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brumático

O cheiro de barro ainda se encontrava em sua pele. O gosto telúrico, tão seu, não lhe saíra por completo da boca. Até mesmo suas mãos ressecadas guardavam ainda uma camada de pó, primeira pele. Se sentia tudo isso, se percebia a inabilidade em expressar esses sentimentos tão primordiais, não revelaria, pois padecia já do fado moderno da solidão. Cores, aromas, texturas, sons e sabores compunham então uma só coisa, gosto primevo. Gosto sem gosto, pois não compartilhado, não dito, sequer refletido.

É predominante em certa cultura masculina esse desejo, quase necessidade, de segurar o gozo como se os impulsos devessem ser freados; como se a suspensão do clímax acentuasse o prazer, como se o fremir pudesse se eternizar, como se não houvesse no prolongamento do coito outro agente, buscando não só o próprio prazer, mas também o grito alheio, o berro, o urro por todas as escolhas findadas, o alento de um quê de esperança, a vitalidade em sua desmedida unidade…

Gosto de sentir seus dedos se perderem nos meus cabelos. Gosto do modo como se atiçam sensações e lembranças. Seus dedos se multiplicam, deixam de pertencer apenas ao momento presente, ao estado concreto, tornam-se memórias e projeções. Sua substância se dissolve, verbaliza-se. Sim, é um elogio.

E de sua costela, e do oxigênio que se abrigava em seus pulmões, vieram Eva+Evo. Com ambos conheceu os contrastes e as antíteses do mundo. O gáudio derramado no chão; o fruir suspendido, mais ideia que fato. Evanescência eviterna? Infelizmente não compreendiam paradoxismos.

O prazer, quando visto como mera abstração, torna-se uma meta burocrática, desvencilhada da ação em si, como se a gestualidade fosse um mero instrumento e não um organismo já em desenvolvimento. O estar lançado às traças em nome do pode ser – daí a mecanicidade de um e a frigidez do outro.

Gosto quando você se esquece de que está aqui. Gosto do seu mero existir, irrefletido, irresponsável, egoísta sem ego, cúmplice integrado. Sem passado nem futuro, somente aqui.

Ao olhar para ela e para ele, ainda que saiba distingui-los, não consegue hierarquizá-los conforme gênero, beleza, encanto ou simpatia. Algo, uma consciência indevida talvez, lhe sugere que deve fazê-lo. Por que confiar num ser sem braços e pernas, quase que só pescoço?

Pois o gozo se associa à melancolia, o esparramar-se gera arrependimento e luto, como se após o findar não restasse nada, apenas dois indivíduos entregues à realidade da qual tentaram fugir.

Não tema, meu bem. Você acordou, mas o sonho ainda não se foi. Não tema, não pense no fim. Ainda não.

O jovem apaixonado – tema de redação

Propósitos da atividade:

Escrita criativa; articulação do ponto de vista, listagem, percepção sensorial, figuras de linguagem.

História base:

Por volta das 23h45, um jovem romântico de vinte e alguns anos está no cemitério visitando a amada
recém-falecida. Você observa a cena e relatará seu ponto de vista sobre a situação. No final da história, o jovem começará a cavar a sepultura onde ela fora enterrada.

Tarefa:

Recrie a história, a partir de um ponto de vista diferente.

 

Foco Narrativo

Narrador

Especificações

Poderes / Perspectiva

Coveiro

Novato

Jovem

Convívio com a morte

Experiente

Meia idade

Estudante 

Compromissado

 

 

 O estudante teve de cortar caminho pelo cemitério para chegar à pensão no horário correto.

Festeiro

Bêbado

 

 

Ebriedade; sentidos e raciocínio confusos

Corvo

 

 

Voo; visão do alto

Árvore

Carvalho [Adequação]

Jabuticabeira [Inadequação]

Memória; alimenta-se de defuntos.

