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Francis Stémon – Discurso final

O texto abaixo é fruto dos meus alunos do 8ºEF de 2009. Usufrua.

O nosso filme conta a história da cidade de Celene, uma cidade grande.
Uma cidade grande como qualquer outra cidade grande que vocês conhecem.
Uma cidade grande com grandes problemas.
Lá havia um prefeito muito esperto e oportunista: Lupércio das Neves.
Lupércio era muito habilidoso com as palavras, mas ele não sabia o que fazer para melhorar a vida da cidade.
Então, ele pediu ajuda a um famoso projetista, Francis Stémon, o símbolo do raciocínio lógico, o símbolo do raciocínio calculado e preciso.
Francis tinha a ambição de fazer a cidade perfeita.
Não sei se vocês percebem, mas essa história dialoga com a famosa história de Frankstein.
Para quem não sabe, Victor Frankstein é um cientista que, em busca de criar o homem perfeito, acaba criando o famoso monstro.
Francis Stémon, entre outras coisas, remete a Frankstein.
Sua cidade ideal vai também se transformar num monstro.
Ele, no entanto, não é uma má pessoa.
Vocês verão o diálogo dele com Cláudio, um antigo amigo de faculdade.
Cláudio, por mais que acreditasse na honestidade do amigo, nutria fortes receios sobre o futuro da cidade.
Valerá a pena abandonar os direitos individuais em troca de uma suposta busca da perfeição?
Esse é seu questionamento, essa é sua dúvida.
No fim do filme, quando são revelados os verdadeiros interesses do prefeito Lupércio, quando são revelados os verdadeiros problemas da cidade, todos….
Todos querem que Cláudio seja o salvador da pátria.
O herói que resolverá todos os problemas.
Mas ele, Cláudio, ele se sente capaz de criar a cidade perfeita?
É o que vocês vão ver logo na sequência.
Em nome de todo meu grupo,1 muito obrigada.

Clarissa, no dia da premiação.

[…]

 O DISCURSO DO CLÁUDIO:

Dez anos atrás, [Celene] deixou-se seduzir por uma promessa.
A promessa de uma cidade perfeita, livre de injustiças sociais, livre da violência, livre da desorganização que assolava nosso cotidiano.
Vocês ficaram otimistas, confiantes, alegres… mas terá a felicidade convivido mesmo conosco esse tempo todo?
Não sei de vocês, mas eu sempre tive um pé atrás.
Não que os problemas da nossa cidade fossem pequenos.
Não que eu não me interessasse por mudanças.
Mas eu temi.
Eu temi o discurso em prol do controle, da ordem, do planejamento.
Eu temi que a limitação do poder individual pudesse nos cegar.
E talvez tenhamos mesmo fechado os olhos.
É verdade que, com a proibição dos veículos privados, o trânsito ficou melhor.
É verdade que o desnível educacional fora banido.
Como negar que o envelhecimento se fez a lentos passos?
Transporte, educação e saúde… foram os pilares do governo que imperou nos últimos anos.
Mas eu tenho o direito de questionar… o direito de refletir.
Um transporte mais rápido e abrangente, um transporte menos poluente vale o controle de nossos movimentos?
Um sistema educacional que não discrimina obrigatoriamente tem de ser singular?
A pluralidade de saberes é somente discurso de uma elite privilegiada?
Envelhecer, amadurecer são palavras tão ruins?
Talvez vocês discordem de mim num ou noutro ponto. Isso eu aceito.
Mas ninguém aqui, ninguém, pode negar a importância da liberdade do indivíduo.
O direito de o indivíduo pensar por si só.
Quem aqui discorda da importância da aprendizagem?
Bom, enfim…
Vejo em seus rostos um tom de otimismo, esperança.
Sei o papel simbólico que eu adquiri nesse episódio todo.
Vocês, amigos, aguardam um desfecho, uma promessa, algo que indique o final feliz.
Todos nós desejamos, no fundo do peito, a cidade perfeita.
Mas, é preciso perceber, é preciso lembrar…
A cidade perfeita só existiria se habitada por seres perfeitos. Se habitada por seres prontos.
Mas não somos perfeitos. Não estamos prontos. Estamos em constante processo de evolução, de desenvolvimento.
Não façam essa cara de tristeza. A imperfeição, a possibilidade de mudança, é nossa dádiva, é nossa sina.

“O homem é uma errata pensante” (Machado de Assis).

