimina obrigatoriamente tem de ser singular?
A pluralidade de saberes é somente discurso de uma elite privilegiada?
Envelhecer, amadurecer são palavras tão ruins?
Talvez vocês discordem de mim num ou noutro ponto. Isso eu aceito.
Mas ninguém aqui, ninguém, pode negar a importância da liberdade do indivíduo.
O direito de o indivíduo pensar por si só.
Quem aqui discorda da importância da aprendizagem?
Bom, enfim…
Vejo em seus rostos um tom de otimismo, esperança.
Sei o papel simbólico que eu adquiri nesse episódio todo.
Vocês, amigos, aguardam um desfecho, uma promessa, algo que indique o final feliz.
Todos nós desejamos, no fundo do peito, a cidade perfeita.
Mas, é preciso perceber, é preciso lembrar…
A cidade perfeita só existiria se habitada por seres perfeitos. Se habitada por seres prontos.
Mas não somos perfeitos. Não estamos prontos. Estamos em constante processo de evolução, de desenvolvimento.
Não façam essa cara de tristeza. A imperfeição, a possibilidade de mudança, é nossa dádiva, é nossa sina.

“O homem é uma errata pensante” (Machado de Assis).

[…]

1O grupo: Arthur Gonçalves, Caio Albuquerque, Carolina Coviello , Clarissa Galiam, Fabio Arai, Felipe Tetsuo, Guilherme, Henrique Vaz, Júlia Albuquerque, Lucas Yu, Luíza Latorre, Mateus, Michel Rozel, Natália Cristina, Nícolas Chiu, Raul Vaz, Renan de Lucca, Vítor Yan, William Sun, Luke Zheng.

 

Cara a cara

Ontem fui rever In on it, no Teatro Eva Herz. Sim, rever, pois desta vez eu fazia questão de estar na primeira fila, frente a frente. É uma experiência visceral ver com nitidez a pupila dos atores.

 Não, o suor e a saliva não quebram o encanto. O realismo da encenação em harmonia com a verossimilhança das cenas captam, cativam nosso olhar. A fruição estética, se perde o plano geral, ganha o intimismo de uma interpretação quase privatva – e não uso o termo com a sensação ingênua de que o elenco atuava só para mim; o privado, aqui, deve ser entendido como a libertação de toda e qualquer interferência que nos distraia da peça. Eis o encanto.

O grande inquisidor

Amanhã vou assistir novamente a peça O grande inquisidor (adaptação do capítulo homônimo de Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski), no teatro Ágora. Um pequeno resumo, para quem não conhece a história:

 Sevilha, século XVI, época áurea da Inquisição; época em que as fogueiras se alimentavam dos corpos impuros dos hereges. Surge um homem a quem os fiéis reconhecem como o cristo redivivo. Após  fazer truques baratos para impressionar o populacho – ressuscitar uma criança, curar um cego, essas mesquinharias… – o barbudo balzaquiano foi mandado atrás das grades por ordem do Cardeal (este sim com inicial maiúscula), o qual se tornou o responsável por inquirir do artista mambembe o segredo por trás de seus truques.

 Eis que começa a peça, o grande e privativo interrogatório em que o Cardeal fala e o pretenso cristo cala. Isso mesmo. Sinal de submissão ou de superioridade, o barbudo andante nada diz a peça toda. Apenas o Cardeal controla a palavra – e que palavra! Poucos artistas tratam tão bem o verbo quanto Celso Frateschi. Conheci-o ano passado no monólogo Sonho de um homem ridículo, e já fiquei impressionado. A título de comparação, mesmo numa peça de boa qualidade como Agreste, com artistas de grande capacidade como Joca Andreazza, a sensação não é a mesma; sua voz máscula e rija não alcança a suavidade que o papel exige – por isso ele se dá muito melhor em Anatomia Frozen; imagine então levar os ouvidos para degustarem o insosso Rodrigo Lombardi, na regular A grande volta, é  – no mínimo – decepcionante. Enfim, voltemos ao que interessa.