Defunta

 

 

 

Abordagem

Repúdio

Distanciamento

Análise filosófica

Linguagem formal

Humor

Identificação

Proximidade

Análise social

Linguagem informal

Drama

 

 

 

 

 

Técnicas

Metonímia

Personificação

Antítese

Sinestesia

Aliteração

Metáfora

Gradação

Paradoxo

Perífrase

Assonância

Ironia

Hipérbole

Clímax

Anticlímax

Eufemismo

Discurso indireto livre

 

 

 

 

Recursos sensoriais

Olfato

Tato

Paladar

Audição

Visão

Doce, ácido, salgado, amargo, ardido, odor, aromático, balsâmico, cheirar, inspirar, inalar, sorver, exalar, emanar, essência, extrato, vapor, inodoro,
perfume, eflúvio, farejar, fedor, fartum, bafo, chulé, pútrido etc.

Apalpar, tocar, tatear, relar, ter olhos na ponta dos dedos, sentir, esfregar, quente, morno, abafado, fresco, frio, gélido, úmido, seco, ardor, comichão, coceira, tangível, intangível, seboso, oleoso, suar, bolor etc.

Doce, ácido, salgado, amargo, frutado, papila gustativa, língua, dente, céu da boca, provar, petiscar, morder, lamber, saborear, lamber os beiços, cravar os dentes, insipidez, insosso, brando, pífio, tédio, picante, defumado,
condimentado, regalo, iguaria, ranço etc.

Tímpano, martelo, caixa acústica, labirinto, fonoaudiólogo, ouvir, escutar, pressentir, dar ouvidos a, ensurdecer, audível, inaudível etc.

Ver, olhar, namorar, espreitar, examinar, inspecionar, mirar, de relance, observação, reconhecimento, espionar, campo de visão, foco, turvo, desfocado,
vista do alto, periscópio, retina, pupila, miopia, estigmatismo, hipermetropia,
cores, luz, sombra, penumbra, gradação, matizes etc.

 

 

 

 

 

 

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Periféricos caianos

Ao corrigir a tarefa de um aluno meu, o Caio, deparei-me com um periférico* muito bem trabalhado. Ele se assemelhava a um conto de fadas, mas tinha um quê meio non sense que lembrava os koans orientais. Por falta de nome melhor (periférico narrativo é muito pouco, periférico filosófico seria muito genérico), resolvi denominá-lo de periférico “caiano”. E, numa homenagem do tamanho que posso alcançar, resolvi fazer meus próprios periféricos caianos. Conseguir montar uma aula com base naquilo que meus alunos criaram / desenvolveram é certamente um dos privilégios da minha profissão.

Obs.: 

* Infelizmente, esqueci-me de tirar uma cópia do texto antes de devolver o caderno ao aluno. Caso ele me envie o texto, colocá-lo-ei aqui com todo prazer. 

* Para quem não sabe, chamamos de periférico o trecho inicial de uma introdução (de texto dissertativo), o qual se caracteriza por não remeter imediatamente ao tema. Um exemplo, em vermelho:

De um lado da ponte, o poeta admira a margem oposta. Parecia haver maravilhas sob aquele Sol reconfortante, um ar mais límpido, cores mais vivas. Almejando-as, atravessa a ponte: um caminho sem volta-as águas do rio caudaloso devorariam o percurso conforme a travessia era feita. A cada passo, uma desconfiança cada vez maior passa a inquirir a margem idealizada: a que deixara parecia cada vez mais bela vista de longe. É de forma semelhante a esse poeta que todos nós construímos as nossas vidas: atravessamos infindáveis pontes em busca de satisfação pessoal, da construção de uma identidade, em suma, de um lugar melhor. Entretanto, esse contínuo mudar “de margens” envolve mudanças que não podem ser desfeitas, daí a importância de analisarmos se tal empreita é realmente válida.
Travessias (Michell Lee) – [Texto completo aqui]

* Quanto mais inusitado o periférico, maior a chance de o texto se distinguir. Mas também maior será a dificuldade de mantê-lo coerente e coeso.

E agora, com vocês, os periféricos caianos:

Exemplo 1:

Como se fosse um sonho, o boneco de madeira ganha vida, movimentos, curiosidade. Passa a perambular de um lado para o outro em busca de aventuras e descobertas. Mas não, não é ele o personagem mais importante dessa famosa história. Gepeto, o velho sábio e solitário, simboliza perfeitamente as frustrações daqueles que anseiam uma vida simples ao lado de seus pares. No entanto, não há como escapar: são ímpares e complexos.