[…]

1O grupo: Arthur Gonçalves, Caio Albuquerque, Carolina Coviello , Clarissa Galiam, Fabio Arai, Felipe Tetsuo, Guilherme, Henrique Vaz, Júlia Albuquerque, Lucas Yu, Luíza Latorre, Mateus, Michel Rozel, Natália Cristina, Nícolas Chiu, Raul Vaz, Renan de Lucca, Vítor Yan, William Sun, Luke Zheng.

 

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Cara a cara

Ontem fui rever In on it, no Teatro Eva Herz. Sim, rever, pois desta vez eu fazia questão de estar na primeira fila, frente a frente. É uma experiência visceral ver com nitidez a pupila dos atores.

 Não, o suor e a saliva não quebram o encanto. O realismo da encenação em harmonia com a verossimilhança das cenas captam, cativam nosso olhar. A fruição estética, se perde o plano geral, ganha o intimismo de uma interpretação quase privatva – e não uso o termo com a sensação ingênua de que o elenco atuava só para mim; o privado, aqui, deve ser entendido como a libertação de toda e qualquer interferência que nos distraia da peça. Eis o encanto.

O grande inquisidor

Amanhã vou assistir novamente a peça O grande inquisidor (adaptação do capítulo homônimo de Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski), no teatro Ágora. Um pequeno resumo, para quem não conhece a história:

 Sevilha, século XVI, época áurea da Inquisição; época em que as fogueiras se alimentavam dos corpos impuros dos hereges. Surge um homem a quem os fiéis reconhecem como o cristo redivivo. Após  fazer truques baratos para impressionar o populacho – ressuscitar uma criança, curar um cego, essas mesquinharias… – o barbudo balzaquiano foi mandado atrás das grades por ordem do Cardeal (este sim com inicial maiúscula), o qual se tornou o responsável por inquirir do artista mambembe o segredo por trás de seus truques.

 Eis que começa a peça, o grande e privativo interrogatório em que o Cardeal fala e o pretenso cristo cala. Isso mesmo. Sinal de submissão ou de superioridade, o barbudo andante nada diz a peça toda. Apenas o Cardeal controla a palavra – e que palavra! Poucos artistas tratam tão bem o verbo quanto Celso Frateschi. Conheci-o ano passado no monólogo Sonho de um homem ridículo, e já fiquei impressionado. A título de comparação, mesmo numa peça de boa qualidade como Agreste, com artistas de grande capacidade como Joca Andreazza, a sensação não é a mesma; sua voz máscula e rija não alcança a suavidade que o papel exige – por isso ele se dá muito melhor em Anatomia Frozen; imagine então levar os ouvidos para degustarem o insosso Rodrigo Lombardi, na regular A grande volta, é  – no mínimo – decepcionante. Enfim, voltemos ao que interessa.

 A peça trata da liberdade, dádiva ou maldição?, que cristo legou à humanidade. Parece um texto ateu, no sentido em que todo o discurso do Cardeal parece remeter à ditadura cristã,  mas não custa lembrar que Dostoiévski era um cristão – um cristão heterodoxo, é verdade, do naipe de um Nelson Rodrigues, aquele que dizia gostar da religião, mas não gostar de religiosos. Eu, pessoalmente, simpatizo-me com esse tipo de conduta. Certa vez percebi que os judeus que eu mais admiro são justamente os não religiosos: Chaplin, Grouxo, Wood Allen, fora um antigo professor da faculdade que, se não me fazia rir como os outros três, foi-me mais importante que o resto da lista. E eis que o texto parece empacar – mas não é acidental, tenho pudor em contar mais do que o necessário; a peça ainda está em cartaz e – ao lado de In on it – é daquelas que eu faço questão de rever. Para terminar:

Aparentemente, O grande inquisidor é um monólogo, visto que apenas Celso Frateschi, o inquisidor, faz uso da voz; Mauro Schames, o cristo reencarnado, só emite o próprio calar. E isso basta. Pouco a pouco, a fala do Cardeal vai apresentando e defendendo seus argumentos ao mesmo tempo em que, à moda dos grandes narradores machadianos, eles revelam o triste segredo guardado sob a máscara dos dogmas. Não por acaso, no final da peça, acusador e acusado trocam de lugares. Quando uma regra se torna mais importante do que o ideal que lhe deu vida, é imprescindível que a burlemos.

 Parece-me normal que muitos cristãos reclamem, mas creio que muitos outros ficarão felizes em ver (rever) a grande lição de liberdade, sempre ligada aos grandes homens.

 Real ou mito, desde que a lição seja apreendida, pouco importa.