 A peça trata da liberdade, dádiva ou maldição?, que cristo legou à humanidade. Parece um texto ateu, no sentido em que todo o discurso do Cardeal parece remeter à ditadura cristã,  mas não custa lembrar que Dostoiévski era um cristão – um cristão heterodoxo, é verdade, do naipe de um Nelson Rodrigues, aquele que dizia gostar da religião, mas não gostar de religiosos. Eu, pessoalmente, simpatizo-me com esse tipo de conduta. Certa vez percebi que os judeus que eu mais admiro são justamente os não religiosos: Chaplin, Grouxo, Wood Allen, fora um antigo professor da faculdade que, se não me fazia rir como os outros três, foi-me mais importante que o resto da lista. E eis que o texto parece empacar – mas não é acidental, tenho pudor em contar mais do que o necessário; a peça ainda está em cartaz e – ao lado de In on it – é daquelas que eu faço questão de rever. Para terminar:

Aparentemente, O grande inquisidor é um monólogo, visto que apenas Celso Frateschi, o inquisidor, faz uso da voz; Mauro Schames, o cristo reencarnado, só emite o próprio calar. E isso basta. Pouco a pouco, a fala do Cardeal vai apresentando e defendendo seus argumentos ao mesmo tempo em que, à moda dos grandes narradores machadianos, eles revelam o triste segredo guardado sob a máscara dos dogmas. Não por acaso, no final da peça, acusador e acusado trocam de lugares. Quando uma regra se torna mais importante do que o ideal que lhe deu vida, é imprescindível que a burlemos.

 Parece-me normal que muitos cristãos reclamem, mas creio que muitos outros ficarão felizes em ver (rever) a grande lição de liberdade, sempre ligada aos grandes homens.

 Real ou mito, desde que a lição seja apreendida, pouco importa.

A grande expectativa

Aproveitando a sequência de dias livres, ontem fomos ao teatro FAAP assistir a A grande volta, peça de Serge Kribus, traduzida por Paulo Autran e dirigida por Marco Ricca. De acordo com o que li no UOL, um dos atrativos da peça era o ator global Rodrigo Lombardi, de quem nunca ouvira falar. Isso, porém, não quer dizer muito, afinal quando assisti a Policarpo Quaresma eu também não conhecia o ótimo Lee Thalor. Enfim, sem qualquer tipo de expectativa pré-moldada, fomos curtir o espetáculo.

A grande volta conta uma noite na relação entre pai e filho. Assim que a peça se inicia, sabemos que Henrique, jovem publicitário de trinta anos, havia recentemente perdido o casamento e o trabalho – em termos concretos: ele ficou sem esposa, sem filho e sem dinheiro. E o pior: ele sabe ser o grande responsável por suas perdas. Como se não bastasse, ele recebe a inesperada e indesejada visita de seu pai (Fúlvio Stefanini), um velho ator decadente, que pretende ficar hospedado “uma semana ou outra… no máximo dois meses!”, afinal ele precisava se preparar adequadamente para seu grande retorno aos palcos: estrelar a peça Rei Lear, de Shakespeare.

Apesar das excessivas gargalhadas da plateia, estávamos assistindo a um drama. Aos poucos, o filho revela aquilo que a bagunça da sala já antecipava: sua vida estava em ruínas. Seu ferrenho racionalismo, disfarce típico da mais incontrolável das fúrias, fez com ele assumisse brigas sem sentido tanto com seu ex-chefe (no qual atirou um vidro de tinta após ter um trabalho criticado) quanto com sua esposa (contra a qual esbravejou violentamente por causa de uma lata de tomates). O problema do pai é parecido: sua dificuldade em manter um olhar crítico, em escapar das fantasias e devaneios, faz com que ele dê pouca atenção às palavras do filho, faz com que ele não perceba que seu grande retorno aos palcos é apenas um doce faz de conta.

Se existe um momento que ilustra bem essa situação, é quando eles discutem sobre a relação de Lear com sua filha Cordélia. Seria o velho pai um louco ranzinza e vaidoso? Seria a filha uma representante do pior pragmatismo fleumático? A convicção com que cada um se identifica com o personagem que melhor o simboliza é cômica. Disse ali atrás que pai e filho se parecem. Sim, o dito racionalismo de um e a paixão do outro são igualmente cegos, igualmente egocêntricos. Talvez aí esteja a grande causa da maioria dos problemas de relacionamento; a dificuldade com que abrimos mão de nossos pontos de vista para nos ouvir – ou melhor: escutar – aquilo que o outro tem a nos dizer. Reconhecer o interlocutor como um ser ativo, em vez de um mero receptor a nossas exclamações, eis a questão.

O título da peça, por seu exagerado otimismo, cheira a melancolia. São muitas as grandes voltas que a peça nos sugere. Desde o retorno aos palcos do grande Bóris, a mais óbvia de todas, até ao possível retorno da esposa, passando pelas tentativas de Henrique em conseguir um novo emprego, a peça nos faz pensar na dificuldade de encararmos racionalmente uma derrota. Sim, em alguns momentos ela provoca risos, mas um riso amargo que mal conseguimos aproveitar.