 Exemplo 2:

Depois de traçado um longo e sinuoso caminho, apagado suas pegadas, eliminado qualquer pista que revelasse seu percurso, o eremita enfim alcançava a paz. Finalmente, ele poderia descansar, sabendo que ninguém o encontraria. Ninguém poderia retirá-lo daquele esconderijo tão bem calculado. Agora ele estava só, sem ninguém para incomodá-lo, e sem ninguém para protegê-lo do maior perigo que ele poderia encontrar.

 Exemplo 3:

“Era uma vez…” um sem número de histórias encantadoras, repletas de magia, enigmas, desafios – mas todas elas com o mesmo previsível final feliz. Dizer que se trata de um clichê seria apenas outro clichê. É importante compreender que nem sempre foi assim e, acima de tudo, é fundamental entender as razões que levaram esse tipo de desfecho a fazer tanto sucesso.

[…] “E eles viveram felizes para sempre…”, pois precisávamos acreditar que esse tipo de história era possível.

Exemplo 4:

Ela olhou para o espelho e viu inúmeras pessoas, mas não conseguiu ver si própria.

 Exemplo 5:

Já há muito ele havia passado dos trinta. Uma carreira séria, sólida e congruente. Depois de uma longa reunião, foi levado a uma cafeteria sem tanto requinte, mas de bom gosto – lhe disseram. Pediu um café simples, visto que se tratava mais de um costume do que de um prazer. Mas foi só aproximar a xícara dos lábios que ele sentiu um antigo aroma invadir seu cérebro e se lembrou da infância, da época em que não precisava se esforçar para parecer uma pessoa realizada.

 Exemplo 6:

Viver é como andar de bicicleta. A regra para se evitar o tombo não é buscar um ponto de equilíbrio, algo que nos mantenha estáticos, livres de qualquer instabilidade. Os veículos incitam o movimento. E mover-se é a arte de buscar, instante após instante, um novo ponto de equilíbrio, tão efêmero quanto o anterior. Afinal, viver – assim como andar de bicicleta – é a arte de equilibrar-se em constante desequilíbrio.

***

P.S.: Como dito em sala. Caso alguém queira desenvolver qualquer um dos exemplos acima, por favor, sinta-se à vontade.

Diversão e divergências

(Antes que você se assuste, deixe-me explicar  a dissertação abaixo. Trata-se de um exercício de interpretação de texto que eu  desenvolvi para meus alunos do ensino médio.  Há aqui inúmeros erros [não necessariamente de gramática] que comprometem – e muito – a qualidade do texto. Caso você sinta curiosidade em ler um texto ruim – nem que seja apenas para descobrir os erros – que, como você já percebeu, também já começaram a aparecer aqui, nesta introdução -, por favor, sinta-se em casa e fique à vontade). Desta vez é de graça.

 

A lousa, amplamente preenchida com setas coloridas e notas de rodapé, parecia a de um físico; na sala ao lado, o professor contextualiza o final do século XVII com a precisão e o encanto de um historiador. Mas não era um físico ou um historiador. Era um historiador e um físico. Na escola interdisciplinar é assim, sem disciplinas fixas, que as aulas são dadas.

Pode parecer novidade – e é – mas não é. Na Renascença era comum encontrarmos estudiosos múltiplos e polivalentes. Da Vinci, por exemplo, foi pintor, escultor, desenhista e inventor. Michelangelo foi desenhista, escultor e pintor. William Blake foi poeta, tipógrafo e pintor. O intelectual especialista é uma criação recente – e nada romântica.

Foi com o advento da revolução industrial que se criou a necessidade de se treinarem especialistas. No começo do século XX, as linhas de montagem desenvolvidas por Henry Ford, de acordo com o filósofo Karl Marx, causaram a alienação no trabalho. Se até então o trabalho estimulava o desenvolvimento cultural, a partir dali ele passou a escravizar o homem.

A interdisciplinaridade, não à toa, possui um papel fundamental, quando pensamos no seu papel histórico. Preparar professores que consigam dialogar com competência disciplinas diversas será o grande diferencial neste início de século. Isso demandará um investimento de proporções, mas cujos resultados serão ainda mais exponenciais. A Nova Renascença está por renascer.