A grande expectativa

Aproveitando a sequência de dias livres, ontem fomos ao teatro FAAP assistir a A grande volta, peça de Serge Kribus, traduzida por Paulo Autran e dirigida por Marco Ricca. De acordo com o que li no UOL, um dos atrativos da peça era o ator global Rodrigo Lombardi, de quem nunca ouvira falar. Isso, porém, não quer dizer muito, afinal quando assisti a Policarpo Quaresma eu também não conhecia o ótimo Lee Thalor. Enfim, sem qualquer tipo de expectativa pré-moldada, fomos curtir o espetáculo.

A grande volta conta uma noite na relação entre pai e filho. Assim que a peça se inicia, sabemos que Henrique, jovem publicitário de trinta anos, havia recentemente perdido o casamento e o trabalho – em termos concretos: ele ficou sem esposa, sem filho e sem dinheiro. E o pior: ele sabe ser o grande responsável por suas perdas. Como se não bastasse, ele recebe a inesperada e indesejada visita de seu pai (Fúlvio Stefanini), um velho ator decadente, que pretende ficar hospedado “uma semana ou outra… no máximo dois meses!”, afinal ele precisava se preparar adequadamente para seu grande retorno aos palcos: estrelar a peça Rei Lear, de Shakespeare.

Apesar das excessivas gargalhadas da plateia, estávamos assistindo a um drama. Aos poucos, o filho revela aquilo que a bagunça da sala já antecipava: sua vida estava em ruínas. Seu ferrenho racionalismo, disfarce típico da mais incontrolável das fúrias, fez com ele assumisse brigas sem sentido tanto com seu ex-chefe (no qual atirou um vidro de tinta após ter um trabalho criticado) quanto com sua esposa (contra a qual esbravejou violentamente por causa de uma lata de tomates). O problema do pai é parecido: sua dificuldade em manter um olhar crítico, em escapar das fantasias e devaneios, faz com que ele dê pouca atenção às palavras do filho, faz com que ele não perceba que seu grande retorno aos palcos é apenas um doce faz de conta.

Se existe um momento que ilustra bem essa situação, é quando eles discutem sobre a relação de Lear com sua filha Cordélia. Seria o velho pai um louco ranzinza e vaidoso? Seria a filha uma representante do pior pragmatismo fleumático? A convicção com que cada um se identifica com o personagem que melhor o simboliza é cômica. Disse ali atrás que pai e filho se parecem. Sim, o dito racionalismo de um e a paixão do outro são igualmente cegos, igualmente egocêntricos. Talvez aí esteja a grande causa da maioria dos problemas de relacionamento; a dificuldade com que abrimos mão de nossos pontos de vista para nos ouvir – ou melhor: escutar – aquilo que o outro tem a nos dizer. Reconhecer o interlocutor como um ser ativo, em vez de um mero receptor a nossas exclamações, eis a questão.

O título da peça, por seu exagerado otimismo, cheira a melancolia. São muitas as grandes voltas que a peça nos sugere. Desde o retorno aos palcos do grande Bóris, a mais óbvia de todas, até ao possível retorno da esposa, passando pelas tentativas de Henrique em conseguir um novo emprego, a peça nos faz pensar na dificuldade de encararmos racionalmente uma derrota. Sim, em alguns momentos ela provoca risos, mas um riso amargo que mal conseguimos aproveitar.

Mal servido

Sócrates me fez ir ao teatro. Pegar ônibus num dia quente e chuvoso. Ficar na fila mal organizada num dia quente e chuvoso. Tomar a suja chuva paulistana num dia quente e chuvoso. Mas Sócrates vale a pena. Assistir à dialética em ação – discussões, ideias em polvorosa – não abriria mão disso tudo. Foi isso, e não os comes e bebes, que me levou a ver a encenação de O Banquete pelo Teatro Oficina em fins de dezembro.

A decepção não poderia ser maior; a peça já começa concluída: os argumentos cederam lugar à pura exposição de um ponto de vista – o elogio ao amar, verbo intransitivo; não importa o quê, não importa a quem. Contra a conclusão em si, nada tenho, filosoficamente falando. O problema é chegar a ela sem o devido debate, a desejada discussão (Caricaturar o oponente como um fanático fundamentalista cristão – acreditem em mim, chegaram a esse nível – possui a mesma graça que as piadas em que os comunistas são retratados como comedores de criancinhas; esse tipo de humor rasteiro combina mais com a erística do que com a dialética).

 Moralmente falando, não vejo nada contra a excessiva exposição de nudez. Mas não posso concordar com quem vê nisso uma forma de contestação, um modo de sacudir o público. Talvez isso funcionasse se a plateia fosse constituída por velhotas saídas do convento, mas ao público de mente adolescente, já acostumado com novelas e zorras totais da vida, a nudez lhe serve mais de estímulo corpóreo que intelectual. Não por acaso, o vinho servido ao público é leve e suave, fácil de beber, muito adequado a paladares imaturos[1]. Se isso foi uma ironia proposital, ponto para o Zé Celso!