Mal servido

Sócrates me fez ir ao teatro. Pegar ônibus num dia quente e chuvoso. Ficar na fila mal organizada num dia quente e chuvoso. Tomar a suja chuva paulistana num dia quente e chuvoso. Mas Sócrates vale a pena. Assistir à dialética em ação – discussões, ideias em polvorosa – não abriria mão disso tudo. Foi isso, e não os comes e bebes, que me levou a ver a encenação de O Banquete pelo Teatro Oficina em fins de dezembro.

A decepção não poderia ser maior; a peça já começa concluída: os argumentos cederam lugar à pura exposição de um ponto de vista – o elogio ao amar, verbo intransitivo; não importa o quê, não importa a quem. Contra a conclusão em si, nada tenho, filosoficamente falando. O problema é chegar a ela sem o devido debate, a desejada discussão (Caricaturar o oponente como um fanático fundamentalista cristão – acreditem em mim, chegaram a esse nível – possui a mesma graça que as piadas em que os comunistas são retratados como comedores de criancinhas; esse tipo de humor rasteiro combina mais com a erística do que com a dialética).

 Moralmente falando, não vejo nada contra a excessiva exposição de nudez. Mas não posso concordar com quem vê nisso uma forma de contestação, um modo de sacudir o público. Talvez isso funcionasse se a plateia fosse constituída por velhotas saídas do convento, mas ao público de mente adolescente, já acostumado com novelas e zorras totais da vida, a nudez lhe serve mais de estímulo corpóreo que intelectual. Não por acaso, o vinho servido ao público é leve e suave, fácil de beber, muito adequado a paladares imaturos[1]. Se isso foi uma ironia proposital, ponto para o Zé Celso!

 Infelizmente, não deve ter sido. Infelizmente não conheci o Oficina da década de 1960, quando sua fama parece ter se construído / consolidado, mas a primeira impressão deste que aí está não poderia ser mais brochante.

 


[1] À parte de qualquer discussão artística, a Casa Valduga produz excelentes vinhos.

Tá rindo de quê?

Sexta passava estava no teatro esperando uns amigos. Sentei-me na terceira, e última, fileira da arquibancada, pensei em abrir um vinho ou acender um cigarro, mas não me deixaram; seria falta de respeito com o artista e com a plateia. Concordo. Ademais, não vamos ao teatro para beber ou fumar. Certos prazeres individuais têm sua hora e vez. E eu sei me comportar.

Meus amigos chegaram, acalmei minha sanha, a peça começou, a atriz fez uma piada banal e muitos começaram a rir. Mais uma piada sem graça, mais risos. Uma terceira piada estava ainda sendo contada, mas o sujeito da frente já estava rindo. Até pensei que ele fizesse parte da peça. Talvez o roteiro fosse mais ou menos assim:

Atriz: Todo mundo que acredita em outras vidas, todo mundo, acredita ter sido alguém importante. Há alguma Cleópatra aqui hoje?
Homem alegre da plateia: há! há! há!
Atriz: Existe aqui algum Dom Pedro I? Algum Napoleão? Algum Pelé? – Ah, o Pelé não morreu…
Homem alegre da plateia: há! há! há!
Atriz: Algum Michael?
Homem alegre da plateia: há! há! há!

Na peça dos meus sonhos, um outro personagem, bastante irritado, se levantaria expulsando o homem alegre da plateia: “Xô, claque! Vá embora! Não é de risos assim que a peça precisa!  Mas não foi isso que aconteceu; a peça continuou seu percurso sem minha interferência, o que talvez tenha lhe garantido uma sobrecota de risos. Está reclamando do quê? De amarga já basta a vida…

Só se for a sua, meu caro. O paladar é mais complexo do que  a dicotomia doce-amargo pode supor, mas não fugirei da questão.  O que me incomoda não é o riso em si – ou melhor, é justamente o riso em si, o riso para si, o riso como meta, o riso que a nada aponta, o riso que nada revela. Em vez disso, prefiriria o o riso cínico de um Machado de Assis, de um H. L. Mencken ou mesmo de um Woody Allen, mesmo sabendo da grande probabilidade de eles, às escondidas ou não, estarem rindo da minha cara. Isso que estou dizendo nem é novo, até os manuais mais desatualizados de literatura ensinam que na base do teatro português era comum o  Ridendo castigat mores… Estou pedindo muito? 