 

caminhares

Tema: o prazer da conquista (sugerido pelo meu chapa Thiago M, de Matemática).

Criação da antítese primária: prazer da conquista x importância do fracasso.

Estruturas escolhidas:
a) introdução: periférico > tema > tese;
b) demais parágrafos: tópico frasal > desenvolvimento > gancho;
c) conclusão: será estudada nas próximas semanas.

***

        Acertar uma cesta de três pontos no último segundo, ter um texto elogiado pelo escritor favorito, receber o beijo de uma pessoa rara. Sem dúvida alguma, a vida é feita de pequenas grandes conquistas. Um acontecimento banal para quem vê de fora pode ser uma epifania para o sonhador.

        Somos feitos de matéria e sonhos. Ainda que os relógios insistam em nos manter focados em objetivos nem sempre confiáveis, é importante descobrir ou inventar tempo para investirmos naquilo que é verdadeiramente nosso. Por mais meândrico que seja o percurso, por mais pedras que tenha no nosso caminho, viver é errar.

        Não é fácil ser um errante. Escolher os passos, descobrir veredas, enfrentar a contramão sempre trará obstáculos e uma ou outra decepção. Mas isso faz parte. Ninguém descobre uma paisagem inédita obedecendo passivamente todas as instruções do guia de viagem. Arriscar é preciso, assim como é preciso um pouco de cautela. Há matizes por toda parte.

        […]

Luzes e afins

 Caso alguém queira escrever algo sobre o assunto, mas estava sem inspiração, o Dicionário analógico da língua portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, vem bem a calhar. Vamos dar uma olhada num excerto – adaptado conforme minha imaginação e inconveniência:

Luz, raio, clarão, lampejo, relâmpago, claridade, lucidez, vida, velocidade, disparo, feixe, aurora, bonança, luar, brilho, neblina, cintilação, radiação, irradiar, transbordar, exceder, brilhantismo, nitidez, fogo, faísca, imaginação, desejo, sobriedade, fagulha, chispa, branco, cal, gelo, água, lago, areia, estrela, sol, incêndio, chama, fogo-fátuo, diamante, pedra, lente, óculos, olhos, olhar, câmera, diafragma, fotografia, ouro, prata, laser, halo, glória, auréola, resplendor, espelho, refração, reflexo, dispersão, alumiar, arco-íris, fogos, ano novo, noite de são joão, fogueira, vaga-lume, pirilampo, íris, raiar; mas também: escuridão, cegar, ofuscar, penumbra, sombra, noite, madrugada. E assim vai…

Leia menos

      Leia menos – é com esse pedido quase suicida que Gerson Santos apresenta seu ambicioso livro de ensaios. Aposta arriscada, visto que livros assim (haverá outros?) pedem textos rápidos e ligeiros que não se percam na pressa ou na superficialidade. A quem o vê pronunciar frases como “muitas vezes gastamos tempo demais com a leitura” e sente uma vontade danada de enforcá-lo, ele pede um pouco de paciência e reflexão. Seria justamente esse o problema: lemos muito, pensamos pouco. Precisamos de tempo para digerir, assimilar, regurgitar se for o caso. A leitura não pode ser passiva. Quando lemos, o advérbio importa mais que o objeto.
     Não por acaso, o livro se divide em dois ensaios curtos. Não por acaso, em Leia mais, a proposta é a mesma. Um bom livro nos exige intimidade; carinho e malícia. Um livro só é bom se lido mais de um vez. Por isso, não espanta saber que a divisão dos ensaios seja quase invisível – não há índice indicando onde termina um e começa o outro. No entanto, a grande sacada estrutural está no insistente uso dos aforismos. Suas frases curtas e provocantes, que ora situam, ora jogam tudo para o alto, forçam-nos a uma leitura atenta e incisiva. Ainda que haja um quê de lugar-comum, é uma leitura prazerosa – eis a vantagem dos livros curtos.