 Infelizmente, não deve ter sido. Infelizmente não conheci o Oficina da década de 1960, quando sua fama parece ter se construído / consolidado, mas a primeira impressão deste que aí está não poderia ser mais brochante.

 


[1] À parte de qualquer discussão artística, a Casa Valduga produz excelentes vinhos.

Tá rindo de quê?

Sexta passava estava no teatro esperando uns amigos. Sentei-me na terceira, e última, fileira da arquibancada, pensei em abrir um vinho ou acender um cigarro, mas não me deixaram; seria falta de respeito com o artista e com a plateia. Concordo. Ademais, não vamos ao teatro para beber ou fumar. Certos prazeres individuais têm sua hora e vez. E eu sei me comportar.

Meus amigos chegaram, acalmei minha sanha, a peça começou, a atriz fez uma piada banal e muitos começaram a rir. Mais uma piada sem graça, mais risos. Uma terceira piada estava ainda sendo contada, mas o sujeito da frente já estava rindo. Até pensei que ele fizesse parte da peça. Talvez o roteiro fosse mais ou menos assim:

Atriz: Todo mundo que acredita em outras vidas, todo mundo, acredita ter sido alguém importante. Há alguma Cleópatra aqui hoje?
Homem alegre da plateia: há! há! há!
Atriz: Existe aqui algum Dom Pedro I? Algum Napoleão? Algum Pelé? – Ah, o Pelé não morreu…
Homem alegre da plateia: há! há! há!
Atriz: Algum Michael?
Homem alegre da plateia: há! há! há!

Na peça dos meus sonhos, um outro personagem, bastante irritado, se levantaria expulsando o homem alegre da plateia: “Xô, claque! Vá embora! Não é de risos assim que a peça precisa!  Mas não foi isso que aconteceu; a peça continuou seu percurso sem minha interferência, o que talvez tenha lhe garantido uma sobrecota de risos. Está reclamando do quê? De amarga já basta a vida…

Só se for a sua, meu caro. O paladar é mais complexo do que  a dicotomia doce-amargo pode supor, mas não fugirei da questão.  O que me incomoda não é o riso em si – ou melhor, é justamente o riso em si, o riso para si, o riso como meta, o riso que a nada aponta, o riso que nada revela. Em vez disso, prefiriria o o riso cínico de um Machado de Assis, de um H. L. Mencken ou mesmo de um Woody Allen, mesmo sabendo da grande probabilidade de eles, às escondidas ou não, estarem rindo da minha cara. Isso que estou dizendo nem é novo, até os manuais mais desatualizados de literatura ensinam que na base do teatro português era comum o  Ridendo castigat mores… Estou pedindo muito? 

Não há como negar que me senti incomodado pela quantidade de piadas de cunho sexual (de gosto pra lá de duvidoso) que iam sendo lançadas sempre que houvesse – ou não – uma deixa. Consultei o relógio: em vinte minutos de peça, não havia achado graça em nada. Pensei então em captar uma frase de impacto que fosse, algo que pudesse – vamos dizer – salvar a noite. Num determinado momento, ouve-se “o livro dissemina ideias”. Bingo! Não só o livro, mas o teatro também pode disseminar ideias. Foi para isso que saí de casa aliás – mas não. Os intertextos culturais (princesa de Sabá cometendo a dancinha do Michael Jackson, inclusive) ofendiam-me profundamente. Sei que o humor é uma forma de identificação entre ator e público, talvez por isso mesmo tenha me sentido tão pouco à vontade perante um espetáculo que me considerava um pleno idiota. Caso algum sujeito sem noção acendesse um cigarro no meio da peça, todo mundo (inclusive eu) notaria sua indelicadeza e falta de modos, mas acho que nosso cérebro deveria ser tão bem preservado quanto nossos pulmões. 

Quis me levantar, sair de lá o quanto antes, acender um cigarro, conversar com uma pinot. Mas não fumo. E não havia nenhuma garraga comigo. Ademais, não queria interromper a peça. Afinal, sei me comportar.

P.S.: Apesar de ter achado a peça extremamente fraca, gostei dos recursos cênicos da atriz.

P.P.S.: O que salvou a noite foi sair para jantar na rua de trás do teatro. Se não fosse o restaurante, é bem capaz que meus amigos ficassem revoltados comigo.