Não há como negar que me senti incomodado pela quantidade de piadas de cunho sexual (de gosto pra lá de duvidoso) que iam sendo lançadas sempre que houvesse – ou não – uma deixa. Consultei o relógio: em vinte minutos de peça, não havia achado graça em nada. Pensei então em captar uma frase de impacto que fosse, algo que pudesse – vamos dizer – salvar a noite. Num determinado momento, ouve-se “o livro dissemina ideias”. Bingo! Não só o livro, mas o teatro também pode disseminar ideias. Foi para isso que saí de casa aliás – mas não. Os intertextos culturais (princesa de Sabá cometendo a dancinha do Michael Jackson, inclusive) ofendiam-me profundamente. Sei que o humor é uma forma de identificação entre ator e público, talvez por isso mesmo tenha me sentido tão pouco à vontade perante um espetáculo que me considerava um pleno idiota. Caso algum sujeito sem noção acendesse um cigarro no meio da peça, todo mundo (inclusive eu) notaria sua indelicadeza e falta de modos, mas acho que nosso cérebro deveria ser tão bem preservado quanto nossos pulmões. 

Quis me levantar, sair de lá o quanto antes, acender um cigarro, conversar com uma pinot. Mas não fumo. E não havia nenhuma garraga comigo. Ademais, não queria interromper a peça. Afinal, sei me comportar.

P.S.: Apesar de ter achado a peça extremamente fraca, gostei dos recursos cênicos da atriz.

P.P.S.: O que salvou a noite foi sair para jantar na rua de trás do teatro. Se não fosse o restaurante, é bem capaz que meus amigos ficassem revoltados comigo.

farsa da boa preguiça

A Farsa da Boa Preguiça, de Ariano Suassuna, certamente tem momentos muito engraçados. Me diverti à beça com as insinuações maldosas aos modernistas de 1922, cujo grupinho foi bem representado pela Dona Clarabela, vulgar esposa de Aderaldo Catacão, patrocinadora das artes na zona da mata e no sertão nordestino. Sua sanha em encontrar a cultura popular autêntica lhe cobre de conceitos pré-estabelecidos que a impedem de apreciar o que o poeta popular, Joaquim Simão, teria a lhe oferecer. Até aí, nenhuma novidade – o saudoso sambista Moreira da Silva interpretou uma divertida música de Miguel Gustavo que muito bem satiriza o intelectual modernista (http://letras.terra.com.br/moreira-da-silva/1227524/) – mas é bom tirar as teias de aranha dos livros e polemizar o status quo de uma cultura que se quer antenada e chique à custa da eliminação de um individualismo que, ainda sendo anacrônico (eufemismo de que se vale Clarabela para julgar a crença do poeta como mera superstição), não deixa de ser o bem mais preciso do indivíduo.

 

Integrar sem desintegrar, digo antes que os coletivistas – massificadores? – de plantão tentem me pegar pelas laterais. De fato, a arte deve comunicar, ela deve ser a forma de expressão dos sentimentos e ideias do artista (quem nunca se incomodou com o onanismo intelectual – expressão atribuída ao crítico uspiano Davi Arrigucci Júnior – dos poetas concretistas?), mas – veja bem! – de expressão, não de aceitação passiva. A base do raciocínio, como bem sabem meus alunos do oitavo ano, está no contraste de ideias (Quem não for meu aluno do oitavo ano pode conferir aqui: https://mutuca.wordpress.com/2008/11/19/das-matizes/). O indivíduo que representa metonimicamente o senso comum, sem nada lhe acrescentar, não merece ser chamado por esse nome.

 

Mas voltemos à peça. Apesar das certeiras insinuações maldosas contra os modernistas de 1922, o público ria mesmo era quando os atores usavam (abusavam?) das gags sexuais. Obviamente, não deve ser nada horrível interpretar tais cenas com a Bianca Byington, mas quem ri com isso deve adorar o Zorra Total. O curioso é que a luxúria com a qual o público tanto se identificou é questão central na peça: mais do que a preguiça – que, vá lá!, pode ser produtiva – a luxúria sim se torna a perdição dos personagens; ela é a geratriz (ou o desdobramento) dos seus problemas mais significativos. É buscando a luxúria que Aderaldo vai atrás de Nevinha, a mulher do poeta. É à luxúria por Dona Clarabela, mulher de Aderaldo, que Simão Joaquim vai se entregar tão logo enriquece.