Dos prazeres momentâneos

    Se só existe o presente, passado e futuro seriam meramente recapitulações e projeções – esse é o senso comum pós-moderno que Joca Vieira pretende desafiar. No prefácio de seu livro de estreia, Amendoado, ele propõe que o presente, sem suas descontínuas recaptulações e projeções, tenderia à infértil tautologia chão-chão. Só a abstração nos salva de ser quem fomos, só ela nos permite ser quem seremos.
    A ideia não é nova. Mas Vieira não a pretende original – a originalidade seria um mero deleite estético, tão belo e infrutífero quanto o amor homossexual, para usarmos uma de suas complicadas imagens. O ponto de partida é o pseudo pragmatismo dos livros de auto-ajuda que nas duas últimas décadas parecem ocupar o quinhão de espiritualidade a que precisamos recorrer quando o sucesso não nos quer agarrar. “Antigamente rezávamos em busca de inquietação, agora pedimos conforto e segurança” – diz o poeta, aparentemente acreditando no que diz.
    Quem viu sua entrevista ao Jô, quando se travestiu de vanguardista, exibindo  humor de baixo calão e trocadilhos infames, tomaria um susto ao folhear os poemas. É difícil vislumbrar qualquer preocupação em dialogar com os livros de auto-ajuda – justamente porque os leitores de auto-ajuda não estão acostumados a construções que beiram o surreal – ou o subreal, como ele gosta de dizer. Nesse sentido, o livro surpreende ao oferecer momentos quase aforísticos como “Na coleira do destino” (Mas eu não vi quem o domava) ou em um ou outro epigrama (quase o vi passar/ quando/ o vi voltar).
   Mas por outro lado, Amendoado é uma bela tentativa de deleite estético – não é o fruto que justifica o gozo. Talvez seu jogo seja justamente este: dar as bases para sua própria recusa, como se quisesse nos ensinar a dizer não. Como se o único jeito de conquistar nossa paixão fosse abrindo mão do nosso amor.
.
Só,  na sacada vã
em que os pensamentos fingem habitar,
sentia o conforto amplo e passageiro
de ser o que se está; pois é só isso que somos.
.

Da importância da alienação

– Deus do céu, como Eça é chato! Que aluno hoje em dia consegue ler A ilustre casa de Ramires sem bocejar um sem número de vezes? E A cidade e as serras, então? Eita historinha manjada… a oposição binária entre viver no campo ou na metrópole cheira a maniqueísmo. Ou ainda aqueles romances pouco convincentes que o Machado fez muito bem em recusar…

– Ei, “pera-lá”! Uma coisa de cada vez. Acho que essas três críticas possuem naturezas diferentes. Vamos analisá-las uma a uma.

– Para mim, todas levam a um mesmo ponto:  é preciso fazer os alunos lerem algo próximo da realidade deles e não essas coisas datadas, envelhecidas e desimportantes.

– Calma, calma. Não é enumerando adjetivações que se expressa uma ideia.

– Novamente você com esse puritanismo apolíneo. Injete um pouco de Dionísio nas veias.

– ‘Tá, daqui a pouco você continua com esses seus aforismos. Deixe-me, primeiramente, entender a questão. Você disse que o Machado recusou os romances do Eça, certo?

– Sim, ele achava a questão central d’O primo Basílio pouco convincente, tudo se resumia a um mero encaixe de acasos. Se a empregada gananciosa e invejosa não tivesse encontrado as cartas, não haveria história.

– Acho que esse resumo não toca na essência da crítica.

– Mas o Machado fez referência a esse episódio chamando-o de “defeito capital”, assim Ipsis litteris, sem tirar nem pôr.

– Sim, mas esse episódio é consequência da falta de personalidade da Luiza, eis o ponto.

– Não sei se o Machado foi tão claro em expor essa tese.

– Talvez por isso mesmo ele tenha voltado ao assunto duas semanas depois. Em todo caso, o que sabemos é que Machado estava bastante preocupado com a consciência das personagens. Talvez, mais importante do que as ações em si sejam o que as motivou. Atentemo-nos à causa, e não apenas aos efeitos.

– Meu amigo, você não percebe que com toda essa pompa argumentativa você acabou se traindo e trazendo mais razões à minha razão?

– Como assim?

– Ora, o meu intuito é desqualificar o Eça. E você está me ajudando.

– Bom, meu intuito não é defender o Eça, mas sim compreender melhor a questão que você me propôs. Em todo caso, a ressalva do Machado não elimina as qualidades do Eça, até porque ele não parou de escrever em 1878; sua literatura não se resume às primeiras obras. Do mesmo modo que não julgamos o Machado somente por aquilo que ele escreveu até este período.

– Mas de que adianta essa afirmação óbvia e redundante? Todo mundo evoluiu, nem que seja na horizontal. Mas de que adianta evoluir para chegar a uma historinha manjada como a de A cidade e as serras?

– Bom, A cidade e as serras é uma novela e não um romance propriamente dito. Assim sendo, é meio esperado que ela não tenha a densidade psicológica de um Dom Casmurro, por exemplo. Mas, por outro lado, eu concordo que as características típicas de um gênero não devam ser uma amarra ao escritor.

– Agora sim você parece me entender. O escritor deve se expandir além dos limites da expectativa.

– É que na minha opinião A cidade e as serras não é um livro tão tímido assim. Alguns críticos estão revendo o papel deste livro. Talvez haja um cinismo bastante sutil. Nunca lhe ocorreu que o narrador,  Zé Fernandes, talvez esteja tirando um barato do Jacinto o tempo todo?

– Ah, “pera-lá”! Você vai cair nessa de ler o Eça como se ele fosse o Machado?

– Bom, ainda que seja uma suposição forçada, ela traz uma nova cara ao texto. Talvez o Eça tenha escutado as dicas do Machado. No mínimo, acho que é uma discussão que vale a pena. Ela até dá mais vida ao livro.

– Uma vida que o próprio livro não tem!

– Não seja chato. Os grandes escritores merecem ser revisitados.

– E quanto a A ilustre casa de Ramires? Que aluno hoje em dia curtiria revisitar esse texto antigo, de uma época antiga, sobre pessoas antigas que não nos dizem respeito?

– Acho que é exatamente esse o ponto. A arte pode fazer com que expandamos nossos horizontes.

– A arte deveria fazer o indivíduo conhecer melhor a sua época, o seu contexto.

– Sim, mas ao mesmo tempo precisamos de outros parâmetros. O outro nos ajuda a conhecer o eu.

– Esse tipo de literatura, que nos leva a outras épocas, outros contextos, é alienante!

– Houve uma época em que o nosso contexto era a placenta. De acordo com seus termos, nascer é uma forma de alienação. Então, viva a alienação!

* * *

O diálogo acima se baseia, entre outras coisas, no seguinte trecho de Gorazde, de Joe Sacco:

Um novo link

 Paris: algum dia de julho de 2009, em algum corredor do Louvre. O Henrique visitava as obras com certa rapidez, pois o cronograma assim o exigia, afinal daqui a duas horas estaremos num outro museu, daqui a dois dias estaremos em Roma. A Rosa, que ficaria três semanas por ali, não tinha por que se apressar, podia dialogar com os quadros, inda que eles respondessem sem muita claridade. A vida é assim mesmo, maior parte do tempo falamos sozinhos.

De relance ela o vê e parece reconhecer o jovem aluno do seu marido, mas claro que não podia ser ele, coincidência demais. Ele, se a tivesse visto, não teria dúvidas, sabia que ela estava ali, o professor havia mencionado em aula entre uma oração coodernada e outra. Mas ele não a viu, não a podia ver, sua viagem ao mesmo tempo em que acontecia já lhe causava saudades, típico de situações que não podemos usufruir em tempo real. Ela usufruía, ao menos tentava, pois lhe faltava um interlocutor. Não seria difícil achar algum, mas ela insistia em não procurar. Mulheres…

O saldo, a intersecção que não houve naquele dia, foram suas anotações, instrumento por meio do qual ela poderia compartilhar as experiência daquele mês a um só tempo rico, mas incompleto. Levar seu interlocutor, ainda que em pensamentos, ao espírito daquela estação; esse é o intento. Ele, por sua vez, assim que encontrou as anotações, sentiu-se novamente lá, porém como se nessa segunda viagem ele pudesse diminuir a velocidade e ver, em câmera lenta, aquilo que passou correndo perante seus olhos.

Por isso tudo, pelo empenho dela, pelas cobranças dele, resolvi colocar aqui o link dos textos – flanemos!

http://rosamin.wordpress.com/category/aventuras-em-conta-gotas-paris-e-londres-em-30-dias/