 

É significativo perceber que Simão é absolvido por “vencer” a luxúria mesmo sem ter vencido a preguiça. Porém mais significativo do que isso – eis onde Ariano Suassuna decididamente acertou a mão – é perceber que quem absolve o poeta não é Cristo, mas uma representação – popular – de Cristo. Mais do que termos sido criados à imagem de Deus, criamos um Cristo particular à nossa imagem de modo a termos a sensação de que seremos perdoados? Se for, isso é bastante coerente com a preferência que se dá à imagem do Filho (jovem e benevolente) e não do Pai (poderoso e tirano – pergunte a Jó ou a Lúcifer). 

 

Essa relação malemolente entre o protagonista e Deus também aparece em O Auto da Compadecida. Porém lá, mesmo quando a coisa aperta, João Grilo não hesita em mandar o diabo às favas. Nesta peça, mais ainda do que em Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, a absolvição do parvo nos convence. Mas o mesmo não se pode dizer do protagonista preguiçoso.

Joaquim Simão é ao mesmo tempo conservador e desleixado. Se eu dissesse isso apenas devido à forma displicente como ele se esforça para resistir aos encantos e “catucadas” de Clarabela, estaria perdendo nosso tempo. O que mais me interessa na verdade é o parentesco entre o herói da história e homem cordial sergiobuarquiano (Raízes do Brasil, capítulo V), aquele que confunde flexibilidade com aversão às normas; liberdade com descompromisso; tolerância com desapego às ideias. No folder distribuído na entrada do teatro, leio “o autor nos leva a perceber as sutilezas e artimanhas do caráter humano, mas também sua complexidade e suas potencialidades – de grandeza e de mesquinharia,  às vezes na mesma pessoa”. Mesquinharia tudo bem; grandeza não vi.

P.S.: a peça reestreia em Agosto no  teatro do Shopping Eldorado. Dependendo de como estiver minha agenda, irei lá me divertir novamente.

Sem refugar

 

No início da semana passada, mal havia controlado a balbúrdia da sala de aula, notei que um aluno magrinho de cabelos emaranhados se aproximava segurando um pequeno pedaço de papel. Ao contrário do que eu supus, não era daqueles bilhetes que recebemos no trem (Sou surdo, minha família não me alimenta, me arruma uns trocados, que Deus lhe abençoe), mas um folder, uma espécie de convite para a peça de teatro da qual o Lucas (o menino magro de cabelo emaranhado) participa.

Talvez por pena da cara de dó com a qual o aluno me abordou, talvez por não querer limpar a areia dos gatos, chamei minha esposa e fomos ao teatro. A expectativa era ver o Lucas escondidinho em algum canto escuro do palco, fazendo cara de paisagem ou – por que não? – numa participação especial como defunto que não fala, não se mexe, não atrapalha ninguém. Felizmente, porém, tive a segunda surpresa positiva da semana, pois além de ele ter conquistado um dos três papéis mais significativos da peça (havia uns sete ou oito atores), teve uma atuação bastante convincente, sem refugar.

Isso por si só já teria valido a pena, mas a peça também ajudou. Refugo conta a história de um jovem ebúrneo que, após perder a família, vai parar num abrigo de jovens no Reino Unido. A polissemia explora a analogia entre refugiado e refugo (lixo, sobra), mostrando com certa delicadeza a questão humana por trás de jovens que podem ser tornar a “escória da humanidade” (curioso como quase sempre a ênfase desta expressão recai sobre escória e não sobre quem a produziu).

Ainda que o nome do teatro faça com que muitos esmiúcem a peça à procura de um tom panfletário, creio que há coisas mais importantes a encontrar. E quem for assistir, encontrará.

Se a peça fosse minha, obviamente algumas escolhas, algumas ênfases seriam diferentes. Isso, no entanto, em nada desmerece a peça. Se for para ir ao teatro e encontrar algo que eu já conheça, algo com que já estou intelectualmente habituado, ficaria em casa me olhando no espelho.

E você?

 

***

 

Informações e reservas: 8634-2385

Clarice ilhada

Clarice [sorrindo]:

Toc, toc.

 

Sócrates [levantando-se, com os braços abertos]:

Clarice!

 

Clarice:

Dr. Sócrates, tudo certo contigo?

 

 

(Cumprimentam-se)

 

 

Sócrates:

Tudo ótimo, minha amiga.

Mas, diga-me, o que a traz aqui?

 

Clarice:

As pernas e uma dúvida.

 

Sócrates:

Eu aprecio as dúvidas.

E também aprecio as pernas.

Afinal, elas trouxeram minha querida amiga para perto de mim.

 

Clarice:

Gentileza sua, Doutor.

 

Sócrates:

Ora, vamos!

Mas, diga lá: qual é seu problema?

 

Clarice:

Estou perdida, doutor.

Não sei para onde fica o norte.

 

Sócrates:

Ahn… Vejamos!

Se você sair por aquela porta,

desviar da multidão

e subir a rampa que dá na Vergueiro…

Basta virar à direita e perguntar para alguém.

 

Clarice:

Afe, Doutor!

Você sabe que não é disso que estou falando.

 

Sócrates:

Estou brincando, Clarice.

O norte fica em direção ao metrô Paraíso.

 

Clarice:

Doutor, deixemos a as coordenadas geográficas de lado.

Estou com um problema, esqueceu?

 

Sócrates:

Ok, Clarice, mostre-me, então, o que aconteceu.

 

Clarice:

Mês passado fui com minha família

a uma excursão no litoral do Rio de Janeiro.

Ali perto de Angra dos Reis, conhece?

 

Sócrates:

Sim, lá onde estão aquelas usinas nucleares.

 

Clarice:

Lá mesmo.

A lancha nos levou a uma ilha muito rústica.

 

Sócrates:

Rústica?

 

Clarice:

Isso, ela era bem simples.

Mas, apesar de não haver pousadas ou restaurantes,

gostei muito dela, peguei minha câmera fotográfica e fui atrás de belas fotos.

 

Sócrates:

E seus pais?

 

Clarice:

Meus pais? Ora, você não vai acreditar:

eles se esqueceram de passar repelente e nem sei onde estavam.

O que importa é que no meio daquela mata, eu pensei com meus botões…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nova cena:

Clarice dará as costas ao doutor Sócrates

para interagir com o Fauno.

Dr. Sócrates ficará meio de lado, na lateral do palco, fora da conversa.

 

 

Clarice:

Como que alguém poderia viver aqui?

Sequer consigo sinal para meu celular.

Seria impossível pedir uma pizza por telefone.

 

 

(Aparece o fauno, ele fica às costas de Clarice)

 

 

 

Fauno:

Pior, minha desconhecida, aqui nem tem pizzarias.

 

Clarice (Reparando no rabicó do Fauno):

Pois é. Não tem Lan House ou Playstation 3.

 

Fauno:

Pior, minha desconhecida, aqui nem tem energia elétrica.

 

Clarice (ficando triste):

Não tem quadra de esportes ou shopping…

 

Fauno (rebolando o rabinho):

Pior, nem tem gente.

 

Clarice:

Meu senhor, que bicho és tu?

 

Fauno:

Sou um fauno, meio bicho, meio humano,

sou um defensor dos bosques e das florestas.

 

Clarice:

Como o senhor faz quando tem fome?

 

Fauno:

Gosto de frutas e raízes.

Água fresca e ervas.

 

Clarice:

Ervas?

 

Fauno:

Manjericão, manjerona, cebolinha e alecrim.

Limões, alhos e tomilhos temperam meus tomates.

E você, já ouviu falar dessas coisas?

 

Clarice:

Claro que sim!

Só porque eu sou da cidade,

você pensa que eu só como porcarias?

 

Fauno:

Não foi isso que eu quis dizer…

 

Clarice:

No supermercado perto de casa tem um grande departamento de enlatados.

E lá o molho de tomate já vem com esses matos de que você falou.

 

Fauno:

Certo. Então você sabe me dizer que planta é essa?

 

Clarice:

São, são, são… que planta mais bonitinha…

 

Fauno:

Cara desconhecida, não tente me enrolar.

 

Clarice:

Já sei! Eu vi uma foto disso na internet.

É um tomilho!

 

Fauno:

Você já experimentou?

 

Clarice:

Não, nunca o vi antes,

mas eu sei o que é.

 

Fauno:

Sabe nada, minha amiga.

Clarice:

Claro que sei.

Eu até o reconheci.

 

Fauno:

Saber, minha cara,

saber é conhecer o sabor.

 

Clarice:

Como assim?

 

Fauno:

Ora, até parece que você não estuda etimologia.

Etimologicamente, a palavra SABER vem de SABOR.

Saber é conhecer o sabor.

 

Clarice:

Como você sabe essas coisas?

 

Fauno:

Um sujeito meio estranho, passeando pela ilha,

deixou cair um dicionário de Latim.

 

Clarice:

Acho que conheço esse maluco.

 

Fauno:

Mas não importa. Voltemos ao tomilho.

Pegue, sinta o cheiro.

 

Clarice:

Hum… gostoso.

 

Fauno:

Descreva melhor.

 

Clarice:

Estranho.

Esse matinho tem um cheiro cítrico.

 

Fauno:

É o tomilho limão.

 

Clarice:

Faz sentido.

Diga-me, seu Fauno, que mais de bom temos por aqui?

 

 

Fauno:

Eu plantei cenouras aqui no chão.

 

Clarice:

Cadê?

 

Fauno:

Acho que algum bicho comeu.

 

Clarice:

Um coelhinho? Que lindo!

Eu quero ver o coelhinho!

 

Fauno:

Talvez tenha sido um rato…

 

Clarice:

Credo!

Rato eu não quero ver.

 

Fauno:

Está com sede?

 

Clarice:

Sim! Eu quero água de coco!

 

Fauno:

Água de coco não tem.

 

Clarice:

O que eu vou beber, então?

 

Fauno:

Água da chuva, ora…

 

Clarice:

Ai!

E quando não chove, o que você faz?

 

Fauno:

Saiba, minha amiga, é possível absorver o líqüido das plantas.

Que nem se faz com cactos.

 

 

Clarice:

Aqui tem cacto?

 

Fauno:

Não.

Mas temos chuchu.

 

Clarice:

Não gosto muito de chuchu.

 

Fauno:

Hum…

Suco de chuchu, ô coisa boa…

 

Clarice:

Como você faz para comer carne?

 

Fauno:

Não como; dá muito trabalho caçar algum bicho.

 

Clarice:

Isso não faz mal para sua saúde?

 

Fauno:

Como saber? Aqui não tem médicos.

 

Clarice:

E se você ficar doente?

 

Fauno:

Minha avó conhecia bem o uso medicinal das plantas.

Mas eu não; sou uma negação nesse assunto.

 

Clarice [tocando-se desesperadamente]:

Acho que estou com uma dor não sei onde.

 

Fauno:

Sinto muito, não sei resolver.

 

Clarice [voltando-se para o Doutor Sócrates]:

E você, doutor, conhece alguma planta que me ajude?

 

Doutor Sócrates:

Só sei que nada sei.

 

 

Clarice:

Amigo Fauno, quem são seus amigos?

 

Fauno:

Olha, tem a Josicleide.

 

Clarice:

Jô o quê?

 

Fauno:

JO-SI-CLEI-DE!

 

Clarice:

Ela é bonita e simpática?

 

Fauno:

Que nada!

Ela é uma cabra da peste.

 

Clarice:

Por quê?

 

Fauno:

Ô mulher chata aquela. Vivia me dando ordens.

Bódin, recolha madeira!

Bódin, cave uma fossa!

Bódin, construa uma casa!

Bódin, plante umas árvores!…

 

Clarice:

Seu nome é Bódin?

 

Fauno:

Bódin é diminutivo de Bode;

como se fosse “bodinho”.

 

Clarice:

Que meigo.

 

Fauno:

Não me venha com essa.

 

Clarice:

E além dela? Você conhece mais alguém?

 

Fauno:

Tem o João Carneiro.

 

Clarice:

Como ele é?

 

 

Fauno:

Um lobo. Um lobo em pele de…

 

Clarice:

Ele fez alguma coisa de errado contigo?

Ele roubou a sua namorada?

 

Fauno:

Pior do que isso.

Eles nem se conhecem.

A vida aqui é muito solitária.

 

Clarice:

O que ele fez de ruim, então?

 

Fauno:

Ele construiu – não sei como – sua casinha,

com teto, parede, fossa e muro.

Mas não deixa ninguém visitá-lo.

 

Clarice:

Aqui também acontecem essas coisas?

 

Fauno:

Do que você está falando?

 

Clarice:

Nos filmes é diferente.

 

Dr. Sócrates:

Pois é, Clarice.

 

 

(Perceba que aqui haverá uma intersecção de ambientes:

ao mesmo tempo em que o Fauno tenta falar com Clarice; ela começa a se voltar para o Dr. Sócrates.)

 

 

 

Fauno:

Clarice, volte a conversar comigo!

 

Clarice:

Aquela ilha deixou de ser atraente.

 

Fauno [gritando fraquinho, em gradação descendente]:

Clarice!

Não se esqueça de mim!

 

Sócrates:

E agora, José?

 

Clarice:

Quando voltei para a cidade…

O senhor sabe o que eu fiz?

 

Sócrates:

Foi ao supermercado?

 

Clarice:

Não.

 

Sócrates:

Ao shopping?

 

Clarice:

Não.

 

Sócrates:

Acessou a internet?

 

Clarice:

Não.

 

Sócrates:

Foi ao banheiro.

 

Clarice:

Hum… Não.

 

Sócrates:

O que você fez?

 

Clarice:

Fiquei na praça da Sé observando as pessoas.

 

Sócrates:

Por quê?

 

Clarice:

Percebi que, quase todo dia, eu sempre passava por muitas pessoas.

No metrô, nas avenidas, nos shoppings…

Pernas e calças indo de um lado para o outro.

Mas, dessa vez, foi diferente.

Eu olhei o rosto das pessoas, mirei fundo nos seus olhos.

 

Sócrates:

E o que você viu?

 

Clarice:

É como se elas estivessem hipnotizadas.

Andam sem saber por que estão andando.

Correm sem saber por que estão correndo.

 

Sócrates:

O problema seria a pressa?

 

Clarice:

Não é tão simples assim.

Também há aqueles que esperam sem saber por que estão esperando,

Os que pensam na vida sem saber por que estão pensando…

 

Sócrates:

E os que conversam com o analista sem saber por que estão conversando?

 

Clarice:

O senhor acertou em cheio, doutor.

O problema é esse.

Muita vez a gente se acomoda com as coisas.

 

Sócrates:

Isso é ruim.

 

Clarice:

Mas também de nada vale ficar desanimado.

 

Sócrates:

Ficar desanimado é ficar sem ânimo.

Em latim, anima quer dizer alma, espírito.

 

 

Clarice:

Você também doutor?

 

Sócrates:

Pois é, foi um sujeito meio estranho

que sempre aparece por aqui que me contou essa.

 

Clarice:

Mas voltemos ao assunto, doutor.

 

Sócrates:

Qual é o seu problema, Clarice?

 

Clarice:

A vida na cidade é cheia de defeitos.

 

Sócrates:

Poluição, barulho, aglomeração…

 

Clarice:

Mas acho que simplesmente destruir tudo,

viver no meio do mato…

Isso não resolve.

 

Sócrates:

Por quê?

 

 

A intersecção final:

os três personagens [Clarice, Sócrates e o Fauno] vão falar de frente para a platéia.

Eles formarão uma pequena fila [um ator ficará atrás do outro, alternando-se conforme a fala].

A idéia é passar ao público a sensação de que os três são na verdade uma só pessoa [a consciência da Clarice].

 

 

Fauno:

A vida selvagem não é nenhum paraíso.

 

Clarice:

E a cidade também tem coisas boas.

 

Sócrates:

É possível ter uma vida perfeita?

 

Fauno:

Talvez eu consiga uma casa igual à do João Carneiro.

 

Clarice:

Mas isso me isolaria das outras pessoas.

 

Sócrates:

É possível ter uma vida perfeita?

 

Fauno:

Na cidade, eu teria mais proteção.

 

Clarice:

No campo, minha vida seria mais saudável.

 

Sócrates:

É possível ter uma vida perfeita?

 

Fauno:

No meio do mato, eu tenho medo das feras.

 

Clarice:

A cidade também possui suas feras.

 

Sócrates:

O que seria uma vida perfeita?

 

Fauno:

Eu preciso da civilização.

 

Clarice:

Eu preciso da natureza.

 

Sócrates:

O que seria uma vida perfeita?

 

Fauno:

Eu preciso de amigos.

 

Clarice:

Eu preciso de privacidade.

 

Sócrates:

O que seria uma vida perfeita?

 

 

Agora os personagens, formando um triângulo, encaram-se.

 

Sócrates

Clarice                                                  Fauno

 

 

A fala deve ser alta (audível) e bem pronunciada.

 

 

Fauno:

Etimologicamente

 

Clarice:

perfeito é o que já está feito.

 

Fauno:

Etimologicamente

 

Clarice:

perfeito é o que já está pronto.

 

Fauno:

Etimologicamente, portanto,

 

Clarice:

perfeito é o que não evolui.

 

Todos (olhando de frente a platéia):

Felizmente e infelizmente

o mundo não é perfeito.

 

FIM